Por Luiz Aureliano,  ex-secretário de Saúde de Serra Talhada e médico sanitarista

Ele nasceu numa família grande, pois ter muitos filhos significava força de trabalho, riqueza; principalmente se estes filhos fossem homens. E por falar em homens, duas condições eram sine qua non para ser homem: não roubar e gostar de mulher. O intransigente, acreditou nisto piamente desde tenra idade. Quando tinha qualquer dúvida, sobre qualquer história contada, o pai da tropa chamava o intransigente para relatar os fatos e ai ele relatava tudo como realmente tinha acontecido. Mesmo que com isto, levasse uma boa surra do pai, que não perdoava deslizes.

Os filhos também tinham que estudar para virarem gente, se possível ou quase sempre ser o melhor da sala. Sem contar que outra regra sagrada para quem nasceu no Sertão era ser macho, valente e não levar desaforo para casa. O intransigente brigava por qualquer desaforo. Se envolvesse seus irmãos, o cacete comia, batendo e apanhando. O tempo passa, o tempo voa, o intransigente tornou-se adolescente. Não era belo, mas mesmo assim fazia sucesso com as meninas e começaram os namoros. Para ele mais importante não era a beleza das meninas e sim gostar e sentir prazer de estar junto. Estar apaixonado por aquela garota, pois sem paixão ou sem tesão, não há solução.

Morar fora de casa torna-se um problema, pois o intransigente tem desavenças onde chega, onde mora. Fiel aos princípios que recebeu na infância continuava acreditando, dizendo a verdade, sem meias palavras e aí era briga em todo canto, tornando-se um incomodo para os que não gostavam daquele intransigente, brigão e que não levava desaforo para casa. Mas como ele era inteligente e bom aluno, muitas coisas eram relevadas e amainadas. Depois começaram os estigmas, como forma de isola-lo socialmente: ele é doido; encrenqueiro; cria problema em todo canto. Ele não mudava, não queria mudar, embora sentisse muitas vezes ser escanteado.

As pessoas tinham medo que ele brigasse, não calasse e dissesse a verdade e na maioria das vezes a verdade dói, incomoda. Já o seu irmão querido era ao contrário dele, pacato, tranquilo e todos gostavam dele. O intransigente se sentia rejeitado e a saída era brigar, usar a força para ser aceito, mas piorava as coisas, ficava mais rejeitado. O intransigente se forma, torna-se doutor e começam os conflitos. Sempre contra os jeitinhos, as mentirinhas, os corporativismos. Torna-se amigos de alguns poucos e arruma um bocado de gente que não gosta do seu jeito, de dizer a verdade doa a quem doer.

A verdade, esta incomoda senhora inconveniente e criadora de problemas, como ela é chata e cansativa para a maioria! E por cima, cisma que todos são iguais, ninguém é melhor que ninguém. Talvez aprendido com seu avô amado que tratava a todos, ricos e pobres, brancos e negros, seus empregados, da mesma forma, inclusive comendo na mesma mesa com ele.

Lembranças do avô e zelo pelo bem público

Ah o velho inesquecível avô, que ainda por cima era muito valente, destemido. Um verdadeiro herói. Vai trabalhando o intransigente. Uma das suas paixões, o trabalho e aí ele é pontual, cumpre as regras e ordens do trabalho. Não falta, é exigente com as normas e mesmo doente, algumas  vezes, vai trabalhar. O trabalho e o amor ou paixão pelas pessoas, são as coisas mais importantes da vida. “Sem o seu trabalho, um homem não tem honra e sem a sua honra se morre, se mata”, (Gonzaguinha). Com estas características e este perfil, além de uma boa formação profissional, alguns poucos companheiros descobrem que ele pode ser um bom gestor.

Principalmente um companheiro muito inteligente e sensível, tipo Rui Barbosa, que quando dizem que o intransigente cria muito problema, ele responde: para mim o intransigente não é problema, é solução. E vai ocupando cargos públicos, na maioria por indicação deste Rui Barbosa, cumprindo fielmente com suas obrigações. Nunca transigiu com os princípios que sempre acreditou, um homem não pode mentir, pois quem mente rouba. Muitas vezes, o intransigente deixou de ocupar alguns cargos mais relevantes, pois era intransigente demais. Para este intransigente o dinheiro público era sagrado, só podia ser utilizado para os seus donos, o povo.

O público que paga os impostos, para o Estado lhe prestar serviços etc. Não dava jeitinho, usava o critério técnico para a ocupação dos cargos de chefia, de confiança, o importante era a honestidade e a competência da pessoa. Não favorecia os aliados políticos, pois achava que iria prejudicar a população se colocasse incompetentes nestes cargos. Certa vez, quando saiu de um cargo público relevante com orçamento grande, a comissão de licitação lhe parabenizou, pois tinha sido o primeiro diretor daquele órgão a nunca ter ido lá pedir nada. Favorecimento nenhum a alguém. Imagina quantas tenebrosas transações foram feitas para trás.

Um fornecedor, certa vez, foi lhe perguntar como era seu “jeito de trabalhar” e ele disse, como assim? Ofereça o menor preço e ganhe a licitação. Na verdade, ele estava acostumado a pagar 10%, 20% aos ocupantes anteriores do cargo. Vergonhoso! Chegou o intransigente a ocupar um cargo no Parlamento. Mas logo descobriu que o parlamentar faz muita figuração e vive a maioria aos pés do executivo, a pedir migalhas em troca de um apoio incondicional. Isso desmoraliza e desvirtua o papel parlamentar. Independência é um conto de fadas. A impessoalidade é outro conto do vigário no serviço público. Ganham as eleições, quase todas com muito dinheiro sujo, caixa dois, três.

Compra descarada de votos, principalmente nas eleições municipais. Tem vereador que declara a Justiça Eleitoral que gastou R$ 10 mil e na verdade a ostentação mostra que gastou pelo menos R$ 500 mil. Enfim, os vencedores tornam-se donos do poder público, nomeiam os incompetentes que eles querem e tornam-se sócios do dinheiro público. Daí para a corrupção é rápido e fácil. Precisamos no Brasil de uma reforma política urgente, com parlamentarismo, voto distrital misto, sistema parlamentar uni-cameral. Acabar com os donos do poder, os imperadores: prefeitos, governadores, presidente. É muito poder concentrado numa única pessoa.

E aí o intransigente cansado de brigar com o tempo e a idade, sair desta história de ocupação de cargos políticos e volta ao leito natural do exercício da sua profissão. De forma natural, vivendo de forma simples, sem prejudicar ninguém, tentando ajudar sempre, sem mentir nem roubar. Sem medo da vida, pessimista na reflexão, otimista na ação.

 

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