
Por Paulo César Gomes, professor, escritor, pesquisador, colunista do Farol de Notícias e apresentador da TV Farol
Serra Talhada, segundo maior município do Sertão pernambucano, ocupa hoje um lugar estratégico no tabuleiro político regional e estadual. Com crescente protagonismo e influência que extrapola suas fronteiras, seria natural que sua política refletisse, de forma proporcional, a diversidade do seu povo. No entanto, o que se percebe é um cenário ainda profundamente marcado pela ausência de vozes que representem, de fato, as minorias sociais.
Historicamente, as eleições locais orbitam em torno de uma polarização quase caricata: “bocas pretas” versus “bocas brancas”, ou, mais recentemente, “cabeças vermelhas” contra “azulões”. Essa dinâmica não apenas empobrece o debate político, como revela a permanência de uma cultura provinciana, sustentada por práticas assistencialistas, muitas vezes viciosas e, em certos casos, até criminosas. O resultado é uma política que gira em torno de grupos e interesses, e não de projetos coletivos.
Nesse contexto, chama atenção o silêncio — muitas vezes ensurdecedor — em torno de pautas fundamentais. Não há, por exemplo, uma voz política forte e consistente em defesa das mulheres. Não se trata apenas da existência institucional de uma secretaria, mas da ausência de lideranças que denunciem a violência, proponham políticas educativas e enfrentem, com coragem, a cultura que naturaliza relacionamentos abusivos. Faltam iniciativas que ensinem jovens — homens e mulheres — a reconhecer os sinais de abuso, prevenindo assim ciclos de violência doméstica que, não raramente, culminam em feminicídios.
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Da mesma forma, embora haja representantes negros na política local, poucos — ou nenhum — assumem essa identidade como instrumento de luta. Falta posicionamento público contra o racismo, falta solidariedade diante de episódios de discriminação, inclusive aqueles ocorridos dentro do próprio plenário da Câmara de Vereadores. O silêncio, nesses casos, não é neutralidade — é conivência.
No campo, o discurso também não se traduz em ação. Fala-se muito sobre a zona rural e os agricultores, mas evita-se tocar em temas estruturais como a reforma agrária. Defender a agricultura familiar como política de autonomia econômica e segurança alimentar ainda parece ser um tabu. Enquanto isso, inúmeras famílias seguem sem acesso à terra, à produção digna e à independência financeira.
Na cidade, os problemas urbanísticos se acumulam. Plano Diretor desatualizado, crescimento desordenado e ausência de planejamento mostram que ainda se governa como se estivéssemos nos anos 1990. A expansão urbana ocorre sem direção, sem infraestrutura adequada e sem um projeto de cidade para o futuro.
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A educação pública, por sua vez, segue sendo tratada com base em números frios, que pouco dizem sobre a qualidade do ensino. Avaliações quantitativas não substituem o debate necessário sobre formação cidadã, estrutura escolar, valorização dos professores e inclusão social. Mais uma vez, o silêncio predomina.
Diante desse cenário, as eleições que se aproximam revelam uma necessidade urgente: a emergência de uma candidatura que coloque essas pautas no centro do debate político. Muitos ainda acreditam que discutir minorias, direitos sociais e transformação estrutural “não dá voto”. Mas é justamente esse tipo de debate que o eleitor de Sertão do Pajeú — e de todo o Sertão pernambucano — precisa e merece.
Serra Talhada precisa dar voz e vez a uma candidatura que enfrente essas questões sem máscaras, sem preconceitos e sem amarras. Uma candidatura que represente, de fato, as minorias, os movimentos sociais e culturais, e que compreenda a complexidade de uma das regiões mais importantes do estado.
Mais do que uma disputa entre cores ou grupos, o que está em jogo é a possibilidade de construir uma política mais justa, plural e comprometida com a realidade do seu povo. Enquanto isso não acontecer, o silêncio continuará sendo o principal discurso — e as minorias seguirão sendo apenas figurantes em sua própria história.
11 comentários em A política de ST e o silêncio imposto às minorias; chega de ‘azulões’ contra ‘cabeças vermelhos’