A construção do imaginário popular sobre o grito da Rasga-Mortalha em ST

Por Thyago Medeiros Arruda, professor de História e pesquisador, de Serra Talhada

Desenvolvi um artigo e um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) sobre o Grito da Rasga-Mortalha e sua importância para o imaginário popular e para a cultura da nossa querida cidade. Meu trabalho aborda a Rasga-Mortalha como um dos elementos marcantes da cultura serra-talhadense. É verdade que, durante muito tempo, essa ave fez parte do cotidiano da população local. Por meio do seu famoso grito, ela despertava medo, respeito e curiosidade tanto na zona urbana quanto na zona rural, pois era associada a um presságio de morte.

A Rasga Mortalha ganhou esse significado a partir da forma como o povo sertanejo interpretava os acontecimentos ao seu redor. Em meados do século XVIII, as condições para velar os mortos não eram tão acessíveis como hoje. Muitas famílias recorriam ao uso de um pano conhecido como mortalha para envolver os corpos. Curiosamente, quando esse tecido era rasgado, produzia um som semelhante ao grito emitido pela ave. A partir dessa associação, a população passou a relacionar o seu canto à chegada da morte, fortalecendo a crença popular que atravessou gerações.

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Apesar da fama de trazer mau agouro, a Rasga-Mortalha possui grande importância para o equilíbrio ambiental da nossa região. Do ponto de vista biológico, trata-se de uma excelente caçadora e controladora de pragas, atuando tanto na zona rural quanto na urbana. Seu grito é utilizado em estratégias de caça para atordoar morcegos e outros pequenos animais, além de desempenhar funções relacionadas à comunicação e ao acasalamento da espécie.

No campo do imaginário popular, onde minha pesquisa se desenvolve, as características e comportamentos da ave ganham significados que contribuem para o seu misticismo. O fato de ela ser mais ativa durante a noite e de seu grito ecoar sobre as casas das pessoas fortaleceu as crenças que a cercam. Mais importante do que determinar se essas histórias são verdadeiras ou não, é compreender que o imaginário sobre a Rasga-Mortalha constitui uma construção cultural, criada, transmitida e compartilhada entre diferentes gerações aqui em Serra Talhada, mais especificamente.

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Contudo, esse imaginário cultural vem passando por um processo de enfraquecimento. Durante muito tempo, as crenças relacionadas à ave eram alimentadas pela convivência direta da população com ela, já que era comum vê-la e ouvi-la em Serra Talhada. Além disso, a oralidade, as histórias contadas pelos mais velhos e as rezas populares contribuíam para manter viva essa tradição.

Infelizmente, muitos desses elementos vêm se perdendo ao longo do tempo. Com o avanço da urbanização e as transformações no espaço urbano, a Rasga-Mortalha passou a migrar para outras áreas. As aves que permaneceram na região também tiveram seus hábitos alterados pelas mudanças ambientais, tornando cada vez mais raro ouvir o famoso grito que marcou a memória de tantas gerações. Assim, pouco a pouco, uma importante manifestação do imaginário popular serra-talhadense corre o risco de cair no esquecimento.

Como forma de contribuir para a preservação desse imaginário popular, construído coletivamente pelo povo nordestino a partir da associação entre o famoso grito da ave e a mortalha, decidi valorizar essa importante manifestação cultural por meio das minhas pesquisas e produções literárias.

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Além do artigo e do TCC sobre a Rasga-Mortalha, sou autor do cordel intitulado “A MORTE DA Rasga-Mortalha”, obra que aborda tanto o imaginário construído em torno da ave quanto o processo de seu desaparecimento gradual do espaço serra-talhadense. O cordel procura registrar memórias, crenças e narrativas transmitidas ao longo das gerações, destacando a importância dessa tradição para a identidade cultural local.

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Escrever sobre nossa cultura é uma forma de valorizá-la e preservá-la. As histórias relacionadas à Rasga-Mortalha não surgiram por acaso, mas foram construídas a partir das experiências vividas pela população e compartilhadas por meio da oralidade, das rezas, dos relatos familiares e das crenças populares. São elementos que fazem parte da memória coletiva e da forma como os sertanejos interpretam e dão significado ao mundo que os cerca.

Preservar esse imaginário é contribuir para a continuidade de um patrimônio cultural que pertence à nossa comunidade. Ao registrar essas histórias e crenças, ajudamos a manter viva uma parte importante da identidade de Serra Talhada, evitando que esse imaginário cultural se perca com o passar do tempo e desapareça junto com as memórias daqueles que o construíram e o transmitiram ao longo das gerações.