Publicado às 04h58 desta quinta-feira (23)

Por Maria Edwirgem, professora serra-talhadense

Quando lembro das festas juninas, a minha memória afetiva, remete a um ritual mágico, grandioso e divino, tanto quanto a predileção e devoção dos mais sábios. O acender da fogueira, assemelhava- se ao Natal, luzes trepidantes, pedidos feitos, crenças renovadas e incontidos anseios da alma… assim como as brasas, que timidamente, ressurgiam das cinzas, contrariando, o frio das manhãs brejeiras, significando também o renascimento…

A fumaça subia aos céus e se confundia com o típico nevoeiro, do mês de junho, assim como as
estrelas ou algum balão perdido, num flertar explícito e fugas, que encantava e divertia as nossas noitadas…

A fartura posta à mesa, aguçava todos os sentidos, da visão inesquecível ao paladar apurado, viajando no requinte do mais terno e trivial, primando pela mais completa tradição… Assim, o clarão nos levava a calçada e a audição atiçava o desejo de distinguir os sons “dos festejos”, que, obedecendo uma certa hierarquia, pela idade, nos eram ofertados, mas sempre havia os mais ousados, que driblavam os protocolos…

A brincadeira era um verdadeiro espetáculo: traques, chumbinhos e bombinhas explodiam junto com a emoção, as chuvinhas rodopiavam, graciosamente nas mãos e as cobrinhas sorrateiras pelo chão, parecia que nos perseguiam, por instantes, a sensibilidade olfativa, misturava os cheiros de comidas, fogos, chuvas e felicidades…

As radiolas, de cores vibrantes e cada vez mais modernas, já davam sossego ao rádio, que antenado em suas ondas, repousava sobre a cristaleira da sala, assim como o candeeiro que, já espreitava enciumado, num canto, as lâmpadas elétricas, esperando uma breve trovoada, para voltar a reinar, absoluto…

O fole da sanfona, o tengo lengo do triângulo, a batida da zabumba e toda genialidade dos discos de Luiz Gonzaga e Trio Nordestino substituíam as violas e vozes, tão harmoniosas de Tonico e Tinoco, transformando a vida, num esplêndido arraial…

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Da infância, trago todas essas lembranças, do meu Pai, a imagem mais marcante, toda êxtase na sua aparição, dos estrondos das bombas nas paredes, dos rojões rumo a imensidão, o olhar fascinado e bem matreiro, vigiava as nossas travessuras, mesmo quando fingia que não…

Minha mãe, toda dedicada, delicada e plena, olhava envaidecida e afetuosa, como era da sua natureza, sua prole, sem diferenciar netos e filhos, o sorriso estampado em cada rosto e o cansaço que teimava em se apossar, de quem começou, ainda ao entardecer, a missão divertimento, agora, já era hora de recolher e de acolher, em seus braços, num abraço impregnado de tão intenso e infinito amor…

O sono chegava e com ele vinham os sonhos, toda certeza e espera da próxima fogueira e no semblante a mais pura e total satisfação… A imaginação, fértil e viva, ainda vaga pelo terreiro, o coração bate no ritmo dos instrumentos e a frequência acelera a saudade das histórias vividas e contadas, de tantas belas noites de São João.

” Oh! Que saudades que eu tenho, das noites de São João…”