Publicado às 14h06 desta segunda-feira (28)

Neste dia 28 de julho, Dia do Orgulho LGBTQIA+ é uma data que representa luta, reflexão e coragem para comunidade que a partir de 1969 decidiu lutar contra uma série de represálias e conquistar respeito e igualdade. Diante da autoaceitação e da busca por reconhecimento e um futuro de sucesso, o Farol transmite parte da história de superação do fisioterapeuta trans Rafaello Fernandes de Lima, 36 anos, que trouxe representatividade para todo o movimento LGBTQIA+.

Rafaello é um homem trans natural de Cabrobó, porém mora em Serra Talhada há 7 anos. Ele é recém-formado em Fisioterapia pela Faculdade de Integração do Sertão (FIS). Antes era raro vermos uma pessoa da comunidade LGBTQIA+ ocupar cargos de destaque na sociedade. Segundo a Rede Nacional de Pessoas Trans do Brasil, 82% dos trans abandonam o Ensino Médio, porém Rafa contrariou essa trajetória e não só concluiu a educação básica como o curso superior e já atua como fisioterapeuta no seu município.

TRANSIÇÃO

Ele iniciou o processo de transição há pouco menos de 1 ano, quando ainda estava na faculdade. Em entrevista ao Farol, afirmou que a sociedade associa a pessoa trans apenas a mudança física, mas, na realidade, para ser uma pessoa trans, não necessariamente, precisa tomar hormônios e fazer cirurgias. Ser trans é uma identificação de gênero, como se identifica perante si mesmo e perante a sociedade. No entanto, Rafaello decidiu modificar seu corpo e explicou o porquê.

”Eu me identificava como homem trans, mas não tinha feito nenhum procedimento, nem nada do tipo, só agora, há menos de um ano, eu resolvi modificar minha imagem para poder me identificar melhor comigo mesmo. Durante a faculdade inteira, tive o gênero feminino associado porque até então, eu não tive coragem para enfrentar as burocracias que são impostas porque é muito difícil fazer a modificação do nome, mas graças a Deus eu tenho todos meus documentos modificados, inclusive na questão profissional. Foi fácil e, ao mesmo tempo, difícil porque é muito burocrático, a gente precisa enfrentar vários órgãos, do federal ao municipal para poder conseguir e não foi barato também. Graças a Deus eu tenho uma condição financeira que me permitiu isso, mas me ponho no lugar de outras pessoas que não tem nem um trabalho e não tem condições.”

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PRECONCEITO

Uma das lutas da comunidade LGBTQIA+ é contra o preconceito que muitas vezes é carregado de discurso de ódio. Durante sua transição e convívio em sociedade, Rafaello disse que não sofreu preconceito na Capital do Xaxado, tampouco na sua cidade natal e a aceitação da sua família também foi tranquila.

”Eu não enfrentei nenhum preconceito, pelo menos aqui em Serra, foi tranquilo, só lidei com o despreparo das pessoas. No cartório não sabiam como fazer, o que precisava para troca de nome porque é uma coisa tão atual que as pessoas ainda não conhecem os procedimentos. Na faculdade também, tanto é que eu sou a primeira pessoas trans autodeclarada que se formou na FIS, se teve outras pessoas trans não eram autodeclaradas como eu fui, mas também lá nunca tive nenhum preconceito. Quando me assumi trans perante todo o corpo docente da faculdade me respeitaram, nunca fizeram nenhuma objeção contra isso”, disse continuando:

”Na minha cidade também fui bem aceito, tive uma oportunidade de emprego logo quando me formei, me formei em dezembro e em fevereiro já estava trabalhando. A Secretária de Saúde de lá nem me conhecia, nunca tinha tido contato com ela, e quando eu contei minha história ela ficou sensibilizada e disse: ‘É interessante ter um profissional de saúde com sua representatividade porque é difícil uma pessoa trans assumida ocupar um cargo assim.’ Ela achou legal e me deu essa oportunidade e estou atuando lá no município”, comemorou Rafaello.

Após a transição, a aparência física dele mudou ao ponto dos pacientes, outras pessoas que não o conheciam, e até mesmo pessoas que conheciam, mas que tinham pouco convívio não perceberem que ele é um homem trans. A maioria dos seus pacientes não sabem que o fisioterapeuta é trans, para ele isso não é um problema porque não ver a necessidade de expor, entretanto, disse que se perguntarem ele até faz questão de se autodeclarar para  trazer representatividade à categoria.

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Apesar de Rafaello não sofrer preconceito, sabemos o quanto ainda se faz presente na sociedade, inclusive é perceptível nas redes sociais e na mídia em geral. Durante a entrevista, ele mencionou que observa os comentários preconceituosos e violentos de alguns leitores do Farol em matérias que tratam do assunto e isso pode gerar medo na comunidade LGBTQIA+, contudo ele afirma que não devem calar.

”Toda vez que o Farol publica uma matéria relacionada a comunidade LGBT, meu Deus, é um absurdo a chuva de comentários de ódio, não de piadinha e de brincadeira não, é ódio. ‘Tem que matar, têm que morrer.’ Por isso, muitas pessoas perguntam se a gente não tem medo que se depois da matéria me reconheçam e vão cometer alguma violência física ou coisa do tipo. Mas, se a gente for ter medo nunca vamos conseguir espaço, o movimento é o que é hoje, graças as pessoas trans, as travestis que tiveram coragem de irem para as ruas e dizerem sou mesmo. Quanto mais a gente busca espaço na sociedade mais as pessoas entendem que elas precisam respeitarem a gente.”

APOIO DA FAMÍLIA

Conversar com a família e se autodeclarar trans ou qualquer outra identificação de gênero, que fuja do que a sociedade dita como ”padrão”, nem sempre é uma tarefa fácil e com Rafaello provavelmente não foi, no entanto, ele revelou ao Farol que não foi rejeitado e que foi bem aceito. Segundo ele, o contexto da novela A Força do Querer ajudou na situação e a partir das mudanças físicas e de questionamentos da sua avó decidiu conversar.

”A descoberta da minha família foi uma questão até interessante. Estava reprisando a novela A Força do Querer que tinha um personagem trans, Ivana que se tornou Ivan justamente na época que assumi para minha família. Minha avó ficou olhando para mim e disse: ‘Tu está tomando hormônio?’ e perguntei: como a senhora sabe? E ela disse: ‘Eu vi na novela. Tu vai fazer isso mesmo? Vai mudar de nome? Até então eu não tinha chegado para conversar, mas quando as mudanças físicas começaram a aparecer mesmo eu tinha que conversar e me assumir para eles. Não fui rejeitado, não tive nenhum problema, a família me aceitou bem. Minha avó ficou com mais dificuldades perguntando: ‘E agora, eu faço como? Como é que vou chamar? Não sei se me acostumo?’ Às vezes troca o nome, às vezes erra, mas para mim não é problema porque não é porque não me aceita é por costume mesmo. São 35 anos chamando por um nome e de repente ter que mudar para outro nome. Algumas pessoas mais próximas me chamavam de Rafa e continuam chamando sem problema.”

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GRUPO DE APOIO

Durante o processo de atualização da documentação, Rafaello passou por vários procedimentos burocráticos e percebeu ainda mais o quanto a comunidade LGBTQIA + precisa de apoio e informações, por isso criou um grupo no WhatsApp só de pessoas trans justamente para trazer essas informações e apoiá-los. As inclusões de pessoas nesse grupo são feitas através de contatos, para saber mais converse com ele pelo Instagram @rafaello.fisio.

”O Farol divulgou umas duas matérias, uma foi sobre uma mulher trans que teve um problema numa farmácia e através dessa matéria, eu fui atrás dela. Na matéria dos dois rapazes, eu vi nos comentários que tinha outra pessoa trans e fui atrás também, então a gente vai se conhecendo porque aqui não existe um movimento consolidado de diversidade. Antigamente tinha o Movimento Diverso, mas se dispersou e hoje não temos apoio, não temos uma referência de movimento aqui em Serra para poder buscar informação e apoio”, disse continuando:

”Recentemente, eu tive contato com uma pessoa da saúde que dizem que é a referência para a comunidade LGBT de Serra, mas é uma referência que não é referência, a gente fica meio perdido quando vai buscar. Essa mulher trans que o Farol publicou a matéria, ela não sabia o que fazer, teve que ir para a mídia, expor a situação dela, se constranger de alguma forma, para poder buscar o apoio necessário. A gente não tem esse apoio, apesar no município declarar essa sensibilidade com a causa até então não trouxeram nada para a gente.”