
Do FolhaPE
Ministério da Saúde disse, nesta segunda-feira, que encaminhou uma proposta de incorporação de um medicamento injetável para prevenção do HIV na rede pública à Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec), que analisará o pedido em agosto.
— O Brasil quer incorporar novas tecnologias de prevenção do HIV porque elas podem ampliar as possibilidades de cuidado e oferecer alternativas para pessoas que enfrentam dificuldades de adesão ao uso diário da medicação — disse o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, durante a 26ª Conferência Internacional de Aids, que ocorre no Rio de Janeiro com apoio da pasta e da Fiocruz.
O medicamento em questão é o cabotegravir, uma injeção aplicada a cada dois meses para prevenir a infecção pelo HIV desenvolvida pela farmacêutica GSK/ViiV Healthcare. Em relação à oferta no SUS, a Conitec analisa as evidências sobre segurança, eficácia e custo-efetividade do tratamento e recomenda, ou não, a inclusão. Ao fim, quem dá a palavra final é o Ministério da Saúde.
Desde 2017, já existe uma estratégia de Profilaxia Pré-Exposição ao HIV (PrEP), para prevenir a infecção entre pessoas que não vivem com o vírus no SUS, mas que envolve comprimidos diários. Eles reduzem o risco de uma infecção a quase zero, mas precisam ser tomados todos os dias, o que dificulta a adesão adequada. Com isso, os laboratórios têm desenvolvido versões de longa duração, que demandam apenas algumas aplicações ao ano.
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Em 2023, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou a primeira delas, o cabotegravir, vendido com o nome comercial de apretude. O medicamento chegou ao mercado privado do país em agosto deste ano. Nos estudos clínicos, a eficácia foi de quase 100% e superior à PrEP oral por facilitar a adesão.
O medicamento também fez parte de estudos conduzidos no Brasil pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Ao GLOBO, a infectologista Beatriz Grinsztejn, atual presidente da International Aids Society (IAS) e chefe do Laboratório de Pesquisa Clínica em IST e HIV/Aids do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz), já disse que um dos entraves para as discussões sobre a incorporação no SUS tem sido “inadequação de preços”.
Ainda assim, um estudo conduzido pela GSK, publicado na revista científica Value in Health, estima que o cabotegravir poderia evitar cerca de 385 mil das 600 mil infecções pelo HIV esperadas no Brasil nos próximos 10 anos, gerando uma economia projetada de R$ 14 bilhões em custos com tratamento. No final do ano passado, a farmacêutica já havia enviado uma proposta de incorporação ao SUS para a Conitec.
Versão semestral
Paralelamente, uma outra versão da PrEP de longa duração tem repercutido pelo mundo. O lenacapavir, do laboratório Gilead Sciences, foi aprovado no Brasil e indicado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para compor a estratégia de prevenção ao HIV.
De modo diferente do cabotegravir, que demanda seis aplicações ao ano, o lenacapavir é semestral, ou seja, precisa ser administrado somente duas vezes a cada 12 meses para conferir a alta eficácia contra o vírus, também de quase 100%.
— Enquanto uma vacina contra o HIV continua fora de alcance, o lenacapavir é a melhor alternativa: um antirretroviral de longa duração que, em testes, demonstrou prevenir quase todas as infecções por HIV entre pessoas em risco — disse Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, no lançamento das novas diretrizes da organização.
Mas, embora os remédios sejam injeções para prevenir o HIV, eles não são uma vacina. Isso porque não induzem o sistema imunológico a produzir anticorpos e células de defesa contra o vírus. São medicamentos antivirais que bloqueiam os “caminhos” que o HIV utiliza para se replicar e, para isso, precisam permanecer em constante circulação no organismo.
De forma mais detalhada, uma vacina é feita com o material genético de um vírus ou bactéria para que o sistema imune o reconheça a partir daquele fragmento e, com isso, passe a produzir as defesas contra ele. Dessa forma, simula a exposição àquele agente infeccioso para gerar a resposta imune, que se mantém ao longo do tempo.
Já no caso da PrEP, é um remédio que não induz uma resposta ativa do sistema imunológico. Ele combate o vírus diretamente. Nessa estratégia, o objetivo é manter a droga em constante circulação no sangue para, se a pessoa entrar em contato com o HIV, ela já estar presente e rapidamente atacá-lo, antes mesmo que ele se instale e cause a infecção.
Por isso, caso a administração da PrEP seja interrompida, a proteção desaparece. Já as vacinas, por outro lado, podem até demandar novas doses de reforço para elevar a resposta do sistema imune ao longo do tempo, mas a proteção em algum nível se mantém duradoura. Hoje, não existem vacinas aprovadas contra o HIV no mundo.