Poeta Antônio Vital, um serra-talhadense muito além do seu tempo

Por Paulo César Gomes, professor, pesquisador, historiador, escritor, colunista do Farol e apresentador da TV Farol 

A coluna Viagem ao Passado deste domingo presta homenagem à memória de Antônio Vital Cavalcante Menezes, jovem poeta serra-talhadense cuja vida breve foi marcada pela inteligência, sensibilidade e pela força silenciosa da palavra escrita. Filho do farmacêutico e advogado rábula Olímpio Menezes Leal e de Dona Daura Cavalcante Menezes, Antônio Vital cresceu em um ambiente de rigor moral, disciplina intelectual e profundo apreço pela leitura.

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O retrato que ilustra esta edição — cedido pela família — registra Antônio Vital ainda menino, no dia de sua Primeira Comunhão, imagem que antecede a formação de um espírito inquieto, introspectivo e precoce, que mais tarde encontraria na poesia e na crônica uma forma própria de expressão.

Quem nos ajuda a compreender a dimensão humana e literária de Antônio Vital é o amigo de juventude, poeta e escritor Francisco Leite Francineto, membro efetivo da Academia Serra-talhadense de Letras (ASL). Em seus textos memorialísticos, Francineto descreve Antônio como um jovem singular, avesso a modismos e distante das convenções sociais comuns à sua geração.

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Segundo Francineto, nos anos 1960, período de efervescência ideológica e política no Brasil, Antônio Vital observava tudo com olhar crítico. Embora demonstrasse indignação diante dos abusos do regime militar, não se alinhava a grupos ou doutrinas, preferindo o sarcasmo fino e a ironia elegante em suas crônicas. Política, futebol ou religião raramente eram temas de conversa; quando surgiam, vinham filtrados pela escrita — seu verdadeiro território.

Dotado de inteligência múltipla, Antônio transitava com facilidade entre a literatura, a matemática, a tecnologia e até a eletrônica, habilidade que lhe rendeu, para alguns, a alcunha injusta de “louco”, quando, na verdade, tratava-se apenas de alguém à frente de seu tempo. Era leitor voraz, ajudava estudantes com dificuldades em matemática e mantinha uma postura exigente na escolha de amizades, o que o tornou um homem de poucos amigos, mas de vínculos profundos.

Seu maior sonho era tornar-se médico cardiologista, inspirado por um primo que exercia a profissão no Rio de Janeiro. No entanto, um episódio ocorrido no Colégio Municipal Cônego Torres — um conflito com um professor de francês por conta de uma nota que Antônio considerava injusta — resultou em seu afastamento da escola ainda no antigo 3º ano ginasial. O sonho da medicina foi interrompido, mas a literatura permaneceu.

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Antônio Vital passou a investir com ainda mais intensidade na poesia e na crônica. Participou do programa “Salão Grenat – Tangos e Poesias”, apresentado por Collid Filho, na Rádio Tupi do Rio de Janeiro, tendo seus poemas declamados em cadeia nacional e gravados em LPs. Textos como “A Despedida” e “Dalila” revelam um poeta lírico, melancólico e rigoroso, atento às dores do amor, da ausência e das contradições humanas.

Apesar de sua produção literária e reconhecimento em círculos culturais, Antônio Vital enfrentou, segundo familiares, um período de profundo recolhimento emocional. À época, termos como depressão ainda não faziam parte do vocabulário comum, mas hoje é possível compreender que sua perda de apetite, isolamento e silêncio eram sinais de um sofrimento psíquico não nomeado. Antônio Vital faleceu ainda muito jovem, em agosto de 1975, vítima de problemas intestinais, encerrando precocemente uma trajetória intelectual promissora.

Ao resgatar a vida e a obra de Antônio Vital, a Academia Serra-talhadense de Letras cumpre um papel fundamental de preservação da memória cultural da cidade. Mais do que recordar um poeta, esta coluna reafirma a importância de ouvir aqueles que falaram pouco em vida, mas disseram muito por meio da palavra escrita.

Antônio Vital permanece como símbolo de uma geração sensível, crítica e silenciosa, cuja obra — ainda que fragmentada — resiste ao tempo como testemunho de talento e humanidade.

A foto abaixo é da residência onde viveu Antônio Vital e família, na Praça Sérgio Magalhães.