Da ISTOÉ

Músicos criticam invasão da Ucrânia pela Rússia, classificando-a de vergonha para o país e questionando para que tantas vidas estão sendo perdidas. Após manifestação em show, cantor foi procurado pela polícia.Em 18 de maio último, a banda de rock russa DDT deu um show na arena lotada da cidade de Ufá, na Rússia. Quase 10 mil fãs estavam compareceram, após aguardarem ansiosamente pelo show: a DDT é uma lenda do rock russo, e seu cantor e compositor Yuri Shevchuk é uma das mais proeminentes estrelas do rock do país.

Shevchuk é particularmente popular em Ufá, onde cresceu e escreveu suas primeiras canções, e onde a DDT foi fundada em 1981, uma banda cujo som anunciava a era perestroika para muitos.

No meio do show, Shevchuk se dirigiu à plateia, dizendo: “Pessoas estão sendo mortas na Ucrânia, nossos meninos estão morrendo lá também. Para quê? Quais são os objetivos, meus amigos? Mais uma vez, os jovens estão sendo mortos − a juventude russa e a juventude da Ucrânia. Velhos, mulheres e crianças também estão morrendo. Para quê? Para alguns planos napoleônicos do próximo César? É isso?” Aplausos acompanharam sua fala.

Coragem de Shevchuk foi punida

“Mas a pátria não é a bunda do presidente que você tem que lamber e beijar o tempo todo”, continuou Shevchuk. “A pátria, para mim, é a pobre vovó da estação de trem que vende batatas. E agora vou cantar para vocês uma canção que está especialmente no meu coração: ‘O amor’.”

Shevchuk cantou seu sucesso de 1996, e o público aplaudiu. Nas redes sociais, foi publicado que se ouviram gritos de “guerra de merda!” Entretanto, vídeos correspondentes já não podem mais ser encontrados.

Após o show, Shevchuk foi procurado pela polícia e foi elaborado um boletim de ocorrência. A acusação provavelmente é a de “desacreditar as Forças Armadas da Rússia”. O caso deverá em breve ser levado ao tribunal de São Petersburgo, onde vive o músico. A agência de notícias estatal russa RIA Novosti, por exemplo, informou sobre o caso. O próprio Shevchuk apenas comentou de forma rápida o que havia acontecido: “Sim, eu devo ter tagarelado muito.”

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Rock russo contra a guerra

Yuri Shevchuk é um pacifista conhecido e reconhecido. Não atire! foi o nome de uma de suas primeiras canções, que ainda hoje é bem recebida pelos fãs. Ele a escreveu depois de uma conversa com retornados do Afeganistão com os quais havia estudado na escola.

Shevchuk permaneceu fiel à causa e protestou constantemente contra as numerosas guerras das décadas seguintes. Ele tocou, por exemplo, em um show em Belgrado com a DDT depois que a cidade foi bombardeada pelas tropas da Otan em 1999 e condenou as guerras da Rússia na Tchetchênia, que começaram em 1994.

Imediatamente após a invasão da Ucrânia pela Rússia, em 24 de fevereiro de 2022, o músico, visivelmente desapontado, disse em uma entrevista: “Nós da DDT temos cantado pela paz o tempo todo. Mas acho que isso não ajudou: você pode ver por si mesmo o que aconteceu. Estamos todos apenas tristes e em choque.”

Cantora Zemfira: Mariupol Calling

A voz de Yuri Shevchuk não é a única que ressoa da cena musical russa. A cantora Zemfira, a enigmática rainha do rock do país (que por acaso também é de Ufá), também se expressou claramente. The Meat (A Carne) é o nome de sua última canção, lançada como single em 19 de maio de 2022, na qual ela canta: “É primavera no calendário, e na realidade, trincheiras e foguetes” e “É meia-noite em Mariupol… Tenho sonhos de horror todas as noites. Aonde chegamos? Para que estamos aqui? Vou procurar a resposta para o resto da minha vida. Reze por mim, reze…”

No clipe da canção, que lembra London Calling (1979) da banda punk The Clash devido ao cenário de fim dos tempos evocado na letra, desenhos expressivos em preto, branco e vermelho refletem os horrores da guerra e lembram imagens da Ucrânia. Os desenhos poderiam ter sido feitos por Zemfira e sua companheira, a atriz Renata Litvinova.

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Zemfira está em Paris desde o início da guerra. Na mídia oficial russa, a cantora é acusada de traição e hipocrisia.

Boris Grebenshikov: “Vergonha para a Rússia”

“A guerra entre a Rússia e a Ucrânia é uma loucura, e aqueles que a desencadearam são uma vergonha para a Rússia”, diz sucintamente a mensagem em vídeo de Boris Grebenshikov. O carismático cantor do grupo Aquarium é indiscutivelmente o maior ídolo do rock russo, atravessando gerações.

Grebenshikov também não acha possível fazer shows na Rússia no momento. Ele vive em Londres e se apresenta para comunidades de língua russa na Europa Ocidental e em Israel.

“Quando vejo fotos de cidades ucranianas destruídas por russos, muitas vezes reconheço as salas de concerto onde eu costumava tocar”, disse o músico em uma entrevista à emissora israelense de língua russa Canal 9.

De uma perspectiva histórica, sua visão da situação na Rússia é pessimista: “Pense no imperador romano Calígula: quando os loucos estão no poder, o ambiente se adapta. As pessoas vendem sua consciência para agradar ao governante louco.”

A Rússia invadiu a Ucrânia de forma bárbara, horrível e indecente, acrescentou Grebenshikov. “Quando uma nação tenta destruir outra nação, isso é fascismo.” Palavras claras, mas pouco ouvidas na Rússia.