Paulo César Gomes entra na polêmica da ambulância refugada em ST

Por Paulo César Gomes, Professsor, escritor e colunista do farol

Existem decisões administrativas que extrapolam o aspecto técnico e acabam sendo julgadas, sobretudo, pelo peso simbólico que carregam. A opção da Prefeitura de Serra Talhada em não querer receber uma ambulância UTI doada pelo Governo de Pernambuco é um desses casos.

A repercussão negativa extrapolou os limites de Serra Talhada e ganhou demissão estadual, vários são os vídeos publicados nas redes sociais criticando a gestora município. E isso se justifica pelo fato de morarmos em um país onde a saúde pública ainda convive com carências históricas, qualquer notícia envolvendo a rejeição de um equipamento custeado com dinheiro público desperta, naturalmente, perplexidade na população.

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Na última sexta-feira (3), a prefeita Márcia Conrado gravou um vídeo para justificar a decisão. Segundo ela, “a ambulância do Tipo D permaneceria parada porque sua utilização é destinada exclusivamente ao transporte intermunicipal de pacientes em situação de urgência e emergência.

A prefeita argumentou que essa responsabilidade não cabe ao município, uma vez que Serra Talhada não possui hospital municipal, cabendo esse serviço à rede estadual, por meio do Hospam e do Hospital Eduardo Campos”. Ao final, resumiu sua posição afirmando que “Serra Talhada está cansada de tanta politicagem”. Uma citação direta a oposição, que tornou pública o fato.

A explicação de Márcia pode até encontrar respaldo técnico. Mas política também é percepção. E é justamente nesse campo que a decisão parece ter produzido mais desgaste do que benefício. Independentemente da disputa política, fica difícil para o cidadão comum compreender por que Serra Talhada foi o único município entre os 53 contemplados a optar por não receber a ambulância.

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O Brasil convive há décadas com um sistema de saúde que frequentemente deixa pacientes aguardando atendimento especializado ou transporte adequado. Não são raros os relatos de pessoas que enfrentam longas esperas ou dificuldades para conseguir remoções em momentos críticos. Diante dessa realidade, rejeitar uma ambulância, ainda que existam “argumentos administrativos” para isso, acaba produzindo um efeito político inevitável.

A impressão que fica é a de que Serra Talhada vive uma realidade diferente dos outros 52 municípios contemplados, é como se fossemos uma espécie de ilha. Como se as necessidades locais não justificassem sequer a possibilidade de incorporar um equipamento de alta complexidade ao patrimônio cidade. Ainda que, a Prefeitura sustenta que o veículo não teria utilidade dentro da estrutura atual do município, o argumento, no entanto, não têm se mostrado relevante e consistente.

Há ainda uma pergunta inevitável. Se essa mesma situação tivesse ocorrido há três anos, quando Márcia Conrado e a governadora Raquel Lyra eram ‘unha e carne’, a decisão seria a mesma? Agora que as duas estão rompidas, fica até fácil encontrar a resposta para a indagação. Na política, muitas vezes, uma escolha malfeita pode acarretar danos a imagem de uma gestão junto a população e com poucas chances de reversão. E, desta vez, ficou bastante claro que a escolha não favoreceu a prefeita, e muito menos a população.

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