Foto com Raimundo Carreo na FILST, em 2017 (Arquivo Farol)
Foto com Raimundo Carreo na FILST, em 2017 (Arquivo Farol)

A literatura pernambucana amanheceu mais triste nesta terça-feira, 16 de junho. Faleceu, aos 78 anos, um dos maiores escritores brasileiros contemporâneos, o romancista, jornalista e colunista do Diário de Pernambuco, Raimundo Carrero. Para mim, além da perda de uma referência literária, sua partida representa a despedida de alguém que, de diferentes formas, marcou minha caminhada como leitor e escritor.

Conheci Raimundo Carrero em 1994. Eu ainda era um adolescente e, naquele momento, minha mente não estava voltada para a escrita literária. Nosso encontro aconteceu de forma casual, na casa dos amigos Anildoma Willams e Cleonice Maria. Foi um contato breve, sem que eu pudesse imaginar que, anos depois, sua obra teria influência tão significativa na minha formação.

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Minha relação com Carrero se estreitou em 2010, quando trabalhei com os alunos do Colégio Francisco Mendes a leitura do romance A História de Bernarda Soledade – A Tigre do Sertão, publicado originalmente em 1975. A partir daquele momento, mergulhei em sua literatura e passei a admirar profundamente seu estilo singular de escrever. Havia algo de fascinante em sua narrativa, na forma como transformava o sertão, seus personagens e seus conflitos em literatura de alta qualidade.

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Entretanto, os momentos mais marcantes da minha convivência com o Mestre aconteceram durante a Festa Literária de Serra Talhada (FLIST). Em 2015, tivemos a oportunidade de dividir a programação do evento. Naquela noite especial, Raimundo Carrero lançava alguns de seus livros, enquanto eu apresentava meu terceiro trabalho, Comercial: Um Clube Imortal. Fiz questão de destacar o orgulho que sentia por lançar minha obra no mesmo palco ocupado por um dos maiores escritores do país.

Ao final do evento, fui ao seu encontro. Conversamos por alguns minutos que pareceram horas. Falamos sobre nossas origens sertanejas e sobre a histórica rivalidade entre o Comercial e o Salgueiro Atlético Clube, que ele testemunhou na década de 1970. Naquela noite, tive o privilégio de lhe entregar um exemplar do meu livro e, em troca, receber obras autografadas por ele. Foi um momento inesquecível, daqueles que permanecem guardados para sempre na memória de um escritor.

Em 2016, nossos caminhos voltaram a se cruzar de maneira curiosa e emocionante. Fui um dos finalistas do 6º Concurso Literário de Salgueiro, justamente na categoria que levava o nome de Raimundo Carrero. Com o conto A Garota da Casa da Frente, conquistei o segundo lugar. Receber um reconhecimento vinculado ao nome de um autor que tanto admirava foi motivo de grande alegria e orgulho.

Foto da Flist de 2015 com Raimundo Carrero ( Crédito: Alejandro J. García/ Arquivo Farol de Notícias)

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Nosso último encontro aconteceu durante a FLIST de 2017. Na ocasião, lancei o livro As Duas Pedras: Contos e Prosas. Após minha apresentação, fui cumprimentar Carrero. Apesar da saúde já fragilizada, ele me reconheceu imediatamente, o que me trouxe enorme satisfação. Mais do que isso, contou que havia lido meu livro sobre o Comercial. Conversamos novamente, tiramos fotografias e registramos mais um encontro que guardarei para sempre. Suas atitudes demonstravam a simplicidade e a generosidade com que tratava as pessoas, independentemente de sua notoriedade ou posição.

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Nesta terça-feira, minha alma de escritor amanheceu de luto. Há tristeza pela partida de um mestre das letras brasileiras, mas também há gratidão. Tive o privilégio de conhecer, conversar e aprender com um dos maiores escritores nordestinos de sua geração. Um sertanejo que levou a força do nosso povo para a literatura nacional.

Raimundo Carrero deixa uma obra monumental, construída ao longo de décadas, com títulos inesquecíveis como A História de Bernarda Soledade – A Tigre do Sertão, Sombra Severa, Maçã Agreste, O Senhor Agora Vai Mudar de Corpo, Condenados à Vida e tantos outros. Seus livros continuarão inspirando leitores e escritores por muitas gerações.

Perdemos uma referência literária, mas sua voz permanece viva em cada página escrita, em cada personagem criado e em cada leitor tocado por sua literatura.

Viva Raimundo Carrero!

Um escritor imortal.