Álcool pode estar ligado a risco de câncer mesmo bebendo 'socialmente'
Foto: Pavel Danilyuk/Pexels

Com informações do g1

O hábito de beber “apenas para brindar”, pode ter implicações mais sérias para a saúde do que se imagina. Uma revisão científica conduzida por pesquisadores da Florida Atlantic University (FAU) aponta que até mesmo o consumo moderado de bebidas alcoólicas está relacionado a um risco mais elevado de diferentes tipos de câncer, especialmente quando a ingestão ocorre de forma frequente.

O levantamento, realizado por cientistas da Charles E. Schmidt College of Medicine e publicado na revista Cancer Epidemiology, reuniu dados de 62 estudos, com amostras que variaram de 80 participantes a quase 100 milhões de pessoas. A análise identificou associações consistentes entre o consumo de álcool e tumores como os de mama, fígado, colorretal e cavidade oral, além de cânceres de laringe, esôfago e estômago.

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Os resultados indicam que não apenas a quantidade ingerida, mas também a regularidade do consumo, desempenha papel relevante no aumento do risco oncológico. Segundo os autores, há um padrão claro de crescimento desse risco à medida que a ingestão de álcool se intensifica ao longo do tempo.

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“Em 50 estudos analisados em nossa revisão, um maior consumo de álcool elevou de forma consistente o risco de câncer, com o risco aumentando à medida que a ingestão cresce. Fatores como o tipo de bebida alcoólica, a idade da primeira exposição, gênero, raça, tabagismo, histórico familiar e genética influenciam esse risco. Alguns grupos — como idosos, pessoas em situação socioeconômica desfavorável e indivíduos com comorbidades — são especialmente vulneráveis. O consumo pesado, diário ou episódico excessivo está fortemente associado a múltiplos tipos de câncer, o que reforça a importância da moderação e do seguimento das diretrizes de prevenção do câncer”, afirma a pesquisadora Lea Sacca, da FAU.

Do ponto de vista biológico, o álcool pode favorecer o desenvolvimento de câncer por diferentes mecanismos já descritos na literatura científica. Entre eles estão danos ao DNA provocados pelo acetaldeído, alterações hormonais, estresse oxidativo, supressão do sistema imunológico e maior absorção de substâncias carcinogênicas.

“Do ponto de vista biológico, o álcool pode danificar o DNA por meio do acetaldeído, alterar os níveis hormonais, desencadear estresse oxidativo, suprimir o sistema imunológico e aumentar a absorção de agentes carcinogênicos. Esses efeitos são potencializados por condições de saúde pré-existentes, escolhas de estilo de vida e predisposições genéticas, fatores que podem acelerar o desenvolvimento do câncer”, explica Lewis S. Nelson, coautor do estudo, reitor e chefe de assuntos de saúde da Schmidt College of Medicine.

A revisão também aponta que o impacto do álcool não é igual para todos. Idosos, pessoas com obesidade, diabetes ou em situação de vulnerabilidade socioeconômica apresentam maior risco, mesmo com padrões semelhantes de consumo. Além disso, fatores como tabagismo, alimentação, nível de atividade física e algumas infecções podem potencializar os efeitos nocivos do álcool.

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Tipo de bebida e diferenças entre homens e mulheres

Diferenças entre homens e mulheres também foram observadas. Em parte dos estudos, o consumo frequente esteve mais associado ao aumento do risco em homens, enquanto episódios de ingestão excessiva em curto período apareceram ligados a maior risco entre mulheres. Quanto ao tipo de bebida, algumas análises sugeriram maior associação com cerveja e vinho branco em determinados cânceres, embora os autores ressaltem que esses achados devem ser interpretados com cautela.

Apesar da robustez do volume de dados, os pesquisadores destacam limitações. A maioria dos estudos analisados é observacional e baseada em informações autorreferidas, o que dificulta isolar completamente o efeito do álcool de outros fatores e estabelecer uma relação direta de causa e efeito.

Ainda assim, o conjunto de evidências reforça que a chamada “moderação” não garante proteção absoluta. Para determinados perfis, mesmo pequenas quantidades podem representar um risco maior. Na prática, o recado é usar a evidência para decisões mais informadas — e para políticas públicas que deixem mais claro o vínculo entre álcool e câncer, como defendem os autores.