O fracasso do Neoliberalismo e as mudanças nas mãos do povo
Foto: The White House/Divulgação

Por José Gomes de Lima Júnior, estudante do 10º período de Direito da Unifis

Byung-Chul Han, Foucault, Bauman, Hobsbawm e tantos outros analisaram a crescente perversidade do neoliberalismo. Ao longo de suas obras – sejam elas filosóficas, sociológicas, políticas ou históricas —, esses autores se empenharam em construir uma crítica contundente ao modelo econômico dominante, evidenciando suas contradições, seus limites e seus efeitos nocivos sobre as sociedades. Entretanto, após décadas de ascensão e consolidação, o mundo parece começar a se levantar para manifestar ativamente aquilo que soa como um libertador grito de “basta”.

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As últimas semanas foram marcadas por fortes manifestações mundo afora. França, Itália, Albânia, Argentina… o mundo parece presenciar um levante popular de proporções históricas, cujos contornos ainda estão sendo delineados neste século. Nesse contexto, parte significativa das reivindicações parece convergir para uma questão central: o aumento do custo de vida, problema que sufoca cada vez mais as gerações mais jovens. Diante desse cenário, tais mobilizações podem representar o ponto de partida para algumas das mais significativas rupturas políticas e sociais dos últimos anos, tendo a geração Z como uma de suas principais protagonistas.

Neste sentido, as manifestações nos levam a questionar o quanto o sistema neoliberal falhou no Ocidente, principalmente diante da aparente estabilidade de lugares como a China e os países nórdicos, que apresentam, embora de maneiras distintas, uma forte atuação estatal na economia e mecanismos de proteção econômica e bem-estar social.

Sendo assim, numa perspectiva histórica, Eric Hobsbawm, um dos principais historiadores contemporâneos, analisou o fim da URSS e as transformações que marcaram o final do século XX, período também caracterizado pela expansão do modelo neoliberal. Nesse prisma, o autor expôs as contradições do domínio empresarial e da lógica de mercado, aspectos que se relacionam com o que autores como Byung-Chul Han posteriormente analisaram como a expansão dessa racionalidade para a vida privada.

A crítica também se estende com Foucault, Bauman e outros autores, cujas obras abordam as consequências de um capitalismo neoliberal que se perpetua nas diferentes esferas da vida social. Nesse contexto, a consolidação desse modelo transformou o mundo em um amplo espaço para o desenvolvimento de mecanismos de governamentalidade – conceito trabalhado por Foucault —, que passam a influenciar os mais diversos aspectos da vida cotidiana. Essa lógica se manifesta na tendência de gerir a própria vida e as relações sociais como se fossem ativos de mercado, submetendo os indivíduos a exigências e pressões por eficiência e produtividade, o que pode contribuir para um processo de desumanização.

Neste caminho, esse sistema desvalorizou e desumanizou as relações humanas, afetando os aspectos sociais do cotidiano das sociedades. Nesse processo, o neoliberalismo passou a favorecer os detentores do capital, ampliando as desigualdades sociais e reduzindo cada vez mais os recursos disponíveis para as parcelas mais vulneráveis da população. Essas questões ajudam a explicar a indignação dos movimentos protagonizados por jovens ao redor do mundo, cujas reivindicações vão desde melhorias nos direitos sociais até a possibilidade de uma ruptura histórica na ordem contemporânea.

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Diante dessa efervescência, o protagonismo de uma transição que ultrapasse o sistema neoliberal torna-se um aspecto fundamental para o futuro global. Em um mundo cada vez mais atento à ascensão de movimentos neonazistas e de extrema direita, é inevitável preocupar-se com a possível apropriação dessas mobilizações por tais grupos. A ilusão antissistêmica construída pela extrema direita ao redor do mundo provoca, entre aqueles que reconhecem seu potencial nocivo, um temor significativo diante da possibilidade de apropriação de conceitos, ideias e movimentos por essas forças políticas.

Nesse sentido, a urgência de o próprio povo assumir o protagonismo das ondas de mudança é gritante. Ademais, essa preocupação não passa necessariamente pela necessidade de uma revolução nos moldes socialistas, mas pela retomada, por parte da população, da luta por seus direitos e pela contenção dos excessos do capitalismo. Vale ainda ressaltar o contexto climático catastrófico, cada vez mais agravado por um modelo de desenvolvimento pautado na exploração excessiva dos recursos naturais.

Por fim, a constatação de um possível colapso do modelo neoliberal não significa necessariamente o esvaziamento de sua fórmula, mas pode representar uma percepção popular de sua desumanização e de seus efeitos nocivos sobre o conjunto da sociedade. Vivemos um momento de possíveis rupturas, mas vale ressaltar que as manifestações que nos dão esperança de mudança também são cercadas pela ameaça de apropriação por movimentos neonazistas e pela força de governos de extrema direita. Portanto, talvez estejamos vivendo um momento decisivo, no qual a tomada de protagonismo pelo povo possa significar uma revolução, enquanto sua entrega às mãos erradas pode aprofundar ainda mais o colapso social.