Publicado às 18h20 desta quarta (3)

Fotos: Celso García/Farol

Antes mesmo do sol arranhar as janelas das casas da Rua Rio Branco, no bairro do Bom Jesus, em Serra Talhada, Francisco Cândido da Silva, o “Cande”, de 47 anos, abre os olhos em meio à escuridão do quarto e caminha pela casa em oração. O relógio marca 3h ao som da voz do catador de materiais recicláveis. Ele conversa internamente com o Padre Cícero, Deus e Nossa Senhora. Pede ajuda para enfrentar mais um dia. ‘Seu Francisco’ então começa a acelerar o ritmo enquanto a madrugada se despede. Engole um café rápido. Põe um chapéu rajado, estilo exército, veste a camisa surrada do dia anterior, bermuda e sandália de couro. Está pronto para a guerra.

Logo cedinho, de flanco em flanco, avança pelas esquinas do bairro empurrando seu principal instrumento de batalha: uma carrocinha de metal que estampa o nome “Zé da Ciclagem” e o número: (87) 9627-0303. Do Bom Jesus ‘Seu Francisco’ escaneia rua a rua, como um estrategista observando cada descarte de lixo a ser atacado sempre em busca de algo promissor. Aos poucos, abastece a fome da pequena carroça com papelão. E, repetidamente, um exercício intenso de abaixar-se e levantar-se põe à prova o seu corpo já fustigado pela força do sol do meio dia. Até esse horário “Cande” já percorreu muitos quilômetros, indo do bairro Bom Jesus, à Lagoa Maria Timóteo, Centro, Caxixola, Ipsep e AABB.

Nesse último bairro, diz que encontra alguma resistência. “Alguns me veem mexendo no lixo deles e eu sinto a repreensão no olhar. A pessoa até acaba levando bronca por conta de outros catadores que abrem o lixo rasgando o saco e deixando as coisas caídas na rua. Aconteceu já comigo, quando uma mulher me viu e pediu para que não fizesse isso, mas não havia sido eu. Outra vez por lá, alguém pediu para eu fechar o lixo direitinho, mas é como eu sempre faço”, ensina o Zé da Ciclagem. Indagado sobre a possibilidade de trabalhar em outra coisa caso tenha oportunidade, ele diz que sim. Iria sem problema.

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Já até atuou como servente de pedreiro. E vez ou outra acaba sendo chamado para trabalhar como segurança em vaquejadas. Vai sem medo algum. Na reciclagem ‘Seu Francisco’ diz que já chegou a tirar, “num mês bom”, R$ 1000. No entanto, vem sustentando a casa geralmente com R$ 500 a R$ 600 mensais. E já se vão cinco anos nessa luta. O catador não conseguiu se firmar em São Paulo, como fizeram os seis irmãos. Há alguns anos, todos migraram para a ‘terra da garoa’ em busca de melhoria.

Apenas ‘Seu Francisco’ não se adaptou. Viajou, na verdade, mais por respeito a sua mãe, Dona Maria da Conceição, 72 anos. Ele lembra dela com lágrimas nos olhos. Dona Maria partiu há alguns anos, por velhice. “Eu trabalhava na fazenda aqui, quando minha mãe ligou mandando eu ir para São Paulo, dizendo que não admitia que todos os filhos dela estivessem por lá, menos eu. Aí eu fui.” Por lá, passou seis anos até chegar a pandemia e falecer dona Maria. “Daí eu decidi voltar para Serra”.

Nos últimos anos conseguiu comprar a carrocinha que é seu ganha pão. Essa conquista o deixou orgulhoso. Antes tinha que alugar um suporte para poder coletar. “Eu sempre pensei, caminhando na rua, dizendo pra mim mesmo: ‘com fé em Deus um dia eu compro uma carroça pra mim. E deu certo. Deu orgulho de trabalhar com isso”, conta ‘Seu Francisco’, com o olhar fixo e contemplativo no céu. Mas depois veio a mágoa.

Certa noite, avançaram sobre a casa dele e roubaram os dois pneus da carrocinha. “Foi uma tristeza. Pouco tempo depois eu descobri e encontrei quem foi”, disse “Cande”, com o cenho franzido, ainda lembrando do aborrecimento que teve. Recuperada a carroça, de trincheira em trincheira na guerra diária como catador, Zé da Ciclagem chega a alimentá-la com 15 kg de papelão. É quando volta com mais esperança para casa, por volta das 18h. Abre a porta, fita a esposa Inês Rosa da Silva e diz com um sorriso largo na boca: “Mulher, hoje deu bom pra nós”.

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FORTALECENDO O TRABALHO

Para quem tiver, puder e quiser juntar, em casa, materiais recicláveis como papelão ou latinhas, pode ligar para ‘Cande’ o nosso Zé da Ciclagem neste número (87) 9627-0303, que ele irá buscar no seu endereço.