Serra-talhadense que reside no exterior 'não vai se calar' nas eleições

Por Maria Robb. Socióloga, Professora Universitária Aposentada, Serra-talhadense, filha de dona Mocinha. Atualmente residente na Inglaterra

Eu sou uma mulher de esquerda e não escondo isso. Não tenho vergonha de dizer que acredito em um Estado que proteja quem trabalha, quem envelhece, quem adoece, quem precisa da escola pública, quem não consegue comprar medicamentos e quem depende de políticas sociais para ter uma oportunidade.

Eu não acho que o governo Lula seja perfeito. Existem erros, problemas fiscais, juros altos, custo de vida pressionado e muita coisa que ainda precisa melhorar. Mas dizer que Lula “desgraçou o Brasil” não é uma análise econômica. É uma simplificação.

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Eu quero discutir o país com fatos, responsabilidade e honestidade. Quero reconhecer os avanços, enfrentar os problemas e criticar o governo quando for necessário, sem transformar quem pensa diferente em inimigo.

ECONOMIA SEM SLOGANS

Em 2024, a taxa média anual de desocupação foi de 6,6%, segundo a PNAD Contínua do IBGE. No trimestre encerrado em dezembro, ficou em 6,2%. O PIB cresceu 3,4% e o IPCA acumulou 4,83%.

Esses números não significam que todo mundo esteja bem. O desemprego ainda atingia milhões de pessoas, a inflação pesava mais sobre os pobres e o crescimento precisava vir acompanhado de produtividade, salários melhores, investimento e serviços públicos de qualidade.

Para mim, reconhecer avanços não significa ignorar problemas. E apontar problemas não dá o direito de apagar os avanços.

Também quero deixar uma coisa clara: a Selic não é determinada diretamente pelo presidente da República. A decisão é do Copom, órgão do Banco Central. Isso não significa que o governo não tenha influência sobre o ambiente econômico. Política fiscal, dívida pública, orçamento, expectativas e a indicação dos diretores do Banco Central também importam.

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Em janeiro de 2025, o Copom elevou a Selic para 13,25% ao ano. Juros altos encarecem o crédito, dificultam investimentos e pressionam as famílias endividadas. Ao mesmo tempo, são utilizados para controlar a inflação e as expectativas dentro do regime de metas.

Também precisamos olhar para os juros da dívida pública. Em 2024, os juros nominais do setor público consolidado somaram aproximadamente R$ 950,4 bilhões, cerca de 8,05% do PIB, segundo o Banco Central.

Por isso, dizer simplesmente que “Lula está pagando juros altos” é reduzir uma questão complexa a uma frase de efeito. Existe política monetária, dívida, expectativas, política fiscal e uma estrutura financeira que precisa ser discutida com seriedade.

Eu quero cobrar o governo quando ele errar. Mas também quero honestidade no debate. O Brasil não precisa de torcida organizada. Precisa de diagnóstico, responsabilidade e decisão política.

RENDA, IMPOSTOS E CUSTO DE VIDA

A tributação precisa ser discutida com precisão. Em 2023, a faixa mensal de isenção nominal do Imposto de Renda subiu para R$ 2.112. Com o desconto simplificado de R$ 528, rendimentos de até R$ 2.640 puderam ficar sem imposto retido na fonte.

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Em 2024, a faixa nominal passou para R$ 2.259,20. Com o desconto simplificado de R$ 564,80, a isenção prática alcançou R$ 2.824, equivalente a dois salários mínimos daquele ano.

A partir de janeiro de 2025, o salário mínimo passou para R$ 1.518. Mas é importante não confundir automaticamente a faixa de isenção com dois salários mínimos. Qualquer ampliação depende de lei e das regras que estiverem em vigor.

Também precisamos distinguir salário bruto, renda tributável, deduções, retenção e imposto efetivamente devido. Eu não quero apresentar como realidade uma medida que ainda esteja em discussão ou que não tenha entrado em vigor.

Defendo uma tributação justa, em que quem tem maior capacidade econômica contribua mais e quem vive do próprio trabalho não seja esmagado por impostos e preços elevados.

O Estado também não determina sozinho o preço de tudo. Ele pode influenciar os preços por meio de impostos, crédito, estoques, regulação, investimentos e tarifas. Mas o custo de vida depende de muitos fatores: produção, clima, câmbio, petróleo, juros, oferta, demanda, logística e condições internacionais.

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Isso não significa aceitar a inflação passivamente. Significa cobrar aumento de renda, redução das desigualdades, estímulo à produção, melhoria da logística, proteção dos mais vulneráveis e responsabilidade nas decisões que afetam as famílias.

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POLÍTICAS PÚBLICAS QUE MUDAM VIDAS

SUS: um direito, não um favor

Eu sei que o SUS tem filas, falta de profissionais, problemas de gestão e hospitais sobrecarregados. O SUS precisa melhorar.

Mas também sei que ele é um sistema público universal, previsto na Constituição, que oferece desde atenção primária e vacinação até assistência farmacêutica, tratamentos especializados, urgência e transplantes.

Em 2023, foram registradas mais de 5 milhões de internações hospitalares financiadas pelo SUS, segundo dados do Ministério da Saúde. Esse número precisa ser entendido corretamente: ele se refere a procedimentos hospitalares registrados e não a todos os atendimentos realizados no país.

O SUS também coordena campanhas de vacinação, vigilância em saúde, controle de epidemias e distribuição de medicamentos.

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Para milhões de brasileiros, o SUS não é uma abstração. É consulta, vacina, cirurgia, tratamento, remédio e a possibilidade de continuar vivendo.

Defender o SUS, para mim, é defender o direito de ninguém ser condenado à doença simplesmente por ter nascido pobre.

Farmácia Popular: medicamento também é comida

A Farmácia Popular oferece medicamentos e insumos com regras de gratuidade ou subsídio definidas pelo Ministério da Saúde.

Em 2024, o governo anunciou a gratuidade de todos os itens então disponibilizados pelo programa, incluindo tratamentos para hipertensão, diabetes, asma, osteoporose, colesterol, Parkinson e glaucoma, além de anticoncepcionais, fraldas geriátricas e absorventes, conforme os critérios vigentes.

Naquele ano, o programa atendeu mais de 24 milhões de pessoas e estava presente em mais de 4.800 municípios. Esses números podem variar conforme o período e a metodologia utilizada.

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Para uma família rica, um remédio pode ser apenas uma despesa. Para uma família pobre, pode ser a diferença entre comprar o medicamento ou comprar comida.

É por isso que eu não aceito que política pública seja tratada como privilégio. Garantir saúde, renda e dignidade é uma obrigação do Estado.

Pé-de-Meia: permanência na escola é futuro

O Pé-de-Meia foi criado pela Lei nº 14.818/2024 para incentivar a permanência e a conclusão do ensino médio por estudantes de baixa renda inscritos no Cadastro Único e que atendem aos critérios legais.

O programa prevê incentivos de matrícula, frequência, conclusão e participação no Enem. O valor máximo divulgado para o ensino médio regular é de até R$ 9.200 por estudante, com parcela mensal de frequência de R$ 200, conforme as condições previstas.

O Tribunal de Contas da União apontou problemas de controle, transparência e governança que precisam ser corrigidos. Para mim, isso exige fiscalização, não abandono.

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Se há erro, é preciso corrigir. Se há fraude, investigar. Se há desperdício, eliminar. Mas uma política social necessária deve ser fortalecida com transparência e avaliação.

Manter jovens na escola amplia oportunidades. Eu só não acho correto atribuir automaticamente ao programa efeitos sobre violência ou uso de drogas sem estudos específicos que comprovem essa relação.

SEGURANÇA PÚBLICA E O RISCO DE UMA SOCIEDADE ARMADA

Eu não acredito que uma sociedade se torne mais segura simplesmente colocando mais armas nas mãos da população.

Em 2023, o Brasil registrou 46.328 mortes violentas intencionais, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2024. Embora tenha havido redução em relação a anos anteriores, esse número continua sendo inaceitável.

A disponibilidade de armas pode estar associada a acidentes, suicídios, violência doméstica e mortes em conflitos. A força dessas relações depende do contexto e da metodologia, mas o risco não pode ser ignorado.

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Segurança pública exige prevenção, investigação, inteligência, controle de fronteiras, combate ao crime organizado, policiamento qualificado, valorização profissional, integração institucional e proteção às vítimas.

Eu não aceito que o Estado transfira para cada cidadão a responsabilidade de sobreviver em uma sociedade violenta. Quero um Brasil que enfrente a violência sem transformar a população em uma sociedade permanentemente armada.

Nenhuma arma substitui políticas públicas de segurança. E nenhuma política será suficiente sem autoridade legal, prevenção, investigação e respeito aos direitos fundamentais.

DITADURA, TORTURA E DEMOCRACIA

Ditadura nunca mais.

Nunca mais censura, perseguição política, tortura, desaparecidos ou violência de Estado contra quem pensa diferente.

A ditadura militar brasileira foi marcada por censura, prisões arbitrárias, perseguições, tortura, mortes e desaparecimentos. Tudo isso foi documentado por investigações oficiais, inclusive pela Comissão Nacional da Verdade.

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Não existe liberdade quando o Estado pode prender, torturar e silenciar sem respeitar a lei. Não existe patriotismo em defender torturadores. E não existe ordem em um regime que elimina direitos e impede a escolha livre dos representantes.

Defender a democracia é defender o voto, o protesto, a crítica ao governo, a liberdade de imprensa, a organização social e instituições submetidas à Constituição.

Democracia também exige alternância de poder, respeito aos resultados eleitorais, combate à violência política e garantia de que adversários possam existir e disputar legitimamente.

Quem aceita tortura, censura ou golpe não está defendendo a ordem. Está defendendo o arbítrio.

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SOBERANIA E DESENVOLVIMENTO NACIONAL

Eu quero um Brasil soberano, capaz de negociar com os Estados Unidos, a China, a Europa e qualquer outro país sem submissão.

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Temos petróleo, alimentos, água, biodiversidade, minerais estratégicos, uma população numerosa e capacidade científica e industrial. Mas também enfrentamos desigualdade, baixa produtividade, limitações de infraestrutura e desafios de inovação.

Precisamos gerar valor dentro do país, desenvolver tecnologia e reduzir a dependência de exportar matérias-primas enquanto importamos produtos de alto valor.

Isso exige investimento em educação, ciência, infraestrutura, indústria, transição energética e qualificação profissional, sempre com responsabilidade ambiental.

Soberania não é isolamento. É ter capacidade de negociar, produzir, inovar e decidir os próprios caminhos. É usar a cooperação internacional para fortalecer o desenvolvimento nacional, e não para abrir mão da nossa autonomia.

INSTITUIÇÕES ACIMA DE INTERESSES PESSOAIS

Eu não quero um Brasil governado por uma família, por um presidente acima das instituições ou por um partido dono do Estado.

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Não quero o Supremo Tribunal Federal subordinado ao Executivo. Também não quero o Congresso transformado em carimbo presidencial.

O STF deve ser independente para cumprir sua função constitucional, mas não está acima das críticas. Ministros podem errar e devem responder institucionalmente por suas decisões.

Suspeitas de irregularidades, abusos ou crimes precisam ser investigadas com devido processo, transparência e independência. Se houver responsabilidade comprovada, deve haver punição.

Defender o STF não significa defender cada decisão de seus ministros. Significa defender uma instituição constitucional independente, submetida à lei, à prestação de contas e aos limites da Constituição.

Isso vale para a esquerda e para a direita. Democracia não pode ser defendida apenas quando ela favorece o nosso lado.

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Nenhum político é maior que o Brasil. Nenhuma família é dona do Brasil. Nenhum partido é dono da democracia. E nenhum ministro é dono da Constituição.

O QUE SIGNIFICA SER DE ESQUERDA

Eu sou de esquerda porque acredito que a desigualdade não é apenas um problema individual.

Defendo saúde e educação públicas, Previdência, direitos trabalhistas, salário digno, proteção social, ciência e soberania nacional.

Acredito que quem tem mais condições deve contribuir proporcionalmente mais, dentro de regras transparentes e fiscalmente responsáveis.

Ser de esquerda não significa considerar Lula perfeito. Eu posso defender políticas públicas e cobrar o governo. Posso reconhecer avanços e apontar erros. Posso defender o SUS e exigir melhorias. Posso apoiar o Bolsa Família e cobrar fiscalização. Posso defender o Pé-de-Meia e exigir controle. Posso apoiar medidas de redução do Imposto de Renda previstas em lei e, ao mesmo tempo, cobrar responsabilidade fiscal.

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Também posso defender o controle responsável de armas, rejeitar a normalização da violência e da ditadura e defender a independência do STF sem colocar seus ministros acima das críticas.

Isso não é contradição. É responsabilidade política.

Ser de esquerda, para mim, é defender direitos, cobrar resultados, proteger os vulneráveis e exigir que o poder público esteja submetido à lei, à transparência e ao interesse coletivo.

BETS: QUANDO O JOGO VIRA EXPLORAÇÃO DA POBREZA

Eu não estou falando de diversão inocente. Estou falando de um mercado que cresceu rapidamente e alcançou jovens, pessoas de baixa renda e famílias endividadas.

Em setembro de 2024, o Banco Central estimou que os brasileiros enviaram, por Pix, entre R$ 18 bilhões e R$ 21 bilhões por mês a empresas de apostas, conforme o período e a metodologia analisados. Cerca de 24 milhões de pessoas teriam apostado por Pix em um período mensal analisado. São estimativas, não uma contagem completa de todas as apostas.

O Banco Central também estimou que aproximadamente 5 milhões de beneficiários do Bolsa Família enviaram cerca de R$ 3 bilhões a empresas de apostas por Pix em agosto de 2024. Esse dado não prova que o dinheiro veio diretamente do benefício, mas reforça a necessidade de fiscalização e proteção social.

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Para muitas famílias, a aposta aparece como promessa de renda rápida e termina em dívida, ansiedade, conflitos e perda de dinheiro destinado à comida, ao aluguel, ao remédio ou ao transporte.

As bets não criaram a pobreza, mas podem explorar a vulnerabilidade. Vendem a ilusão de dinheiro fácil enquanto a vantagem matemática permanece com a operadora.

Quando o aluguel vai para uma plataforma, quando o benefício é usado para tentar recuperar perdas ou quando a comida deixa de ser comprada para pagar dívidas, não estamos diante de simples entretenimento. Estamos diante de um problema social, econômico e de saúde pública.

A regulamentação precisa garantir publicidade responsável, proibir propaganda enganosa, identificar apostadores, limitar depósitos, oferecer mecanismos de autoexclusão, proteger menores, fiscalizar empresas e tratar o transtorno do jogo.

A Lei nº 14.790/2023 e normas posteriores estabeleceram regras para apostas de quota fixa, mas regulamentação sem fiscalização não basta.

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Também é preciso responsabilizar influenciadores, clubes e empresas que promovem dinheiro fácil sem explicar os riscos.

Eu não aceito que a pobreza seja transformada em mercado. O Estado deve proteger o cidadão, e não apenas arrecadar impostos sobre a perda dele.

O BRASIL QUE EU QUERO PROTEGER

Para mim, democracia não é escolher um salvador. É defender um projeto de país e cobrar quem estiver no poder.

O futuro do Brasil depende dos direitos que preservarmos, da força das instituições, da nossa capacidade de produzir tecnologia e da maneira como cuidarmos dos pobres, dos trabalhadores, dos idosos e dos jovens.

Por isso, eu afirmo:

Ditadura nunca mais.

Tortura nunca mais.

Apologia à violência nunca mais.

Nenhum político é maior que o Brasil.

Nenhuma família é dona do Brasil.

Nenhum partido é dono da democracia.

Nenhum ministro é dono da Constituição.

O STF deve ser livre, independente e responsável perante a sociedade e a lei.

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Se houver erros, que sejam assumidos.

Se houver suspeitas, que sejam investigadas.

Se houver responsabilidade comprovada, que haja punição, doa a quem doer.

Nenhuma arma substitui políticas públicas de segurança.

Nenhuma bet deve lucrar com a destruição de famílias pobres.

O Brasil precisa de crescimento com inclusão, responsabilidade fiscal, serviços públicos fortes, soberania, ciência e democracia.

Precisa de um Estado capaz de proteger sem controlar, cobrar sem sufocar quem trabalha, regular sem abandonar os vulneráveis e investir sem desperdiçar.

Precisa de instituições independentes, transparentes e capazes de corrigir os próprios erros.

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Precisa de uma política que não trate o povo como massa de manobra nem a pobreza como oportunidade de lucro.

O Brasil pertence ao seu povo.

Proteger esse Brasil exige memória, participação, fiscalização, solidariedade e coragem para defender princípios mesmo quando eles não favorecem o nosso lado.

É esse Brasil — democrático, soberano, socialmente justo e responsável diante dos fatos — que eu quero ver protegido.