Do g1 Mundo

Países da OTAN e da UE armam a Ucrânia em operação arriscadaQuatro dias após a Rússia invadir a Ucrânia, Josep Borrell, o chanceler da União Europeia, anunciava a queda do que chamou de mais um tabu do bloco: a aprovação, pela primeira vez desde a sua criação, de um pacote de € 500 milhões para fornecer armas a um terceiro país. A Casa Branca, por sua vez, destinou mais US$ 350 milhões em assistência militar para ajudar a Ucrânia a deter a ofensiva de Vladimir Putin.

A ação se traduz basicamente no envio de sistemas de defesa aérea, armas antitanque, munições e outros equipamentos militares para as forças armadas da Ucrânia. No caso da UE, trata-se de um movimento sem precedente: o bloco deixa para trás a tradição pacifista iniciada na sua fundação, imbuído pela realidade desproporcional entre as forças armadas ucranianas e as russas.

O empenho de 20 países da OTAN e da UE em dar respaldo militar ao presidente Volodymyr Zelensky impõe riscos. Primeiro, o de responder a desafios logísticos no que se refere às rotas e ao tempo ágil para que equipamentos e armas cheguem a seu destino – especificamente a Kiev e Kharkiv – enquanto o país está sob ataque.

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Segundo, o de desatar uma reação ainda mais feroz da Rússia, a julgar pela reação do porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov: “Armar a Ucrânia foi um fator extremamente perigoso e desestabilizador.” Outras ameaças específicas aos comboios europeus que no país entrarem com armas foram proferidas do lado russo.

A operação para levar armas ao território ucraniano é complexa e cercada de sigilo, coordenada pelo Fundo Europeu para a Paz. Por enquanto, o material está concentrado na Polônia, já que, temendo represálias da Rússia, a Hungria não permitiu o trânsito de armas por seu território.

O próprio Borrell sugeriu que a UE poderia, inclusive, fornecer caças para a Ucrânia, mas acabou por retroceder e admitir que o bloco não tem meios para entregar os aviões a Kiev. Citados num tuíte do Parlamento ucraniano como doadores de 70 aviões de combate, os governos de Polônia, Eslováquia e Bulgária negaram.

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A mobilização internacional para armar a Ucrânia vem ganhando adesões importantes. A Alemanha abandonou a política de não mandar armas para regiões de conflito. O chanceler Olaf Scholz aprovou o fornecimento de mil mísseis antitanque e 500 mísseis terra-ar Stinger dos estoques do Exército e autorizou a Holanda a mandar 400 lançadores de granadas antitanque de fabricação alemã.

A Noruega rompeu com a tradição iniciada desde a década de 1950, de não enviar armas a países que não integram a OTAN e estejam enfrentando conflitos armados: doará 2.000 armas antitanque para a Ucrânia. Nações neutras como Suécia e Finlândia se movimentam na mesma direção.

Até o governo espanhol acabou por decidir pelo envio de material de combate, após enfrentar uma cisão interna entre os partidos que formam a sua coalizão. “A Ucrânia tem o status de um país atacado, está lutando de forma desigual”, justificou o premiê Pedro Sánchez.

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Embora justa e necessária, a decisão de armar a resistência ucraniana levanta temores baseados num passado recente. Como avaliou Niamh Ni Bhriain, coordenadora de Guerra e Pacificação do Instituto Transnacional, a história tem mostrado que despejar armas letais em situações de conflito não traz estabilidade e não contribui necessariamente para uma resistência efetiva.

Num artigo publicado pela ONG Open Democracy, ela analisa a realidade ucraniana, onde cidadãos são recrutados para lutar contra o inimigo usando todos os meios disponíveis e o lado adversário põe suas forças nucleares em alerta máximo. “Nos próximos anos, ainda que sob vigilância da Europa, essas armas mudarão de mãos várias vezes, alimentando mais conflitos”, prevê.

Dois exemplos atestam sua tese: o armamento enviado pelos EUA ao Iraque, que acabou em poder de combatentes do Estado Islâmico, e todo o equipamento apreendido pelo Talibã em agosto passado, após a desastrosa retirada americana do Afeganistão.