Especialistas orientam como garantir direitos de vítimas
Foto: Reprodução

Nas primeiras semanas de janeiro de 2026, Serra Talhada registrou pelo menos dois casos de violência sexual contra crianças na cidade. A reportagem do Farol de Notícias ouviu um grupo de especialistas, de três áreas diferentes, fundamentais para o acolhimento e proteção dos direitos de crianças e adolescentes vítimas de violência sexual.

De acordo com a professora da Unifis, advogada especialista em Direito Civil e mestra em Sociologia, mãe de duas crianças, Andrea Campos, a denuncia é o primeiro passo a ser tomado e é dever de todos proteger crianças e adolescentes.

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“No Brasil, temos a Lei nª 8.069/90 que é o Estatuto da Criança e do Adolescente, que como regra primordial relaciona que é dever de todos a proteção da criança e do adolescente e contém os princípios jurídicos destes direitos. Neste sentido, os tutores da criança vítima de violência devem imediatamente acionar os órgãos competentes de proteção à segurança de dignidade desta criança. A denuncia do caso de violência que pode ser feito através de um desses meios:

  • Delegacia de Polícia Civil
  • Serviço de Saúde
  • Conselho Tutelar
  • Disque 100
  • Apoio psicológico
  • Apoio de assistência social

“Além disto, deve ser oferecido à criança todo um aparato de apoio e acolhimento, psicólogo, assistente social e em caso de vítima cujo agressor tenha praticado ameaças de vida a vítima e a família em caso de possível denúncia, devem ser oferecido serviço de proteção e segurança também. A criança e sua família devem ser colocados em local seguro e sigiloso”, destacou a profissional do direito, complementando:

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“E como mãe deixo um apelo. Pais, orientem suas crianças para que elas saibam defender-se, minimamente, em casos de abordagens suspeitas. Precisamos orientar e conversar com nossas crianças para conter esses abusos. E não temam a denúncia, existem mecanismos legais que protegem não só a criança, mas a família também. Não se calem diante de uma violência jamais”.

CONSELHO TUTELAR

De acordo com o Conselho Tutelar de Serra Talhada, o fluxo de atendimento das demandas relacionadas à possível violação de direitos de crianças e adolescentes ao Conselho Tutelar segue um procedimento. Após receber a denúncia, o fato é encaminhado a um conselheiro tutelar, que realiza a avaliação inicial e procede com a notificação dos responsáveis legais, convocando-os para atendimento no órgão.

Nos casos de suspeita ou confirmação de violência sexual, o Conselho Tutelar realiza o atendimento, aplica as medidas de proteção cabíveis, nos termos do art. 101 do Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei nº 8.069/1990), e encaminha imediatamente a criança ou adolescente ao Sistema de Garantia de Direitos.

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Foto: Divulgação

É assegurado o atendimento psicológico especializado, preferencialmente, por meio do CREAS, da rede de saúde (SUS) e dos serviços de saúde mental, como CAPSi, quando indicado, assim como encaminha ao ministério publico a noticia de fato para a adoção das medidas cabíveis.

Os comunicados ao Conselho Tutelar de Serra Talhada podem ser encaminhados pelo Disque 100 pelo número (87) 98181-2910, e ou pelas polícias civis e militares.

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ESPECIALISTA DA SAÚDE MENTAL

O Farol também conversou com a psicóloga Karla Apollyana, que também é professora da Unifis, especialista em psicologia clínica na abordagem psicanalítica e em medicina e psicanálise com bebês de 0 a 3 anos.

Com veemência e lucidez, a psicóloga defendeu a infância e apontou que a sociedade vem há tempos violentando o direito de ser criança. Segundo ela, a psicoterapia deveria ser um serviço de maior arco assistencial para a sociedade.

Foto: Reprodução / Arquivo Pessoal

“Vivemos um tempo em que a infância está sobrevivendo, ameaçada de extinção. Não a criança, mas a condição de ser criança. A qual por sua imaturidade, torna-se a grande vítima de um sistema que não tem pudor nenhum em agredir, violentar um ser humano em desenvolvimento. Tal experiência, a qual logicamente gera trauma, não se apaga tão facilmente, nem é ressignificado numa velocidade que gostaríamos. Essa experiência traumática reverbera em todas as relações futuras dessas crianças e adolescentes”, analisou a profissional, finalizando:

“A violência contra criança e adolescente é algo constante, na mídia, na cultura, nas religiões, na família e por quê? Porque nós enquanto espécie temos certa dificuldades de compreendermos que essas crianças e adolescentes são a sociedade do daqui a pouco. Não de um futuro distante. E que se os adultos têm, consciente e inconsciente agredido, violentado essas crianças e adolescentes, é porque a própria criança desses adultos precisa ser trabalhada. Gostaria de encerrar citando uma entrevista de Saramago, onde ele diz que trabalha e vive para não envergonhar a criança que ele foi”.