
Do UOL
O presidente Lula (PT) saiu do primeiro turno das eleições de 2026 com 2,2 milhões de votos a menos que Flávio Bolsonaro (PL) e o desafio de disputar os 9,3 milhões de votos dos demais candidatos, majoritariamente de direita.
Três semanas depois, Lula foi reeleito com 4,4 milhões de votos a mais que Flávio. É o dobro da vantagem que obteve de Jair Bolsonaro, em 2022, na eleição mais apertada da história.
A chave para entender a virada é a entrada em cena de quase 5 milhões de novos votos —3 milhões vieram da queda da abstenção e outro 1,8 milhão da redução dos brancos e nulos.
Esses novos votos, somados à votação dos demais candidatos no primeiro turno, deram a Lula e Flávio uma margem de 14,1 milhões de votos para crescer.
No saldo final, Lula se saiu muito melhor. Teve 10,4 milhões de votos a mais que no primeiro turno —3 de cada 4 novos votos em disputa. Já Flávio conseguiu crescer 3,7 milhões de votos —1 de cada 4.
A diferença foi suficiente para fazer o presidente superar a vantagem que Flávio abriu na primeira rodada e ainda tomar distância.
Dos novos votos de Lula, 4,8 milhões foram dados no Sudeste. Foi a região onde a votação do presidente mais aumentou —mais de sete pontos percentuais. Lula também cresceu nas demais regiões.
O resultado de Flávio é o oposto: ficou levemente atrás resultado do pai, Jair Bolsonaro, em todo o país, menos no Sul.
O mapa final dos votos ficou parecido com o resultado das eleições de 2022. O segundo turno de Lula pode ser lido como uma batalha para retomar uma votação similar à que teve quatro anos antes.
Mas, se tivesse que contar apenas com quem já havia votado no primeiro turno, Lula não conseguiria. Foi a mobilização de novos eleitores que virou o jogo.
O UOL explica em 4 pontos a vitória de Lula:
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1) Eleitorado mobilizado: quase 5 milhões de votos a mais
A campanha de Lula apostou, logo na saída do primeiro turno, em tirar as pessoas de casa para votar. Os dados mostram que a estratégia deu certo.
Em todas as eleições presidenciais até 2018, a abstenção no segundo turno foi maior que no primeiro. A primeira vez que isso não ocorreu foi em 2022, quando 1,3 milhão de pessoas que se abstiveram no primeiro turno foram votar no segundo.
Em 2026, foi mais que o dobro: 3 milhões de pessoas.
O número de votos brancos e nulos também diminuiu entre os dois turnos, de 6 milhões para 4,2 milhões. Isso dá 1,8 milhão de votos úteis a mais.
Onde o número de votos válidos mais subiu foi no Sudeste, com 2,4 milhões de novos eleitores, e no Nordeste, com 1,5 milhão. A região Sul teve quase 700 mil votos a mais, e o Centro-Oeste, mais de 250 mil. O Norte foi o único local do país onde o número de votos caiu entre os turnos -145 mil deixaram de votar.
No exterior, a votação bateu recorde. A taxa de abstenção fora do Brasil é muito maior do que dentro, até pela característica da votação, realizada apenas nas cidades onde há representação diplomática. Em muitos casos, votar significa ter que viajar —e vídeos virais publicados neste final de semana nas redes sociais mostram exatamente isso.
O resultado é que o número de votos válidos no exterior subiu 12%.
Quanto maior o porte do município, maior foi o aumento no número de votos válidos. Cidades com até 50 mil habitantes tiveram alta de 3,4%. Nas com mais de um milhão de pessoas, 4,8%.
2) Flávio ficou atrás do pai em todas regiões, exceto Sul
Flávio Bolsonaro foi melhor que o pai no primeiro turno. Teve 47% dos votos válidos, contra 43,2% de Jair em 2022. Uma diferença de 3,8 pontos.
Mas no segundo turno, Flávio foi pior. Fechou as urnas com 48,2% dos válidos, versus 49,1% de Jair. Uma perda de 0,9 ponto.
Jair largou atrás de Lula no primeiro turno de 2022, com 6,2 milhões de votos a menos. No segundo turno, conquistou 7 milhões de votos, enquanto Lula ganhou menos da metade. O resultado foi que Jair colou em Lula e terminou atrás por cerca de 2 milhões de votos.
Com Flávio ocorreu o oposto. O candidato saiu à frente, mas no segundo turno avançou pouco, obtendo 3,7 milhões de novos votos -enquanto Lula fez 10,4 milhões de votos a mais.
O crescimento de Flávio no segundo turno representa menos da metade do número de votos dados aos candidatos derrotados no primeiro turno. Só Augusto Cury (Avante), que declarou voto em Flávio, teve 3,4 milhões. Ronaldo Caiado (PSD), que também apoiou o filho de Jair, conquistou 2,6 milhões.
A votação em Goiás dá pistas do que aconteceu. Foi o único estado do país em que houve uma terceira via de fato, com Caiado, ex-governador, obtendo 12% dos votos. Isso fez de Goiás o estado com mais votos em disputa no segundo turno. No balanço final, Lula cresceu 9 pontos em Goiás. Flávio,
Não é possível saber ao certo como foi a transferência de votos. Caiado pode ter transferido mais votos para Lula do que para Flávio. A chegada de novos eleitores, que não votaram no primeiro turno, pode ter amortecido a migração de votos para o candidato do PL. Há ainda os votos que podem ter virado de Flávio para Lula.
Isso não ocorreu só com Caiado, nem só em Goiás, mas em todo o país.
Alguns dados indicam que a virada de votos, de fato, ocorreu. É o caso do resultado municipal. Em uma de cada seis cidades do país, Flávio perdeu votos (em número absoluto) em comparação com o primeiro turno.
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3) Sudeste é onde Lula mais cresceu, com 4,8 mi de novos votos
Foi no Sudeste que Lula mais ampliou a votação entre o primeiro e o segundo turno.
Dos 10,4 milhões de novos votos do candidato do PT, 4,8 milhões estão no Sudeste. Foram 2,6 milhões em São Paulo -mais de 800 mil só na capital. E mais 1,1 milhão em Minas e cerca de 900 mil no Estado do Rio.
O Sudeste já havia sido determinante para a vitória de Lula em 2022 e repetiu o feito em 2026. Sem o aumento de votos na região, nem mesmo a vantagem de Lula no Nordeste seria capaz de reelegê-lo presidente. Lula fechou o primeiro turno com 39,7% no Sudeste. Ontem, fez 47,2%.
Já Flávio Bolsonaro fez 1,9 milhão de votos a mais no Sudeste em comparação com o primeiro turno. Teve 51,4% no início de outubro e terminou ontem com 52,8%. Menos que o pai, que saiu das eleições com 54,3% no Sudeste.
4) Lula recuperou espaço no Nordeste; Flávio caiu
O balanço final do Nordeste ajuda a entender o movimento dos votos neste segundo turno. No primeiro turno, os demais candidatos tiveram 1,8 milhão de votos no Nordeste. No segundo, mais 1,5 milhão de pessoas foram votar na região. É a segunda região do país onde a abstenção mais caiu, depois do Sudeste.
Ou seja, havia 3,3 milhões de votos a mais para serem disputados no Nordeste neste domingo. Lula levou 88% desses votos. Flávio, apenas 12%.
Com isso, Lula recuperou espaço no Nordeste. No primeiro turno, teve 63,8% dos votos da região. No segundo, 69,4%, um crescimento de mais de 5 pontos. É praticamente idêntico ao resultado de 2022, 69,3%.
Em número de votos, foram quase 3 milhões de votos a mais. Na Bahia, que enfrentou uma redução no fluxo do transporte público no dia da votação, Lula teve 820 mil votos a mais. Em Pernambuco, foram mais de 560 mil votos novos. No Ceará, cerca de 480 mil.
Já Flávio inverteu a tendência de alta que ele e o pai vinham tendo no Nordeste. No primeiro turno, teve 30,85% dos votos válidos. No segundo, 30,63%. É um pouco menos que seu pai, em 2022.
Em número de votos, Flávio fez cerca de 400 mil votos a mais no Nordeste. No Maranhão, teve menos votos que no primeiro turno.