dermatologista Samara Godoy
Fotos: Lais Gomes/Farol de Notícias

Durante todo o mês de janeiro, a campanha nacional denominada Janeiro Roxo busca dar visibilidade para a hanseníase, uma doença silenciosa e ainda cercada de preconceitos e por isso, continua sendo um desafio para a saúde pública em todo o país. A hanseníase tem cura e também taratamento gratuito fornecido pelo Sistema Único de Saúde, o SUS, mas muitas vezes, a falta de informação, pode levar ao diagnóstico tardio e consequentemente, ao agravamento da doença.

Nesta terça-feira (20), a reportagem do Farol de Notícias conversou com a médica dermatologista, Dra. Samara Godoy, que atende em Serra Talhada e explicou quais são os sinais de alerta, como ocorre a transmissão e por que o diagnóstico precoce é fundamental para evitar sequelas e quebrar o estigma que ainda afasta pacientes do cuidado adequado. Confira a entrevista na íntegra:

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Farol de Notícias: O que é a hanseníase e por que ela ainda merece atenção como problema de saúde pública?

Dra. Samara Godoy: Hanseníse é uma doença infectocontagiosa, ou seja, tem uma transmissão, é infecciosa, causada por uma bactéria, o Mycobacterium leprae, e é uma doença muito antiga, que se ouvia falar já em épocas muito antigas, que as pessoas eram exiladas, que perdiam partes de membros. Então, por isso que é uma doença que ainda tem um tabu e um preconceito muito grande, e é fundamental a gente abordar nesse janeiro roxo, que trata sobre prevenção, sobre conscientização dessa doença, que é importantíssima a gente falar sobre ela.

Farol de Notícias: Quais são os principais sinais e sintomas que devem levar a pessoa a procurar atendimento médico?

Dra. Samara Godoy: Isso é fundamental, porque muitos pacientes que vêm ao consultório, eles vêm já com a doença avançada, pela falta dessa informação. Então, preste atenção. Se você em casa conviveu ou convive com alguém que teve hanseníse, que já tem esse histórico, ou você percebeu na sua pele uma manchinha branca ou uma manchinha avermelhada, às vezes elas fazem um desenho bem circular na pele, uma mancha vermelha, que a gente chama em alvo, em halo.

Então, se você tem uma mancha desse tipo, ela acomete várias áreas do corpo, pode ser só a manchinha simples e também a perda de sensibilidade. Então, às vezes a pessoa toca ali e não sente, ou às vezes está cozinhando, acaba se queimando mais e nem se percebe. Então, tá no fogão, queima numa panela, queima o braço e fica sem entender porque está se queimando, mas não presta atenção que aquilo pode ser uma doença, é exatamente a hanseníse.

Farol de Notícias: Como ocorre a transmissão da hanseníase e quem está mais vulnerável à doença?

Dra. Samara Godoy: É importante a gente falar isso porque existe um preconceito. Então, não é que a pessoa vai tocar, vai abraçar alguém com hanseníse e vai pegar. Não. Primeiro é preciso que essa pessoa que tem a doença, seja uma pessoa que vai passar. Ou seja, tem que ter o tipo da doença transmissível, que é o que apresenta muitas bactérias ali no corpo. Essa pessoa tem que conviver há longo tempo com essa pessoa.

Por isso que é importante todos os familiares e contactantes que conviveram nos últimos cinco anos serem examinados, examinar toda a pele, ver se precisa de vacina também. É fundamental a gente entender que não vai pegar tão fácil assim, mas esse contato prolongado com uma pessoa que seja infectante, que a gente fala, é que vai pegar. E outra coisa importante, quando a pessoa começa o tratamento, ali a partir dos 15 dias, mais ou menos, ela já não transmite.

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Não precisa se afastar da pessoa que está tratando de hanseníse. Isso é curioso, porque geneticamente existe as pessoas que são mais suscetíveis a apresentar a doença. Não é todo mundo também que vai conviver a longo prazo e que vai ter a doença. Não, já existe um fator mais ou menos genético determinado.

E claro, as pessoas que convivem em ambientes mais aglomerados, que moram muitas pessoas naquele ambiente fechado, que não tem, às vezes, janela, que tem uma convivência muito íntima. Às vezes, muitas pessoas dormindo no mesmo quarto e convivendo prolongadamente com alguém que tenha a doença, os alcoólatras, pessoas que já têm um imunodeficiência, isso acaba facilitando esse contágio.

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Farol de Notícias: A hanseníase tem cura? Como funciona o tratamento e onde ele é oferecido?

Dra. Samara Godoy: A hanseníse é uma doença infecto-contagiosa, que ela afeta, principalmente, a pele e os nervos. Então, às vezes, a pessoa, às vezes, nem percebeu uma mancha na pele, mas está sentindo alguma, digamos, um formigamento, uma perda de força. Ela afeta o nervo.

Às vezes, já chega pra mim aqui no consultório com a deformidade nos dedos, o pé caído, porque ele vai, vamos pensar assim, destruindo o nervo e também vai levando várias lesões na pele. E aí, o mais importante, é uma doença que tem cura, que tem tratamento. Esse tratamento é disponibilizado gratuitamente pelo SUS, então, isso é uma coisa que tranquiliza a gente.

Mas o mais importante de tudo é, primeiro, se você apresenta uma mancha na pele ou essa alteração de sensibilidade ou tá se furando, não tá sentindo, tá pisando em algo e não sentiu um prego. Às vezes, o paciente entra um prego no pé e ele não sente. Se tem alguma manchinha, alguma coisa na pele, já fica atento, procura o atendimento com o dermatologista para que a gente possa diagnosticar.

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Esse diagnóstico precoce vai prevenir as sequelas da hanseníase, que são muito mais importantes, impactantes do que o próprio alteração ali na pele ou só uma simples alteração no nervo. As sequelas são muito importantes da gente prevenir e isso é através do diagnóstico precoce, do tratamento precoce, que é disponibilizado pelo SUS, de forma gratuita.

Foto: Freepik

Farol de Notícias: De que forma o preconceito e a desinformação impactam o diagnóstico e o controle da doença?

Dra. Samara Godoy: Eu acho que a gente, a nossa pele, ela fala. É um órgão extenso que está sempre mostrando ali algo que esteja errado, acontecendo de diferente. Então, dê atenção à sua pele, dê atenção à sua saúde, de uma forma geral. Ali a gente já diagnostica, já examina, existem vários aparelhos, como dermatoscópios, vários instrumentos que a gente usa pra dar esse diagnóstico.

Vai testando ali a sensibilidade na pele e ali, a partir daquele momento, a gente já indica o tratamento, o paciente se trata em qualquer período do ano. Então, janeiro é apenas esse momento que a gente tira pra conversar mais sobre essa doença, pra esclarecer, mas pra que você em casa fique atento pra buscar um tratamento precoce e prevenir as sequelas da doença.