Por Paulo César Gomes, professor, escritor, colunista e repórter especial do Farol

Publicado às 04h44 desta terça-feira (29)

A greve dos caminhoneiros, que tem parado literalmente o Brasil, é um movimento do qual se faz necessárias algumas reflexões. Desde os aspectos históricos, como o abandono da política de investimento na modernização dos meios de transportes fluviais e ferroviários; bem como os interesses internacionais de descredenciar a capacidade brasileira de gerir as suas próprias reservas de petróleo.

Nesse sentido, registrar que a guerra do Iraque tinha como pano de fundo o controle das reservas, do então terceiro reduto mundial de petróleo. Ou seja, o petróleo é hoje a maior riqueza encontrada no planeta, e o país que tem o controle sobre petróleo, é detentor de forte poder e prestigio internacional.

Outro aspecto que chama atenção é que do mesmo jeito que durante as manifestações de ‘junho de 2013’, não se tem um movimento com uma direção unificada. Um movimento com cara e discurso.

Assim como em 2013, os manifestantes não são chamados de ‘vagabundos’, ‘bandidos’, ‘arruaceiros’, e mais uma vez se fala que ‘o gigante acordou’ e as cores da bandeira do Brasil voltam a ser usadas como símbolos do ‘patriotismo’. E é esse ‘pseudo patriotismo’ onde mora o perigo.

Muitos não se deram conta de que logo após as manifestações de 2013 um leque de grupos de direita e de extrema direita se fortaleceram no país.

Foi nesse momento que surgiram movimentos radicais como o Movimento Brasil Livre (MBL), Vem Pra Rua e Revoltados On-line, grupos que foram determinantes nas eleições de 2014, ao ajudarem a eleger um congresso reacionário, onde o que predomina é o fisiologismo patrocinado pela bancada ‘BBB’ (Bala, Bola e Bíblia).

Um grupo de deputados e senadores que ajudaram a eleger Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados e que ajudaram de forma decisiva no impeachment de Dilma Rousseff (o golpe de 2016).

Esses grupos também foram determinantes para manter Michel Temer no poder, ao se venderem em troca do voto contra a abertura de dois inquéritos contra Temer no STF. Esses movimentos também apoiara a aberração que foi a Reforma Trabalhista.

Hoje, esse mesmo grupo de ativistas políticos se manifesta nas redes sociais convocando manifestações em apoio dos caminhoneiros. No bojo do material de panfletagem virtual aparece a expressão ‘patriotas’, uma referência indireta (ou direta) a um partido político, que entre outras coisas, prega a defesa da família.

Sempre que se usa a expressão família e a palavra de Deus em movimentos políticos, logo nos vem à mente “o fascismo” italiano, que foi liderado por Mussolini, principal aliado de Hitler durante a Segunda Guerra Mundial.

Pelo sim, pelo não. É preciso nesse momento saber distinguir o joio do trigo, pois de alguma forma os caminhoneiros podem estar sendo usados por oportunistas.

Até porque, em outubro, teremos eleições para presidente, governadores e para o poder legislativo federal e estadual. Ao mesmo tempo, é preciso entender que a reivindicação é justa e que o movimento deve durar até o governo atenda integralmente a pauta apresentada pelos caminhoneiros.

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