
Celulares, jogos online, redes sociais e vídeos curtos fazem parte da rotina de milhares de crianças e adolescentes. Em muitos lares, as telas passaram a ocupar espaços cada vez maiores dentro da convivência familiar, interferindo no sono, no comportamento, na aprendizagem e até na forma como os jovens lidam com emoções e frustrações.
Em meio a uma geração hiperconectada, cresce também a preocupação de pais e especialistas sobre os impactos do uso excessivo da tecnologia na saúde mental infantil.
Para falar sobre os riscos do excesso de telas, os sinais de dependência digital e os cuidados que as famílias precisam ter diante dos perigos da internet, o Farol de Notícias conversou nesta semana com a psicóloga Jocce Machado. Na entrevista, ela alerta para os efeitos emocionais causados pela hiperexposição digital e reforça a importância do diálogo, da supervisão afetiva e da construção de limites saudáveis dentro de casa.
Farol de Notícias: O uso excessivo de telas pode causar quais impactos na saúde mental e no desenvolvimento emocional das crianças?
Dra. Jocce Machado: O uso excessivo de telas na infância pode impactar não apenas o comportamento da criança, mas também o seu desenvolvimento emocional, social e cognitivo. Quando utilizadas sem limites e sem supervisão adequada, as telas tendem a reduzir experiências fundamentais para o amadurecimento emocional, como o brincar, o contato afetivo, a convivência familiar e as interações sociais reais.
Entre os impactos mais observados, estão dificuldades de atenção e concentração, irritabilidade, maior intolerância à frustração, alterações no sono, ansiedade, agitação emocional e prejuízos nas habilidades sociais. Além disso, crianças muito expostas às telas podem apresentar mais dificuldade em lidar com emoções, esperar, elaborar sentimentos e desenvolver recursos internos para enfrentar frustrações do cotidiano.
Outro ponto importante é que o excesso de estímulos rápidos e constantes pode interferir na capacidade da criança de sustentar interesse em atividades simples, afetando criatividade, imaginação e até o vínculo com os pais e cuidadores.
E é importante compreender que o impacto das telas não se limita apenas à criança de hoje, mas também ao adulto de amanhã. A infância é a base da construção emocional do indivíduo. Crianças que crescem com excesso de estímulos digitais e pouca vivência emocional real podem se tornar adultos mais ansiosos, imediatistas, com dificuldade de lidar com frustrações, silêncios, vínculos e processos internos. A tecnologia não precisa ser vista como vilã, mas seu uso deve acontecer com equilíbrio, presença dos responsáveis e adequação à faixa etária. O mais importante é que a criança continue tendo espaço para brincar, conversar, criar vínculos, sentir e viver experiências reais, porque é justamente nessas vivências que o desenvolvimento emocional saudável acontece.
Farol de Notícias: Como os pais podem identificar sinais de dependência digital ou vício em celulares, jogos e redes sociais nos filhos?
Dra. Jocce Machado: Os pais podem identificar sinais de dependência digital observando mudanças no comportamento, no humor e na rotina da criança ou do adolescente. Quando o uso das telas deixa de ser apenas entretenimento e passa a ocupar um espaço central na vida emocional, alguns sinais começam a surgir de forma mais evidente. Entre os principais sinais estão irritabilidade ou agressividade quando o celular ou videogame é retirado, dificuldade de interromper o uso das telas, perda de interesse por brincadeiras, atividades ao ar livre ou convivência familiar, além da necessidade constante de estar conectado.
Também é comum perceber alterações no sono, queda no rendimento escolar, isolamento social, ansiedade excessiva, impaciência e dificuldade de concentração em atividades que exigem mais tempo ou menos estímulo imediato. Muitas crianças e adolescentes passam a utilizar as telas como uma forma de aliviar emoções, fugir de frustrações ou preencher vazios emocionais. E é justamente nesse ponto que os pais precisam estar atentos: quando o celular deixa de ser uma ferramenta e passa a funcionar como refúgio emocional.
Outro aspecto importante é observar a qualidade da presença da criança fora das telas. Mesmo distante do aparelho, ela continua inquieta, ansiosa ou pensando em voltar rapidamente para o ambiente digital? Isso pode indicar uma relação de dependência. Mais do que apenas controlar tempo de uso, os pais precisam construir diálogo, presença e limites saudáveis. A supervisão afetiva continua sendo uma das maiores formas de proteção emocional dentro desse cenário tão digital em que vivemos hoje.
Farol de Notícias: Existe um tempo de tela considerado saudável para crianças e adolescentes? O que deve ser levado em consideração além da quantidade de horas?
Dra. Jocce Machado: Sim, existe um tempo de tela considerado mais saudável, mas é importante compreender que não devemos olhar apenas para a quantidade de horas, e sim para a qualidade desse uso e para os impactos que ele gera na vida emocional, social e no desenvolvimento da criança ou do adolescente. As recomendações variam conforme a faixa etária. Crianças menores precisam de muito mais experiências reais do que digitais, enquanto adolescentes já possuem uma relação mais integrada com a tecnologia. Ainda assim, o excesso de telas, em qualquer idade, merece atenção.
Além do tempo, é fundamental observar alguns pontos: que tipo de conteúdo está sendo consumido, se existe supervisão dos pais, se a criança mantém uma rotina equilibrada e se ainda há espaço para brincar, estudar, dormir adequadamente, conviver socialmente e desenvolver vínculos afetivos fora do ambiente digital. Outro aspecto importante é entender a função emocional que a tela ocupa. A criança utiliza o celular apenas como entretenimento ocasional ou ele se tornou uma forma constante de aliviar ansiedade, evitar frustrações, silenciar emoções ou preencher ausências afetivas?
Também precisamos avaliar como essa criança reage quando está desconectada. Se há irritabilidade intensa, ansiedade, isolamento ou dificuldade em aproveitar experiências fora das telas, isso já acende um sinal de alerta. A tecnologia faz parte da realidade atual e pode, inclusive, trazer benefícios quando utilizada com equilíbrio. O problema não está apenas no tempo de uso, mas em quando, como, por que e no lugar de quê essas telas estão sendo utilizadas dentro da vida daquela criança ou adolescente.
Farol de Notícias: Quais cuidados os pais precisam ter em relação ao tipo de conteúdo consumido pelas crianças na internet e aos riscos como pedofilia digital, aliciamento, cyberbullying e desafios perigosos?
Dra. Jocce Machado: Os pais precisam compreender que, no ambiente digital, a criança não está exposta apenas a conteúdos inadequados, mas também a riscos emocionais, psicológicos e até criminais. A internet pode ser um espaço de aprendizado e conexão, mas também exige supervisão, presença e orientação constante da família. Um dos principais cuidados é acompanhar o tipo de conteúdo que a criança consome, observando se aquilo é compatível com sua faixa etária e se não estimula violência, sexualização precoce, agressividade, hiperestimulação ou comportamentos perigosos. Muitas vezes, conteúdos aparentemente “infantis” carregam mensagens nocivas de forma sutil.
Além disso, os pais precisam estar atentos aos riscos de pedofilia digital, aliciamento virtual e manipulação emocional por pessoas mal-intencionadas. Crianças e adolescentes podem ser abordados em jogos online, redes sociais e aplicativos de conversa por indivíduos que utilizam falsa identidade, criando vínculos emocionais para ganhar confiança e vulnerabilizar a vítima. O cyberbullying também merece extrema atenção, porque as agressões virtuais podem causar impactos profundos na autoestima, na ansiedade, no isolamento social e até no desenvolvimento de quadros depressivos. Muitas crianças sofrem em silêncio por medo, vergonha ou dificuldade de pedir ajuda.
Outro ponto preocupante são os chamados “desafios perigosos” disseminados na internet, que incentivam comportamentos de risco em busca de aceitação social, curtidas ou pertencimento em grupos digitais. Por isso, mais do que apenas proibir, os pais precisam desenvolver uma presença ativa e afetiva no mundo digital dos filhos. É importante conversar sobre segurança, ensinar limites, acompanhar jogos, aplicativos e redes sociais, além de construir um ambiente em que a criança se sinta segura para relatar situações desconfortáveis.
A supervisão não deve ser baseada apenas em controle, mas principalmente em vínculo, diálogo e confiança. Crianças emocionalmente acompanhadas tendem a desenvolver mais consciência, proteção e capacidade de reconhecer situações de risco no ambiente virtual.
Farol de Notícias: De forma prática, como os pais podem impor limites no uso das telas sem gerar conflitos constantes dentro de casa?
Dra. Jocce Machado: De forma prática, os pais conseguem impor limites no uso das telas quando compreendem que limite não é punição, mas cuidado. O problema é que muitas famílias acabam tentando retirar a tela apenas no momento do excesso, sem antes construir rotina, diálogo e previsibilidade. E isso naturalmente gera mais conflitos. O ideal é que os combinados sejam claros e definidos previamente: horários para uso, tempo permitido, momentos sem telas como durante refeições, estudos e antes de dormir além de consequências coerentes quando os limites não forem respeitados.
Outro ponto muito importante é que os pais também precisam ser referência nesse processo. A criança aprende muito mais pelo exemplo do que apenas pela regra. Quando ela vê adultos constantemente no celular, a tendência é questionar os limites impostos. Também ajuda bastante oferecer alternativas reais fora das telas: momentos em família, brincadeiras, esportes, leitura, conversas e experiências que despertem interesse emocional verdadeiro. Muitas vezes, a tela ocupa um espaço exagerado porque faltam outras fontes de conexão e prazer na rotina da criança.
Além disso, é importante evitar que o celular seja utilizado como única forma de acalmar, distrair ou recompensar emocionalmente a criança. Quando a tela vira solução para tudo, ela passa a ganhar um lugar de dependência dentro da dinâmica emocional. E talvez o mais importante: os limites precisam ser firmes, mas afetivos. Crianças necessitam de contorno emocional. Nem toda frustração fará mal; na verdade, aprender a lidar com limites também faz parte do desenvolvimento saudável. O excesso de permissividade pode gerar alívio momentâneo dentro de casa, mas prejuízos emocionais importantes no futuro.