Do Pix ao Bitcoin: como o brasileiro aprendeu a investir em cripto
Foto: Reprodução

O Brasil tem uma relação particular com tecnologia financeira. Foi um dos primeiros países do mundo a adotar pagamentos instantâneos em escala massiva, o Pix virou rotina em meses, e esse conforto com o digital abriu caminho para outra tendência: a entrada em massa no mercado de criptomoedas. Se está a par do bitcoin hoje real sabe que o preço oscila, mas os dados da Receita Federal mostram que o número de brasileiros investindo em cripto não para de crescer, independentemente do ciclo do mercado.

Em 2025, o mercado brasileiro de criptoativos movimentou R$ 505,5 bilhões, segundo dados divulgados pela Receita Federal em abril de 2026. É um novo recorde histórico e representa cerca de 10% de tudo que foi negociado na B3 no mesmo período. Não é mais um nicho de entusiastas de tecnologia. É um mercado de massa.

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Os números que mostram quem está comprando

Em setembro de 2025, a Receita Federal registou 4.584.071 CPFs únicos declarando operações com criptoativos, além de 92.132 CNPJs. São números que colocam o Brasil em quinto lugar global em volume de varejo no primeiro trimestre de 2026, com US$ 40,4 bilhões transacionados.

O perfil do investidor brasileiro em cripto mudou. No início eram principalmente jovens com perfil técnico. Hoje, o mercado alargou. Rocelo Lopes, chefe da Iniciativa de Moedas Digitais da Rezolve AI, descreve bem essa transformação: “Já não estamos falando apenas de investidores qualificados. Hoje, qualquer pessoa pode participar desse mercado.”

O Bitcoin continua a ser o ativo de referência, mas os dados da Receita mostram preferência por stablecoins em volume total, com XRP, Litecoin e Cardano entre os ativos mais procurados para diversificação.

Por que o Pix foi o trampolim

Não é coincidência que o crescimento em cripto acelerou depois do lançamento do Pix em 2020. A familiarização com transferências instantâneas, sem custo e disponíveis 24 horas por dia, reduziu a barreira psicológica para movimentar dinheiro digitalmente. Comprar Bitcoin numa exchange brasileira passou a ser tão simples quanto uma transferência bancária.

“Um vendedor ambulante pode vender um produto, receber via Pix e já converter aquele valor em criptoativo instantaneamente”, resume Rocelo Lopes, ilustrando como a infraestrutura de pagamentos brasileira se tornou uma porta de entrada natural para o mercado cripto.

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A combinação de inflação persistente, real volátil e juros altos criou também um contexto favorável à busca por alternativas. O Bitcoin funcionou em vários momentos como proteção contra a desvalorização do real, atraindo um perfil de investidor que antes não consideraria um ativo digital.

O que a Receita Federal passou a exigir

O crescimento do mercado trouxe mais atenção do fisco. A declaração de criptoativos no Brasil tem regras claras desde 2019, quando a Instrução Normativa 1.888 passou a exigir que exchanges brasileiras reportassem mensalmente as operações dos seus clientes. Em 2026, esse quadro fica mais robusto com a entrada em vigor da DeCripto, criada pela IN 2.291/2025.

As regras de tributação para 2026 mantêm a isenção de R$ 35 mil mensais em vendas, após a tentativa de eliminação pela MP 1.303/2025 ter sido derrubada pelo Congresso em outubro de 2025 por 251 votos a 193. Acima desse limite, as alíquotas vão de 15% a 22,5% sobre o ganho de capital. Quem possui R$ 5 mil ou mais num mesmo criptoativo em 31 de dezembro também é obrigado a declarar na ficha de Bens e Direitos.

A recomendação dos especialistas em tributação é simples: manter um registo detalhado de todas as operações, com datas, valores em reais e comprovantes de compra e venda. Sem isso, calcular corretamente o ganho de capital e evitar inconsistências na declaração torna-se muito mais difícil, especialmente para quem opera em múltiplas plataformas ou fez muitas transações ao longo do ano.

Um mercado que cresceu rápido demais para ficar sem regras

O volume de R$ 505,5 bilhões em 2025 é expressivo, mas esconde uma realidade importante: os dados da Receita captam apenas operações em exchanges centralizadas. As transações em carteiras descentralizadas, plataformas DeFi e serviços de swap ficam de fora. O mercado real é significativamente maior do que os números oficiais sugerem.

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Isso é precisamente o que a DeCripto tenta resolver. O novo sistema alinha o Brasil ao padrão CARF da OCDE, que prevê troca automática de informações sobre criptoativos entre mais de 70 países. Na prática, exchanges estrangeiras que atendam clientes brasileiros também ficam obrigadas a reportar ao fisco, fechando uma janela que muitos investidores usavam para manter ativos fora do radar.

O que vem a seguir

O brasileiro que investe em cripto em 2026 é mais maduro, mais regulado e mais diversificado do que em qualquer momento anterior. Com obrigações fiscais mais claras, maior fiscalização e produtos cada vez mais sofisticados disponíveis, incluindo ETFs de Bitcoin no Brasil e nos Estados Unidos, o mercado ganhou seriedade.

O Pix ensinou o brasileiro a mover dinheiro digitalmente sem fricção. O cripto ofereceu um destino diferente para esse dinheiro. O que os próximos anos vão mostrar é se o Brasil consegue transformar esse volume de negociação em adoção real e de longo prazo, para além dos ciclos de euforia que sempre marcaram o mercado.