Colapso silencioso na natureza, uma reflexão sobre o crescimento de ST
Foto: Igor Luigi

Por Lucas Jorge, Professor de História

Não sou uma voz solitária ao confessar que evito, a todo custo, o centro da cidade. O trânsito caótico, a poluição visual e a agressão sonora me afastam desse espaço que, paradoxalmente, deveria ser o coração pulsante do município. No entanto, numa das raras idas inevitáveis, uma constatação me deteve: no centro de Serra, já não se ouve mais o canto dos pássaros como antigamente. Olhei para cima e percebi que as aves cederam lugar aos saguis (os soins), como são popularmente conhecidos, predadores naturais de ovos e filhotes. O que agora ecoa entre os postes de energia e as poucas árvores que restam é o assobio desses pequenos primatas.

Para olhares desatentos, essa observação pode soar como trivialidade. Somos diariamente impelidos a ignorar o que realmente importa. Contudo, esse detalhe aparentemente banal esconde um desequilíbrio grave nas interações biológicas da caatinga em nossa região. A expansão da devastação ambiental que devasta os arredores da cidade para abrir espaço ao setor imobiliário está destruindo habitats inteiros. Espécies que antes viviam nesses ambientes agora invadem o perímetro urbano em busca de refúgio.

Continua depois da publicidade

Nos novos bairros que se erguem, não há acessibilidade para pessoas com deficiência — as calçadas são estreitas demais — nem espaço para as árvores. E uma cidade menos arborizada é uma cidade que pune seus animais de rua sob o sol impiedoso, que potencializa o aquecimento urbano e que agrava perigosamente os índices de poluição.

Receba as manchetes do Farol primeiro no canal do WhatsApp (faça parte)

O que virá depois do desaparecimento total dos pássaros? Muito além da ausência de seu canto, a explosão populacional de insetos talvez seja o menor dos problemas. A superpopulação de saguis pode desencadear surtos de doenças como a raiva, enfermidade para a qual essa espécie atua como vetor. O que testemunhamos é uma reação em cadeia que Rachel Carson, autora de Primavera Silenciosa, descreveu com lucidez profética ao alertar sobre os efeitos sistêmicos da intervenção humana irresponsável sobre o ambiente. Em sua obra, Carson imaginou um futuro no qual a primavera amanheceria sem o canto das aves; em Serra, esse silêncio já começou.

Talvez esta reflexão possa nos retirar, ainda que brevemente, do frenesi cotidiano e nos fazer escutar mais, enxergar o entorno, perceber como as coisas mudam sutilmente até produzirem impactos assombrosos. A natureza não grita, não faz barulho — ela sussurra, pede socorro.

Não se discute aqui a possibilidade simplista do extermínio de uma espécie invasora. O que está em jogo é a necessidade urgente de compreender e combater as causas profundas do desequilíbrio ambiental. Mas, convenhamos, para uma cidade ocupada em em decidir qual artista animará a próxima festa, os sussurros da natureza são perfeitamente abafáveis. Enquanto os pássaros desaparecem e os saguis se multiplicam, seguimos dançando sob um silêncio que não percebemos — mas que um dia cobrará ingresso.

Os fatos de Serra Talhada e região no Instagram do Farol de Notícias (siga-nos)