Flávio fez transações financeiras incompatíveis com a renda, movimentou R$ 1,3 milhão em três meses e usou repasse de escritório de advocacia para quitar mansão, diz Coaf
Foto: Lula Marques/Agência Brasil

Do O Globo

O candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) realizou movimentações bancárias incompatíveis com a renda declarada, segundo relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). Entre as operações consideradas atípicas pelo órgão vinculado ao Banco Central está o recebimento de R$ 520 mil de um escritório de advocacia para quitar antecipadamente o financiamento da mansão adquirida pelo senador em Brasília.

Os documentos, aos quais O GLOBO teve acesso, integram a investigação da Polícia Federal sobre os vínculos do parlamentar com o advogado Willer Tomaz num suposto esquema de lavagem de dinheiro envolvendo transações com bets. O caso tramita no Supremo Tribunal Federal (STF), sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes. Procurado, Flávio não se manifestou.

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Ao analisar as transações financeiras realizadas por Flávio, o Coaf apontou que o senador “movimentou montante relevante sem respaldo em informações sobre sua capacidade financeira” entre janeiro e março de 2024, quando realizou R$ 1,3 milhão em transações financeiras, sendo R$ 660.111 em créditos e R$ 649.272 em débitos. De acordo com o órgão, o volume médio de operações feitas pelo parlamentar nesse período de três meses é 7,19 vezes superior “ao esperado para a renda informada” pelo candidato à Presidência da República.

O Coaf recebe alertas de bancos e demais instituições financeiras e emite comunicados para órgãos como a Polícia Federal e o Ministério Público quando identifica transações financeiras com indícios de lavagem de dinheiro, de acordo com parâmetros estabelecidos em lei. Os relatórios por si só não atribuem crimes, mas servem para embasar investigações que podem ou não concluir que há irregularidades.

O documento aponta que, em março de 2024, Flávio recebeu R$ 520.277,28 do escritório Gavioli e Viola Advogados Associados e utilizou esses recursos para liquidar, de forma antecipada, um empréstimo imobiliário contratado em 2021 junto ao Banco de Brasília (BRB) para comprar uma mansão de R$ 5,97 milhões em uma área nobre da capital federal. “Há suspeitas no valor recebido, pois foi destinado à quitação antecipada de operação de crédito”, afirma o Coaf.

Embora o contrato previsse o pagamento do financiamento imobiliário num prazo de 30 anos, a dívida foi liquidada em aproximadamente três anos, por meio de seis pagamentos extraordinários que variaram de R$ 198 mil a R$ 997 mil. Um deles, segundo o Coaf, ocorreu em março de 2024, no valor de cerca de R$ 520 mil, correspondente aos recursos repassados pelo escritório Gavioli e Viola Advogados Associados.

Os advogados responsáveis pela banca jurídica que fez o pagamento para Flávio atuaram com o senador em dois processos no Superior Tribunal de Justiça (STJ). Em um deles, relativo a uma disputa societária entre empresas do setor gráfico, o parlamentar ingressou na equipe de defesa em junho de 2024. Dois meses depois, em agosto, a Quarta Turma do Tribunal decidiu, por unanimidade, não admitir o recurso apresentado pelos advogados.

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Flávio também atuou em parceria com os advogados do escritório Gavioli e Viola na defesa de um casal envolvido no caso que ficou conhecido como Faraó dos Bitcoins, que envolve suspeitas de pirâmide financeira com investimentos em criptomoedas.

O senador consta como parte da equipe de defesa do casal desde abril de 2025, quando um recurso foi apresentado ao STJ. Na ação, o parlamentar e integrantes do escritório Gavioli e Viola pediram o trancamento da ação penal, o que foi rejeitado pelo ministro relator do caso, em maio daquele ano.

Procurado, o advogado Bruno Gavioli Lopes, sócio do escritório, disse que não iria se manifestar. Ele afirmou que não fala sobre processos em que atua, “menos ainda sobre as parcerias”. “Existe um código de ética, e ele será respeitado”, afirmou por meio de mensagem.

Ao solicitar o empréstimo imobiliário ao BRB, Flávio informou ao banco renda mensal de R$ 56,8 mil, composta pelo salário de parlamentar à época, rendimentos de uma franquia de chocolates e aplicações financeiras. Na ocasião, não declarou receitas provenientes da advocacia. Posteriormente, Flávio afirmou à Justiça que também atuava como advogado e que os recursos empregados na compra do imóvel tinham origem lícita.

Reportagem do UOL mostrou que o escritório de advocacia de Flávio emitiu ao menos 62 notas fiscais que somam R$ 13,7 milhões entre janeiro de 2023 e julho de 2026. Dentre os principais clientes do parlamentar, está a banca jurídica Nilo & Almeida Advogados Associados, comandada pelo advogado Edvaldo Nilo de Almeida, que pagou R$ 4 milhões ao candidato à Presidência. Metade desse valor foi desembolsado três semanas antes de o defensor ser aprovado pelo Senado para compor o Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP).

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Em nota, o advogado afirmou que os repasses decorreram de contrato de prestação de serviços advocatícios celebrado em abril de 2025 e negou relação com sua indicação como conselheiro.

Foto: Saulo Cruz/Agência Senado

Caminho do dinheiro

Os documentos do Coaf estão entre os elementos analisados pela PF no inquérito que apura o suposto elo financeiro entre Flávio e o advogado Willer Tomaz, apontado pelo Ministério da Fazenda como o maior apostador do Brasil em 2025, com uma movimentação de cerca de R$ 5 bilhões em plataformas de apostas online. Os investigadores estão rastreando a origem e o destino do dinheiro que circulou pelas contas bancárias do parlamentar.

O inquérito teve origem em uma investigação conduzida pela PF no Rio Grande do Sul sobre suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo plataformas de pagamento e empresas de apostas, entre elas a Blaze. A análise de documentos e dados obtidos durante as diligências revelou referências ao nome do senador, levando o caso a tramitar no STF.

Entre os elementos reunidos pela PF estão registros de viagens internacionais de Flávio custeadas por empresas ligadas a Willer e documentos que identificam o parlamentar como “usuário master” de uma conta bancária da Alcazar Holding, offshore da qual o advogado é sócio. Diante dessas suspeitas, Moraes determinou o bloqueio de até R$ 6 bilhões em bens e valores de Willer, que nega qualquer irregularidade.

Ao analisar os dados financeiros de Flávio, o Coaf também apontou atipicidade em transações financeiras realizadas em novembro de 2025. À época, uma conta bancária do parlamentar movimentou R$ 337.641, sendo R$ 144.486 em operações de crédito e R$ 193.155 em débitos. O órgão vinculado ao Banco Central classificou esse volume como um “montante financeiro habitualmente superior à capacidade econômica declarada”.

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Entre os créditos registrados na conta do parlamentar, está uma transferência proveniente de uma vaquinha online, que chamou a atenção do Coaf. O documento do órgão, porém, não esclarece a finalidade da operação nem identifica a origem do dinheiro. “Esses recursos recebidos foram destinados, principalmente, ao pagamento de fatura de cartão de crédito, a outros pagamentos diversos e a limites incompatíveis com a renda declarada”, registra o relatório.

Em novembro de 2025, no mesmo mês da movimentação atípica identificada pelo Coaf, Flávio foi o responsável por criar uma vaquinha online para captar recursos para a familiares de quatro policiais mortos em uma operação no Rio. Segundo o site da arrecadação, as doações chegaram a R$ 1,2 milhão.

Na ocasião, o senador usou suas redes sociais para divulgar a chave Pix da vaquinha e prometeu divulgar os comprovantes dos repasses. “Toda a arrecadação vai ser integralmente destinada às famílias destes policiais, com total transparência”, disse o senador, em vídeo publicado na época.

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