*Por Daniella Almeida, jornalista e pós-graduada em Gestão e produção em jornalismo pela PUC-Campinas almeidajornalismo@gmail.com

Na manhã do dia 9 de setembro, Vanete Almeida, uma grande líder das trabalhadoras rurais pernambucanas, faleceu vítima de um câncer no Hospital Albert Sabin, em Recife. Com certeza mais uma grande perda para o movimento sindical rural e um momento para aqueles que continuam sua luta reavaliarem como o exemplo dela poderá ser continuado.

Sabe-se que por falta de recursos, a Rede de Mulheres Rurais da América Latina e do Caribe (Rede LAC), da qual ela com tanto esforço idealizou e conseguiu consolidar com tão poucos recursos, cuja sede funcionava no Centro do Recife, foi fechada há algum tempo. Esta rede integra mais de 25 mil mulheres espalhadas em 23 países que trocam suas experiências, compartilham vitórias e lutam por mais automia em suas difíceis vidas no campo. Lamentável é dizer que um projeto tão grandioso como este, encerrou suas atividades no Brasil por falta de recursos financeiros. Junto com Euclides Nascimento, outra grande referência da luta agrária pernambucana que faleceu no final do ano passado, Vanete enfrentou várias questões, principalmente pela inserção feminina no meio sindical quando iniciou o processo de organização de mulheres no Sertão de Pernambuco.

A luta de Vanete foi inpiração para várias ações e está descrita inclusive, no livro “Ser Mulher num Mundo de Homens”, de Cornélia Parisius (Ed. SACTED/DED).Vanete foi assessora da Federação dos trabalhadores na Agricultura do Estado de Pernambuco (FETAPE), presidiu o Centro de Educação Comunitária Rural, no município de Serra Talhada (PE), integrou o Conselho Nacional de Políticas para Mulheres, de 1996 a 2003 e, em 2005, foi indicada pela ONG suíça Mulheres pela Paz ao Redor do Mundo, ao Prêmio Nobel. Em 2002 ganhou um conceituado prêmio pomovido pela revista Cláudia e em 2009, ganhou o Prêmio Trip Transformadores por sua atuação pelo próximo.

Quem conheceu Vanete Almeida, sabe muito bem que suas ações foram muito além dos prêmios que recebeu. Simplicidade e verdade era o lema de Vanete em tudo que fazia e foram estes valores que a fizeram chegar tão longe e torná-la uma verdadeira líder das mulheres rurais. Diante da perda, fica a pergunta: será que os próximos líderes serão capazes de compreender e lutar com tanta veemência em nome do próximo? Ou será em nome da demagogia que os ‘feitos’ poderão representar? É triste constatar que pessoas tão inspiradoras estão nos deixando. Mais triste ainda é perceber que poucos se importam em continuar trabalhos tão importantes como os que Vanete iniciou.

Só resta torcer para que, aqueles que se dizem lutar pelo trabalhador e trabalhadora rural, coloquem a mão na consciência coletiva. O que é o topo quando falamos de coletividade no campo? Reforma agrária. Enquanto isso não sair do discurso, a utopia continua e os sindicatos continuarão em defasagem, perdendo cada vez mais seus líderes sem outros para continuar a quebrar paradigmas, assim como Vanete quebrou quando mostrou às trabalhadoras que elas tinham voz e poderiam fazer suas próprias histórias, serem independentes e vencer o machismo. Que a voz interna de cada mulher, trabalhadora rural ou não, possa ter uma força chamada Vanete Almeida que as movam sempre para lutar por aquilo que as oprimem. Parte uma líder e fica sua história de vida como exemplo para as próximas gerações.