Do G1

A defesa de Dr. Jairinho (sem partido) disse que a carta na qual Monique Medeiros admite mentiras e relata agressões do vereador é uma “peça de ficção”. O documento tem 29 páginas e foi obtido pelo Fantástico.

“Sem falar sobre a tese da defesa, o que somente farei após a denúncia, posso adiantar que a carta da Monique é uma peça de ficção, que não encontra apoio algum nos elementos de prova carreados aos autos”, diz a nota encaminhada pelo advogado Braz Sant’Anna.

Relacionamento abusivo

Na carta, Monique Medeiros diz que viveu um relacionamento abusivo com o vereador.

Ela também diz que mentiu à polícia e conta sua versão sobre os episódios em que o menino foi agredido por Jairinho, segundo a investigação, e sobre o dia em que Henry foi assassinado.

Monique e Jairinho estão presos desde 8 de abril, um mês após a morte do garoto, por suspeita de homicídio duplamente qualificado –com emprego de tortura e sem chance de defesa para a vítima –, por atrapalhar as investigações e por ameaçar testemunhas para combinar versões.

No último dia 19, Monique Medeiros foi diagnosticada com Covid-19 no hospital penitenciário e foi colocada em isolamento.

VEJA PRINCIPAIS TRECHOS DA CARTA:

“Eu estou sofrendo muito. Não há um dia que eu não chore pela morte do meu filho”
“Não mereço estar sendo condenada por um crime que eu não cometi. Nunca acobertei maldade ou crueldade em relação ao Henry”
“Nunca encostei um dedo nele, nunca bati no meu filho, eu fui a melhor mãe que ele poderia ter tido”.
“Eu não sabia, mas estava sendo manipulada durante todo o tempo”
“Meus pais são pessoas boas (…) temo pela vida deles”
“Eu tentava a todo custo me afastar e me desvincular dele (Jairinho), mas fui diversas vezes ameaçada, e minha família também”.
“Jairinho começou me pedindo para apagar muitas fotos do meu Instagram”
“Depois ele começou a pedir que eu parasse de responder mensagens de amigos homens”
Depois ele começou a pedir que eu bloqueasse esses amigos”
“Ele (Jairinho) me ligava por dia pelo menos umas 20 vezes, colocou localizador no meu telefone e sempre pedia que eu mandasse foto”
“Jairinho começou a ter ciúme de eu ir na academia e até colocou gente para me seguir e tirar foto de mim malhando para saber com qual roupa eu estava indo treinar”
“Daí os ciúmes foram só piorando… e ele começou a ter muito do Leniel [ex-marido de Monique e pai de Henry]”
“Passei a ter crises de ansiedade com tantas cobranças e picos de pressão e ele começou a me receitar ansiolítico e remédio pra dormir (rivotril de 2mg e patz)
“Lembro de ser acordada no meio da madrugada, sendo enforcada enquanto eu dormia na cama ao lado do meu filho”
“Leniel disse que não queria que Jairinho desse abraços no Henry, porque ele tinha reclamado que o tio tinha dado um abraço muito forte e que tinha apertado ele demais”.
“Henry veio correndo até a cozinha uns 15 minutos depois que Jairinho chegou, dizendo que o tio tinha dado uma ‘banda’ nele e uma ‘moca’. Fui até a sala perguntar o que tinha acontecido e Jairinho disse que ele era um ‘bobalhão’, que segurou ele pelos braços brincando e passou a perna, mas que Henry nem caiu, pois ele estava segurando-o, aí Henry disse pra ele que ia contar pra mim e ele deu uma ‘moca’ brincando”.
“Comecei a notar que nas minhas taças de vinho, sempre havia um ‘pozinho’ branco no fundo (…) Um dia fui ao banheiro e quando voltei, peguei ele macerando um comprimido dentro da minha taça”.
“Quando fui sair ele tinha trancado as portas e escondido as chaves pra eu não sair. (…) Ele tomou meu celular da minha bolsa, me segurou bem forte pelos braços e me jogou no sofá, dizendo que eu não ia a lugar nenhum. Eu saí correndo para o quarto pra me trancar e ele veio correndo atrás, me pegou com mais força e me jogou na cama”.
“Ele deu uma joelhada na parede e começou a gritar dizendo que tinha sido eu (…) O médico perguntou a ele como ele tinha se machucado e ele mentiu, dizendo que tinha caído. Após esse dia, eu disse que iria embora, que ele era muito instável”.
“Falei que iria embora de novo, que não aguentava mais tanta humilhação e fui pegar minhas malas. Foi quando ele teve uma crise e começou a chutar minhas malas na sala, tomou minha bolsa e escondeu”.
“Corri para o quarto de hóspedes e me tranquei lá. (…) Ele começou a bater na porta, esmurrar a porta, gritar, xingar, até que ele arrombou a fechadura e conseguiu entrar no quarto e começou a gritar comigo, dizendo que só ia parar se eu tomasse remédio e fosse dormir no nosso quarto”
“Preciso prestar novo depoimento, pois fui orientada a mentir sobre a noite da morte do meu filho. Fui treinada por dias para contar uma versão mentirosa por me convencerem de que eu não teria como pagar por um advogado de defesa e que eu deveria proteger o Jairinho, já que ele se diz inocente”
“Só pude entender o relacionamento que eu estava vivendo quando fui presa e a maior perda e a maior pena que eu poderia ter em minha vida foi a morte o meu filho amado, Henry”.
“(Jairinho) ligou a televisão num canal qualquer, baixinho, ligou o ar condicionado, me deu 2 medicamentos que estava acostumado a me dar (…). Logo eu adormeci, acho que nem chegamos a conversar. De madrugada, ele me acordou, dizendo pra eu ir até o quarto, que ele pegou o Henry do chão, o colocou na cama e que meu filho estava respirando mal”.

Monique nega que tenha acobertado a morte do filho.

“Não mereço estar sendo condenada por um crime que eu não cometi. Nunca acobertei maldade ou crueldade em relação ao Henry”, escreveu ela.

Monique afirma que se divorciou de Leniel Borel, pai da criança, em meio às dificuldades vividas pela pandemia, em setembro passado. No mês seguinte, conheceu o novo namorado, que a teria ameaçado.

“Meus pais são pessoas boas (…) temo pela vida deles (…)

“Eu tentava a todo custo me afastar e me desvincular dele, (Jairinho) mas fui diversas vezes ameaçada, e minha família também”.

A relação, ela diz, foi abusiva. A pretexto de ser uma figura pública, o vereador pediu que ela apagasse fotos de rede social, que bloqueasse amigos homens e a seguia na academia de ginástica.

“Ele (Jairinho) me ligava por dia pelo menos umas 20 vezes, colocou localizador no meu telefone e sempre pedia que eu mandasse foto”, relata.

“Daí os ciúmes foram só piorando”, afirma.

Agressão a ela e a Henry

Monique diz que Henry relatou agressão de Jairinho, em carta — Foto: Reprodução

Monique diz que Henry relatou agressão de Jairinho, em carta — Foto: Reprodução

Monique diz que, em dezembro, dormiu com Henry na casa dos pais em um dia que Jairinho tinha saído com amigos. Nesse dia, ao desligar o celular, ela teria sido agredida pelo vereador.

“Lembro de ser acordada no meio da madrugada, sendo enforcada enquanto eu dormia na cama ao lado do meu filho. Quase sem ar, ele jogou o telefone em cima de mim, perguntando, me xingando e me ofendendo do porquê eu não estava atendendo ele e do porquê eu tinha respondido uma mensagem do Leniel (onde eu chamava ele de “Le” e ele me chamava de “Nique”.

A mãe de Henry Borel também admite que o filho relatou um episódio de agressão.

“Henry veio correndo até a cozinha uns 15 minutos depois que Jairinho chegou, dizendo que o tio tinha dado uma ‘banda’ nele e uma ‘moca'”.

Monique afirma que Jairinho tomava remédios para dormir e que ela começou a tomar também, influenciada pelo namorado.

Além disso, diz que ele colocava remédios em suas bebidas.

“Comecei a notar que nas minhas taças de vinho, sempre havia um ‘pozinho’ branco no fundo (…) Um dia fui ao banheiro e quando voltei, peguei ele macerando um comprimido dentro da minha taça”.

Uma troca de mensagens entre Monique Medeiros da Costa Silva de Almeida, mãe do menino Henry Borel, e Thayná de Oliveira Ferreira, babá da criança, descreve em tempo real a suposta sessão de tortura praticada pelo padrasto, o vereador Dr. Jairinho (afastado do Solidariedade), em 12 de fevereiro.

Segundo relatou a babá, o menino e o padrasto ficaram trancados por alguns minutos em um cômodo com o som da TV alto. Depois que saiu do quarto, a criança mostrou hematomas, contou que levou uma “banda” (uma rasteira) e chutes e reclamou de dores no joelho e na cabeça.

Na carta, Monique deu a seguinte versão:

“Ele (Jairinho) me explicou que chamou Henry pra ver o que ele tinha comprado e arrumar as malas, que colocou Henry em cima da cama, ligou no desenho, mas que Henry ficou assustado porque ele fechou a porta pra ir ao banheiro e Henry saiu correndo, escorregou da cama e bateu o joelho no chão. Que não tinha acontecido nada”.