Publicado às 06h08 desta terça-feira (29)

Por Flaviano Roque, escritor serra-talhadense

FAROL tem uma grande vantagem para quem se aventura nas letras, por aqui não se questiona a liberdade criativa do autor; acreditem, nem sempre é possível dizer, em todos os lugares, tudo que pensamos. Esse século, diga-se de passagem, faz diariamente exumação de ideias antigas. Daí a gente escuta um ou outro lunático dizendo que não vai tomar vacina, dizendo que o vírus não mata tanto assim… Tempos difíceis esses, em que é preciso fazer dissecação constante do óbvio como forma de manter a sanidade mental. Ao menos aqui ninguém colocou mordaça no cronista, porque a imprensa ainda é livre, mesmo que para o desgosto de muitos.

Esses dias saí com dois grandes amigos pelo centro da cidade, ao passar pela avenida Afonso Magalhães, lá estava um vultuoso cartaz com o dizer emblemático “O povo armado jamais será escravizado”. Um ponto importante, os responsáveis pelo cartaz têm de fato o direito de se manifestar? Obviamente que sim, a liberdade de expressão não encontra amarras de conteúdo (salvo, se isso constituir prática de crime ou evidente abuso), assim, os praticantes de tiro esportivo, dada a prática e treinos constantes, podem ver na arma de fogo uma forma de proteção maior para sua propriedade e segurança. O Direito à expressão não necessariamente está atrelado à verdade do conteúdo daquilo que se expressa, isto é, o cartaz pode não condizer com o que é real, mas, mesmo assim, é uma forma de grupos e pessoas emitirem seus pensamentos, o que é justo e democrático.

Contudo, há um problema mais profundo do que a mera expressão retórica de política armamentista da frase citada: a generalização. Primeiro, pesquisas recentes apontam que 60,9% dos brasileiros afirmam não querer armas de fogo em suas casas, na maioria mulheres. Se considerarmos os índices de violência doméstica, talvez não seja nem preciso explicar o porquê do número. Segundo, o povo (essa grande massa sem voz e sem vez) precisa de muita coisa além de arma de fogo, pois criar vagas de emprego e garantir matrículas regulares em escolas tem se mostrado muito mais efetivo na redução dos índices de violência. Rememoro bem o ano de 2019, quando alguns pseudocientistas disseram ter havido uma queda no número de mortes (homicídios) e tal fato se devia aos decretos de flexibilização para aquisição de armas de fogo então ocorridos. Depois, o tempo deu a resposta e não falaram mais nada, um silêncio eloquente tal qual o tiro de .762. Afinal, nos dois primeiros meses de 2020, os assassinatos cresceram 57% em relação ao ano de 2018.

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Definitivamente, os armamentistas não são bons com causalidades. Ao contrário dos pseudocientistas, eu não ousaria afirmar que o aumento de homicídios se deu meramente por conta dos decretos aprovados pelo governo Bolsonaro, sequer há dados para essa afirmação. E convenhamos, quando se trata de segurança pública o buraco é bem mais embaixo.

Um amigo, professor e matemático, bem melhor entendedor de causalidades do que as alas extremistas que dominam o cenário de discursos políticos de hoje, me contou um entrecho que bem descreve como atualmente se joga com a verdade, em suma: um indivíduo, nos últimos seis meses, teria feito uso contínuo de ivermectina sem prescrição médica, como não foi acometido por nenhum mal-estar, afirmava a eficácia inequívoca do medicamento com base em sua experiência empírica. Em tempo e sarcasticamente, alguém teria retrucado tal pensamento de forma venial; a contradita veio de um apreciador de cevada, embora o argumento seja mais que filosofia de botequim. O bebedor assíduo contou que desde o início da pandemia também bebe cerveja preta Caracu e, ao menos até agora, por não ter pego qualquer camarço, perguntou: seria essa a inequívoca certeza de que beber cerveja preta (claro, da marca Caracu) é a verdadeira cura para a pandemia? Eu não sei vocês, mas não contive os risos. Tal qual os argumentos armamentistas, essas relações de causalidade isoladas e cheias de paixão são moduladas para explicar fatos que impactam a vida de várias pessoas. De fato, as generalizações são péssimas e desprovidas de qualquer cientificidade.

Existe ainda outro ponto, o qual posso, por motivos pessoais, falar com mais propriedade: a posse e, em maior medida, o porte de qualquer armamento não é pra qualquer pessoa. Devem ser tratados como privilégio mesmo, de uso excepcional, dado que poucos têm capacidade técnica e maturidade psicológica para possuir o material. É lindo fazer mercado de vendas de armas (as vendas aumentaram em 200%), é lacração fazer post no instagram da sua nova pistola automática .380 taurus; embora aí já tenhamos um contrassenso, pois, se a arma é para sua segurança, avisar que acabou de comprá-la não é uma atitude inteligente. Enfim, a tensão de estar armado não é coisa de filme, os policiais bem sabem disso. Na lógica policial, para aqueles que são homens de armas e não de mera opinião, há uma diferença entre lobos e felinos, há muita gente que acha que é lobo, mas despencaria de medo ao ouvir, em uma situação de real emergência, o primeiro estampido de tiro.

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Uma coisa é certa, os argumentos armamentistas não faltam, e alguns até são bons, por exemplo, um primeiro argumento: “armas brancas como canivetes e facas, são tão perigosas quanto pistolas e revólveres”. E, entendam, essa afirmativa não é falsa. Quem já labutou em cenas de crime sabe que não existe morte mais feia (mesmo que no sentido figurado) do que a causada por instrumentos perfuro-cortantes. Porém, quando o causalista de oportunidade pega essa tese, protesta a favor de uma liberação geral, ignorando que os ferimentos por as armas de fogo são causa da morte em 71% dos homicídios no Brasil. E nem adianta comparar o Brasil aos EUA, pois esse é referência global em mortes por arma de fogo. A diferença é simples, com menos armas de fogo já se mata mais (com arma de fogo)
no Brasil, o que revela nítido problema de segurança pública. Se o assunto é sério, é conveniente deixar de lado o “complexo de vira-lata”’; antes de olhar para os outros é bem melhor reconhecer quem somos.

Outro argumento igualmente utilizado, apesar de o considerar um chamado ao desespero, apelativo para a interpretação meramente gramatical, diz: “as armas não matam, são as pessoas que matam”. Considero inicialmente um apontamento igualmente justo, de fato são as pessoas que matam, mas como não existe meio intelectivo de se comunicar objetos de metal e polímero (não podemos pedir as armas para cessar com as mortes), é certo que as regras restritivas ainda devem ter como objeto de aplicação às pessoas. E, igualmente, se são as pessoas que matam, é injustificável regras de liberação de armas para alcançar um maior número de indivíduos, levando em conta que somente uma porcentagem deles está de fato apta a possuir, com responsabilidade, seus armamentos.

Uma distinção básica: uma coisa é seu direito individual de andar armado, desde que cumprindo as leis e decretos existentes, tal discussão é legítima e cabe muito bem no debate democrático; outra coisa é extrapolar no argumento, pagando moral individual inservível para um contexto coletivo. Só sei de uma coisa, essa velha retórica de frases feitas e de causalidades insubsistentes há de nos colocar em apuros… Melhor seria, “Um povo educado jamais será
escravizado”. Com um pouco mais de “educação para todos” eu até poderia concordar com uma ou duas teses dos armamentistas, mas até lá, o céu continua azul e a força gravitacional ainda empurra as coisas para baixo.