Por Anildomá Willans de Souza, pesquisador e escritor do cangaço

Essa opinião deve-se ao livro recém publicado Lampião, o Mata Sete, de autoria do Pedro de Moraes, em que afirma ter sido Lampião um homossexual e Maria Bonita, uma adúltera, formando um triângulo amoroso com o cangaceiro Luiz Pedro. Os inimigos de Lampião daqui do Pajeú já utilizaram os mais diversos adjetivos para expressar o quanto ele era facínora. 

Não foram apenas vinte ou trinta vezes que escutei relatos e depoimentos de Davi Jurubeba, João Gomes de Lira, da família de Zé Saturnino e dos Nogueiras em que jogam Lampião do inferno para dentro. Mas esse tipo de conversa como faz esse juiz aposentado Pedro de Moraes, é demais. Quem ele escutou para se fundamentar e publicar absurdos dessa natureza, ferindo e humilhando os brios das pessoas e das famílias, sem nenhum respeito a história? No dia 29, pela manhã, dia de feira aqui em Serra Talhada, conversei com os filhos e netos de Zé Saturnino sobre esse assunto, e eles disseram-me que deveríamos escrever uma carta de repúdio contra esse escritor. (Claro que ninguém vai fazer carta, mas é a forma de indignação manifestada por eles). Vejam bem, até os mais intrépidos inimigos de Lampião, não apenas contestam tais informações, como acham que é uma covardia.

Na extensa história do cangaço e nos estudos e pesquisas desenvolvidas, muitos  deixam passar desapercebidos  que todos trabalhos históricos precisam de uma metodologia que possa oferece atitude de cientificidade a produção e ajude a esclarecer os espaços em branco dos acontecimentos do decorridos. Sem método não tem como se arquitetar uma história que seja completamente fundamentada na verdade. Não é uma questão de acadêmicos ou daqueles que são detentores de um título adquirido nos bancos universitários e fazem da história uma profissão, mas o método é como se fosse um mapa que faz com que o pesquisador não se embarasse no meio do bombardeio de informações que recebe enquanto entrevista ou pesquisa.

No mesmo nível de importância são os documentos oficiais, cartas, relatos orais, fotografias ou gravuras, mapas e croquis, estes são, pode se dizer, a alma das pesquisas históricas e nos permite discorrer não de forma fortuita, mas nos dão um respaldo de verdade. No entanto, ainda posso afirmar que os documentos, apesar de serem importantes para as pesquisas, não podemos nos deixar levar por eles, pois nem sempre eles são detentores de verdades. Os documentos, quem estuda história sabe disso, devem ser questionados e debatidos.

Devemos conversar com esses documentos e também entender o lugar de sua produção e construção. Assim, nem todo documento explicita a verdade. Posso dizer tranquilamente que o autor não tem as provas documentais – depoimento de algum cangaceiro ou volante, entrevista, fotos ou qualquer uma outra fonte – que prove o que ele diz. Pedro de Moraes é um juiz aposentado, conforme li em alguns comentários. Ele emitiu uma informação baseado apenas no que lhe interessava, não em busca da verdade. Será que era assim que tratava os assuntos nos tribunais quando estava na em exercício do trabalho? Ele conseguiu fazer seu marketing para vender seus livros. Apenas sugiro que não comprem nem por curiosidade.

Quem trabalha com história movimenta com vidas, com existências que deixam recordações e que carecem de respeito. É preciso ter reverência para com o passado, como também para com os vivos do presente que merecem ter pelo menos uma aproximação do que é a verdade. O Pedro Moraes não passa de um estelionatário da história. Ô bicho bom pra levar uma malaca na ‘zurêia!’ Saudações cangaceiras.

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