Do G1 Mundo

Foto: Reprodução/Redes Sociais

O tráfico de influência no processo de vacinação já derrubou os ministros da Saúde no Peru e na Argentina. Os dois países enfrentam irregularidades semelhantes: ex-presidentes, políticos, altos funcionários do governo e celebridades, fora dos grupos prioritários, furaram a fila e foram vacinados antecipadamente com a conivência do governo.

Se os escândalos refletem a corrupção e a impunidade tão corriqueiras no continente, os envolvidos na imunização paralela e antiética não escaparam da exposição pública e do julgamento moral. Seus nomes aparecem em listas que se ampliam, difundidas na imprensa e referidas como “Vacinagate” e “Vacinação Vip”, espelham vergonha e indignação popular.

Na Argentina, onde dois milhões foram infectados pela Covid-19 e mais de 51 mil morreram, estima-se que três mil doses foram aplicadas a privilegiados. O escândalo veio à tona na sexta-feira, quando o jornalista Horácio Verbitsky, de 79 anos, que dirige o Centro de Estudos Legais e Sociais, revelou em um programa de rádio ter recebido uma dose da Sputnik V no Ministério da Saúde, graças à sua amizade com o ministro Ginés González Garcia.

O plano do governo argentino ainda vacina idosos com mais de 80 anos. Mas, sob a senha “Falem com o Ginés”, o ministro propiciou a imunização de membros do gabinete, funcionários públicos, deputados, senadores e personalidades ligadas ao Executivo. Sem saída, à medida que a lista aumentava, o presidente Alberto Fernández pediu a cabeça do ministro e nomeou para o cargo Carla Vizotti, que também teria sido imunizada fora do prazo.

Quem furou a fila tratou de incluir parentes. O atual presidente da Câmara dos Deputados, Sergio Massa, conseguiu que o pai e os sogros fossem vacinados em janeiro. O sindicalista Hugo Moyano foi imunizado com a mulher e o filho de 20 anos. A ala jovem dos apadrinhados engloba ainda o diretor geral de Audiências Presidenciais, Nicolás Ritacco, de 27 anos, e o fotógrafo do presidente, Esteban Collazo, de 34.

Enquanto o escândalo é investigado pelo Ministério Público, a ministra da Saúde recém-empossada tenta agora moralizar o plano de imunização com a compra de 20 milhões de cartões que servirão para comprovar quem foi vacinado.

No Peru, a farra das vacinas ocorreu no ano passado, beneficiando pelo menos 467 influentes, que tiveram acesso ao imunizante da Sinopharm durante a fase III dos testes realizados na prestigiada Universidade Peruana Cayetano Heredia. Um lote especial foi separado para estes “voluntários”, entre eles o ex-presidente Martin Vizcarra, integrantes do atual governo de Francisco Sagasti e seus familiares, meses antes de o plano oficial entrar em ação.

A ministra da Saúde, Pilar Mazzetti, caiu, classificando a decisão de se vacinar como o maior erro de sua vida. Está sendo investigada. Seu sucessor é o sexto a ocupar o cargo no último ano na crise sanitária que acumula 45 mil mortos e registra uma das taxas de mortalidade mais altas da pandemia do novo coronavírus.

O escândalo abala o país a dois meses das eleições presidenciais e legislativas. Numa tentativa de tapar o sol com a peneira e dar transparência ao processo, o Congresso peruano aprovou uma moção para realizar testes de anticorpos em todos os legisladores com o objetivo detectar quem foi vacinado antes do tempo.

Como contestou o neurobiologista Edward Málaga-Trilo, a iniciativa é um “absurdo populista e não funcionará”. A caça aos anticorpos está longe de atenuar a tempestade política que assolou o Peru, onde os seis últimos presidentes são acusados de corrupção.