
Por Maria Robb, Socióloga e Professora Universitária residente em Londres
O debate presidencial da Band, em 18 de outubro, deveria ser uma oportunidade para discutir propostas e o futuro do Brasil. Em vários momentos, porém, o confronto de ideias cedeu espaço à provocação, ao deboche e à demonstração de agressividade.
Os gestos e as movimentações de Flávio Bolsonaro atrás de Lula transformaram parte do debate em espetáculo. A democracia exige divergência e firmeza, mas também respeito ao eleitor e compromisso com a discussão de ideias.
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Além das provocações, perguntas importantes ficaram sem respostas claras.
O que aconteceu com os R$ 134 milhões que Lula questionou Flávio Bolsonaro sobre ter pedido a Daniel Vorcaro para financiar o filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro? Flávio afirmou que o dinheiro se destinava à produção, mas a questão não foi esclarecida no debate nos termos cobrados pelo adversário.
Lula também perguntou como Flávio comprou uma mansão avaliada em R$ 10 milhões, segundo o valor mencionado no debate, e como conseguiu quitar o financiamento. De onde vieram os recursos? Como essa aquisição e a quitação da dívida se compatibilizam com o patrimônio e os rendimentos declarados pelo senador? Flávio não respondeu às perguntas. Elas ficaram sem esclarecimento diante dos telespectadores.
Outro questionamento envolveu Ana Clara, uma menina de cinco anos morta por disparos durante uma ação policial em Niterói, em 2021. Flávio integrou a defesa do policial acusado e assinou um recurso contra a decisão de levá-lo a júri popular.
Por que um candidato à Presidência assumiu a defesa de um policial acusado de matar uma criança de cinco anos e atuou para contestar sua ida a júri popular? Flávio alegou estar exercendo a advocacia e ressaltou que não havia julgamento definitivo. Ainda assim, a questão política levantada por Lula merecia uma explicação mais ampla.
Lula também propôs a abertura dos sigilos bancários e telefônicos. Flávio afirmou não ter nada a esconder, mas não assumiu expressamente o compromisso nos termos propostos. Se não tinha nada a esconder, por que não confirmou que aceitaria o desafio?
Na saúde, Flávio prometeu estabelecer um padrão de excelência no SUS, tomando como referência o Hospital Israelita Albert Einstein. Como essa transformação seria financiada? Quais seriam as medidas, os prazos e os recursos necessários? Essas perguntas exigem um plano concreto, não apenas uma promessa grandiosa.
É justamente por envolver a capacidade do Estado de planejar, agir e proteger vidas que a experiência de governo nessa área precisa ser examinada. A crise de Manaus, em janeiro de 2021, durante o governo de Jair Bolsonaro, pai do candidato, mostrou as consequências de uma resposta insuficiente a uma emergência sanitária. Hospitais ficaram sem oxigênio, pacientes morreram e famílias enfrentaram o desespero, apesar dos alertas sobre a gravidade da situação.
Quem promete transformar a saúde pública precisa explicar como pretende fazê-lo e demonstrar que aprendeu com os erros do passado. O SUS precisa de planejamento, estrutura, profissionais e respostas eficazes quando vidas estão em risco.
O eleitor merece propostas verificáveis e respostas objetivas. Um debate presidencial deve permitir avaliar não apenas o que os candidatos prometem, mas como pretendem governar.
Governar não é encenar poder. É saber exercê-lo com responsabilidade.