Aumento de diagnósticos da síndrome de Burnout acende alerta
Quase 3 milhões de casos de doenças ocupacionais foram atendidos, pelo SUS, entre 2007 e 2022 – Freepik / Banco de Imagens

Do JC Online

A lista de doenças relacionadas ao trabalho inclui condições que são responsáveis por danos à integridade física ou mental de funcionários. Essa relação é reconhecida pelo Ministério da Saúde. Entre as enfermidades, estão transtornos mentais como Burnout.

O termo burnout é utilizado para se referir ao trabalhador com sintomas de esgotamento, estresse e exaustão. A principal causa é o excesso de trabalho, mas também por ser resultado de um ambiente tóxico criado pelo clima organizacional da empresa.

Atualmente, o Brasil ocupa o segundo lugar em número de casos diagnosticados de Burnout – doença ocupacional reconhecida e classificada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2022. O País está atrás apenas do Japão, de acordo com dados da International Stress Management Association (Isma).

Quase 3 milhões de casos de doenças ocupacionais foram atendidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) entre 2007 e 2022, segundo apontam dados Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), que é gerenciado pelo Ministério da Saúde.

Recentemente, o governo brasileiro criou o Certificado Empresa Promotora da Saúde Mental. Dessa maneira, é possível identificar companhias com programas de promoção da saúde mental, que ofereçam acesso a recursos de apoio psicológico e psiquiátrico para funcionários, capacitem lideranças e realizem treinamentos específicos sobre o tema,  assim como estabelecem uma política de combate à discriminação e ao assédio.

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Para o psicólogo Claudio Melo, da Holiste Psiquiatria, a implementação da lei 14.831/2024 surge como uma iniciativa louvável, mas que exige cuidado.

“É imperativo questionar se essa abordagem, apesar das boas intenções, não introduzirá uma camada adicional de obrigações e burocracias sobre as organizações. Em vez de imposições estatais, talvez a solução resida na promoção de práticas autônomas de atenção à saúde mental no ambiente de trabalho, estimulando uma cultura organizacional que valorize o bem-estar dos colaboradores como pilar para o sucesso e sustentabilidade empresarial.

Quem está mais suscetível ao Burnout?

Metas irreais, pressão em excesso e cobranças de clientes estão entre os fatores que podem levar à síndrome de Burnout.

O psiquiatra Kayo Barboza, também da Holiste Psiquiatria, aponta que se engana quem pensa que apenas executivos de grandes empresas estão suscetíveis ao esgotamento físico, emocional e mental que caracteriza a síndrome.

O Burnout geralmente é associado a quadros de depressão e ansiedade parcialmente ou totalmente incapacitantes.

“É preciso entender que a síndrome de Burnout é uma forma específica de estresse, relacionada ao desgaste emocional e comportamental no ambiente de trabalho. Toda profissão pode ser acometida por essa condição, mas as categorias que envolvem o cuidado com pessoas correm maior risco, como professores, policiais, bancários e profissionais de saúde”, destaca Kayo.

“No Brasil, esse tipo diagnóstico se popularizou entre os profissionais de saúde e de call center, estando diretamente ligado aos problemas de relacionamento com clientes e colegas de trabalho”, acrescenta.

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Três sintomas da síndrome de esgotamento profissional

Kayo Barboza separou os três sintomas mais comuns e que podem indicar que o trabalhador esteja passando por um quadro de esgotamento físico, emocional e mental causado pelo ambiente profissional. Confira:

  • Exaustão física: Acontece quando o indivíduo percebe não possuir mais a energia necessária para realizar o trabalho. Já sentiu culpa por não conseguir realizar as tarefas com a mesma velocidade de antes? As principais causas da exaustão são a sobrecarga de atividades, mas é preciso estar atento porque conflitos pessoais e profissionais nas relações de trabalho também podem desencadear sintomas importantes.
  • Distanciamento emocional: Essa é uma tentativa do paciente de se defender da carga emocional negativa do ambiente de trabalho, como assédio moral, metas irreais e cobranças desproporcionais. Nessa etapa, podem surgir atitudes insensíveis em relação aos clientes ou colegas, o que pode gerar ações marcadas pela frieza e desinteresse. Muitos profissionais acham que o distanciamento é a resposta para conseguir desempenhar as funções de maneira menos desgastante, mas é apenas o sintoma de um profissional sobrecarregado.
  • Sentimento de insatisfação: Não inclui apenas da insatisfação com o trabalho. A síndrome de Burnout leva a um sentimento de insatisfação pessoal e profissional, associado à perda do prazer no trabalho e pelas atividades e hobbies que antes traziam alegria e satisfação ao indivíduo, como sair com os amigos e praticar esportes, entre outros. É comum que esse sentimento venha acompanhado da síndrome do impostor, da sensação de incompetência e baixa autoestima.
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Sofrimento não faz parte do trabalho

Quando ir ao escritório se torna uma tarefa angustiante e que desperta até sensações físicas, como tremor e coração acelerado, é hora de buscar ajuda.

O estresse e a pressão podem até fazer parte do cotidiano de algumas profissões, mas não quando atreladas ao sofrimento.

“Caso a pessoa esteja sentindo algum grau de sofrimento emocional por causa do trabalho, desânimo para cumprir tarefas que antes eram simples e apatia, deve procurar o apoio de um psicólogo ou psiquiatra”, salienta Kayo Barboza.

Para o psicólogo Claudio Melo, é muito importante que as empresas entendam que o sucesso da organização está diretamente ligado à saúde mental da equipe.

Para isso, as organizações podem desenvolver atividades de diagnóstico e prevenção ao estresse no trabalho que podem ser conduzidas por profissionais de psicologia especializados nessa área.

“Do lado do colaborador, é importante ficar atento aos seus limites, se o trabalho está causando algum tipo de mudança significativa em seus afetos e humor. Se houver prejuízo na rotina e no rendimento, deve-se buscar apoio profissional”, acrescenta o psicólogo.