Fotos: Farol de Notícias / Licca Lima

Publicado às 15h desta segunda-feira (20)

A exuberância de um Akoko, que teima em tocar o céu, adorna a entrada do ‘barracão’ de Mãe Neta, no bairro Mutirão em Serra Talhada. O Akoko é uma árvore poderosa e resistente típica da África Ocidental.

Nada melhor para colorir a entrada de um dos terreiros mais antigos da Capital do Xaxado, com quase 40 anos de história, tradição e fé.

Lá dentro pretos velhos e caboclos nos dão boas-vindas. Mão Neta nos mostra um lugar para sentar e como uma legítima filha de Iansã nos oferece gentilmente a brisa de um ventilador para suportarmos mais uma tarde escaldante do Sertão.

Mãe Neta é registrada como Edinete Santana da Silva, natural de Calumbi-PE. Líder religiosa respeitada, ela vem de uma família de seis irmãos e aos 11 anos de idade se iniciou na jurema sagrada. Ela explica que a vocação para a religião vem de berço, como uma herança ancestral.

Há 40 anos, Mãe Neta vem acolhendo afilhados que precisam de direcionamento em seu terreiro. O olhar sereno e o rosto firme anunciam uma valentia decidida que segue atravessando as dificuldades terrenas e espirituais. “A raiz [da Jurema] é pesada’’, assevera ela.

E como alguém que reconhece sua história e a ancestralidade que pulsa em suas veias, Mãe Neta afirma que o racismo e a intolerância não fazem parte da sua rotina, pois “o que vale dentro da Jurema Sagrada é o respeito”.

Sua pele escura com marcas de proteção dos orixás, feitas no ritual de tombamento, irradia uma coragem tranquila de quem não desmorona diante da intolerância religiosa imposta aos cultos das religiões de matrizes africanas.

“Você vai entrar com saúde para aprender a fazer o bem para as pessoas. Eu não tenho [condições], mas Jesus vai me ajudar. Eu tenho esse objetivo de trabalhar para fazer o bem”, explicou Mãe Neta.

Ela conta sobre banhos para afastar energias negativas, ervas sagradas, rituais e um susto que deu em um pastor evangélico, certa vez, que tentava convertê-la.

Para confrontar o preconceito de grupos religiosos, Mãe Neta se vale de boas energias das entidades e das giras, que são toques e cânticos.

No terreiro, os atabaques descansam no fundo da sala trazendo uma atmosfera ancestral ao barracão. Mãe Neta mostra com carinho alguns objetos dos erês, dos exus e pomba-giras.

Com mais de 120 afilhados em Serra Talhada, Calumbi e Mirandiba, Mãe Neta segue firme na batalha em defesa da liberdade de culto e sob a luz divina, segue com fibra de luta dos seus ancestrais estampados em seu sorriso e na cor de sua história.

Akoko, árvore ancestral da África, marca o poder do terreiro de Mãe Neta