'Moonage Daydream', estreia documentário sobre David BowieDa Folha de PE

“Para mim sempre foi uma busca. Via de regra, acho que a questão é sempre a mesma que ronda quase todo artista: qual a minha relação com o universo? Acho que é uma pergunta essencial que todos nós fazemos. Muitos de nós, provavelmente, nos minutos finais”, questiona David Bowie em uma das aparições no impactante “Moonage Daydream”, documentário de Brett Morgen (“The Kid Stays in the Picture, Kurt Cobain: Montage of Heck, Jane”), que estreia, nesta quinta-feira (15), nos cinemas brasileiros.

Produção autorizada

Com projeto iniciado em 2017, este foi o primeiro filme apoiado pelo David Bowie Estate, que concedeu a Morgen acesso irrestrito à sua coleção de mais de 5 milhões de ativos de propriedade do artista, entre desenhos, gravações, filmes e diários raros e nunca vistos. O filme levou quatro anos para ser montado – 18 meses apenas para o projeto da paisagem sonora, animações e paleta de cores.

O resultado é uma narrativa fantástica, ancorada em imagens de arquivo pessoal e performances, com enredo narrado pelas canções e voz do próprio David Bowie, o que traz ainda mais impacto ao filme, por ser uma obra póstuma. Entrevistas raras, imagens inéditas de shows, clipes, filmes e até uma atuação para teatro podem ser apreciadas, demonstrando seu perfil “generalista”, como ele mesmo se definia.

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Uma jornada existencial

O tempo, a busca por sentido, a libertação sexual, o questionamento dos padrões estéticos e o universo provocativo e inquieto de Bowie estão sempre presentes no documentário. No início, o público é convidado a embarcar em uma viagem espacial com destino ao multiverso caótico do artista.

Nesse sentido, o som e as interferências visuais reproduzem bem sua idiossincrasia e garantem um ótimo ritmo ao longa-metragem. Ao longo do filme, é possível acompanhar a evolução do artista pelas décadas e suas transformações nas diversas turnês e discos gravados, além de conhecer as suas incursões em outros gêneros artísticos como a escultura, a pintura, o teatro e a cinematografia.

Revolução de comportamento

A partir de depoimentos de fãs e entrevistas na década de 1970, o diretor consegue mostrar o quanto Bowie revolucionou os costumes não apenas no Reino Unido, mas em todo o planeta. Suas atitudes marcadas por performances com roupas coloridas e maquiagens extravagantes quebraram preconceitos e tabus sexuais. Nessa época, o artista criou o personagem andrógino Zyggy Stardust, que foi além do que ele mesmo pretendia. “Zyggy, para mim, era uma coisa muito simplista. Era para ser um astro de rock alienígena. Mas outras pessoas fizeram uma releitura dele”, conta Bowie.

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Bowie revela que buscou inspiração nos artifícios do Teatro Kabuki, do Japão, e na música alternativa de Nova York. Sempre questionador, ele mesmo se desmascara em certo trecho do filme. “O artista não existe. O artista é apenas uma invenção na imaginação das pessoas. O Dylan é. O Lennon é. Eu serei. O Jagger é. Eles não existem, nenhum deles. Nenhum de nós existe. Estamos além da imaginação. Somos os falsos profetas originais, somos os deuses”.

Traumas, isolamento e busca
Além da obra, o filme aborda a relação traumática do artista com os pais, sobretudo com sua mãe, Margaret Mary Jones, além da grande influência do seu irmão mais velho, Terry Burns, que viria a sofrer de esquizofrenia depois de servir às Forças Armadas. Foi ele que o apresentou à cultura fora da caixinha de Brixton, bairro do sul de Londres onde nasceu, em 8 de janeiro de 1947, ainda como David Robert Jones. Após uma vida “fugindo do amor romântico”, o documentário mostra, enfim, seu casamento com a modelo somali-americana Iman Mohamed Abdulmajid, em 1992.

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Outra passagem marcante foram as constantes mudanças de endereço. Para aprimorar seu processo de composição, ele gostava de viver em lugares que considerava inóspitos, seja o deserto de Los Angeles ou a então Berlin ocidental. Há, ainda, imagens de sua incursão no Japão e países do oriente, antes do seu retorno triunfal, nos anos 80, na turnê em que retomaria o contato com o grande público. Moonage Daydream é, portanto, uma obra definitiva sobre David Bowie e faz juz ao legado deixado por esse gigantesco artista, desde seu primeiro álbum homônimo, de 1967, até o seu 25º disco, “Black Star”, a despedida deste planeta, lançado dois dias antes de falecer.