Professora da UAST destaca participação feminina na ciência

Celebrado no último dia 11 de fevereiro, o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência destaca a contribuição feminina para o avanço do conhecimento e reforça a importância da equidade de gênero nas áreas científicas e tecnológicas. A data, instituída pela Organização das Nações Unidas (ONU), chama atenção para a necessidade de ampliar o acesso, a permanência e o reconhecimento das mulheres em campos historicamente marcados pela desigualdade.

Apesar dos avanços, pesquisadoras ainda enfrentam desafios como a sub-representação em cargos de liderança, a disparidade salarial e a baixa visibilidade de suas produções acadêmicas. Ao dar voz a cientistas e incentivar novas gerações, a data reafirma que diversidade e inclusão são elementos estratégicos para o desenvolvimento científico e para a construção de uma sociedade mais inovadora e justa.

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Nesta semana, a reportagem do Farol de Notícias conversou com a Profa. Dra. Maria Suely Costa da Câmara, do curso de Licenciatura em Quimica, da Unidade Acadêmica de Serra Talhada, UAST desde 2008 e em 2024 recebeu o título de cidadã serra-talhadense pela câmara municipal de vereadores.

Para a professora Suely Câmara, a presença feminina na ciência é uma questão de excelência científica e por isso ela apresenta alguns pontos que considera fundamentais, bem como mostra motivos para comemorar e elenca pontos que ainda falta serem conquistados. Além disso, a professora também analisa o cenário brasileiro e divulga oportunidades para pesquisadoras.

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Licenciada e mestre em Química pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte; doutora em Química pela Universidade Federal de São Carlos e Pós- doutorado em pigmentos inorgânicos nanoestruturados pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (2016). É docente desde 2008 na UAST-UFRPE e atualmente é professora associada IV. Tem experiência na área de Química, com ênfase em Química Inorgânica atuando principalmente nos seguintes temas: síntese de nanopartículas de prata e química verde na obtenção de produtos com propriedades antifúngicas e antibacterianas. Atua no ensino de Química introduzindo conceitos de nanotecnologia no ensino fundamental e médio. É a coordenadora geral do projeto de extensão: Feira de ciências e Mostra Científica do Sertão do Pajeú (Projeto contemplado com o SELO ODS 2023). Coordenadora do grupo de pesquisa GINANO (Grupo de pesquisa em Química Inorgânica e Nanotecnologia da UAST-UFRPE). Participante da 7ª edição do Mulheres na Ciência e Inovação, programa de introdução à inovação e ao empreendedorismo para pesquisadoras do ensino superior e pós-graduação das áreas STEM de todo o país, concebido e realizado pelo Museu do Amanhã e British Council.

Farol de Notícias: Para a senhora, qual a importância das mulheres na ciência?

Profa. Dra. Maria Suely: 

Falar sobre a importância das mulheres na ciência não é apenas uma questão de justiça ou representatividade; é uma questão de excelência científica. Quando limitamos quem pode fazer ciência, limitamos o que a ciência pode descobrir. “Um mundo que utiliza apenas metade do seu potencial intelectual está fadado a progredir pela metade”. “A ciência é a busca pela verdade, e a verdade é muito mais rica quando vista por todos os ângulos possíveis”. Aqui estão alguns pontos que considero fundamentais:
1. Diversidade de Perspectivas:  A ciência prospera com perguntas diferentes. Homens e mulheres muitas vezes trazem vivências e prioridades distintas para o laboratório. Historicamente, quando as mulheres entraram em áreas como a medicina e a biologia, passamos a entender muito melhor a saúde feminina, o desenvolvimento infantil e dinâmicas sociais que antes eram ignoradas ou tratadas como “secundárias”;
2. Rompimento de Vieses: A presença feminina ajuda a identificar e corrigir vieses em pesquisas. Um exemplo clássico é o design de segurança automotiva ou algoritmos de IA: sem mulheres nas equipes de desenvolvimento, os testes muitas vezes ignoram as proporções físicas e as necessidades femininas, gerando resultados menos eficazes (e às vezes perigosos) para metade da população;
3. Modelos de Inspiração: Não se pode ser o que não se pode ver. Mulheres como Marie Curie, Katherine Johnson e, mais recentemente, Katie Bouman (buracos negros) e Ester Sabino (sequenciamento do coronavírus no Brasil), provam que o intelecto não tem gênero. Elas abrem caminho para que meninas hoje não questionem se “lugar de mulher é na física”, mas sim “qual problema da física eu vou resolver?”.

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Farol de Notícias: Há mais motivos para comemorar ou ainda falta muito a ser conquistado?

Profa. Dra. Maria Suely: 

“sim”. O cenário das mulheres na ciência é um misto de conquistas históricas brilhantes e barreiras estruturais que teimam em permanecer. Aqui está um panorama para entendermos onde estamos:

Motivos para Comemorar

A presença feminina deixou de ser uma exceção heróica para se tornar uma força motriz essencial.
1. Representatividade em Alta: Nunca houve tantas mulheres em cursos de graduação e doutorado. Em muitas áreas (como Biociências e Saúde), as mulheres já são maioria entre os pesquisadores iniciantes; 2. Visibilidade de Legados: Nomes como Katie Bouman (buraco negro), Jennifer Doudna e Emmanuelle Charpentier (CRISPR) e as brasileiras Ester Sabino e Jaqueline Goes (sequenciamento do COVID-19) mostram que a excelência feminina está na linha de frente das maiores descobertas atuais; 3. Políticas de Apoio: Movimentos como o Parent in Science no Brasil conseguiram vitórias reais, como a inclusão do período de licença-maternidade no currículo Lattes, mudando a forma como a produtividade é avaliada.

O que ainda falta conquistar

O progresso existe, mas ele desacelera conforme subimos na hierarquia acadêmica.
1. O “Efeito Tesoura”: Embora as mulheres comecem em pé de igualdade na graduação, a porcentagem de mulheres diminui drasticamente em cargos de liderança, coordenação e bolsas de produtividade de alto nível; 2. O Teto de Vidro nas STEM: Áreas como Engenharia, Física e Computação ainda enfrentam uma disparidade de gênero acentuada, muitas vezes alimentada por estereótipos que começam ainda na infância; 3. O “Imposto da Maternidade”: A ciência ainda é estruturada em um modelo de produtividade linear que não absorve bem as pausas necessárias para o cuidado, penalizando pesquisadoras que decidem serem mães; 4. Viés Implícito: Estudos mostram que currículos com nomes masculinos ainda tendem a ser avaliados com notas mais altas do que currículos idênticos com nomes femininos em processos de contratação.
Comemoramos a resiliência e a competência das mulheres que ocuparam espaços antes proibidos, mas a luta agora não é apenas por “entrada”, e sim por permanência e liderança. Não estamos mais no século XIX, onde mulheres precisavam de pseudônimos masculinos para publicar, mas ainda não atingimos a equidade plena. Comemorar é importante para reconhecer o esforço das que vieram antes, mas a “vigilância” é necessária para que as políticas de inclusão não retrocedam. “A ciência é feita por pessoas, e se metade da humanidade é deixada de fora, estamos perdendo metade do potencial criativo e intelectual do planeta.”

Aqui estão alguns destaques de lideranças femininas e oportunidades que estão movimentando o cenário atual brasileiro:

  • Dra. Luciana Leite (Biotecnologia): Referência no desenvolvimento de vacinas nacionais de nova geração (multivalentes), fundamentais para a soberania sanitária do país.
  • Dra. Mercedes Bustamante (Ecologia/Clima): Uma das vozes mais respeitadas mundialmente em relação ao Cerrado e mudanças climáticas, liderando redes de monitoramento que unem ciência e políticas públicas.
  • Dra. Márcia Barbosa (Física): Continua sendo uma força na pesquisa sobre as propriedades da água e, simultaneamente, na luta por igualdade de gênero nas ciências exatas.
  • Novos Talentos na IA: Jovens pesquisadoras do C4AI (Centro de Inteligência Artificial) em São Paulo estão liderando projetos de Processamento de Linguagem Natural voltados para a preservação de línguas indígenas brasileiras.

Pesquisadora da UFRJ desenvolve medicamento promissor para reversão de lesão medular. Uma substância estudada há quase três décadas no Brasil surge como uma nova esperança para vítimas de lesões na medula embora ainda esteja nas fases iniciais dos testes clínicos. Trata-se da polilaminina, versão derivada da laminina uma proteína produzida naturalmente pelo nosso. Baseia-se no estudo de uma proteína, extraída da placenta, capaz de modular o comportamento das células e a organização tecidual durante o desenvolvimento e a regeneração do sistema nervoso, a laminina. Pesquisa conduzida pela professora Tatiana Coelho de Sampaio, chefe do Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular, do Instituto de Ciências Biomédicas, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Bolsas e Apoios Específicos para Mulheres

  • 1. L’Oréal-UNESCO For Women in Science:
    Um dos prêmios mais prestigiosos do mundo. No Brasil, ele premia anualmente jovens pesquisadoras com bolsas auxílio robustas para impulsionar suas carreiras.
  • 2. Bolsas “Parent in Science”:
    O movimento consolidou editais que leva em conta a “maternidade no currículo”, oferecendo auxílios específicos para pesquisadoras que retomam suas atividades após a licença.
  • 3. Programa Mulheres na Ciência (British Council):
    Focado em parcerias entre Brasil e Reino Unido, oferece bolsas de mestrado e doutorado para mulheres em áreas de STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática).
  • 4. Editais Finep/CNPq de Equidade:
    Editais governamentais que exigem a presença de mulheres na coordenação de projetos ou que destinam verbas exclusivas para grupos liderados por cientistas mulheres.

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