Do Folha de São Paulo

Após os Estados Unidos concluírem o plano de retirada de tropas do Afeganistão, o porta-voz do Talibã, grupo extremista que passou a controlar o país, realizou nesta terça-feira (31) uma entrevista coletiva no aeroporto de Cabul, cenário de tensão nas ultimas semanas durante o processo de evacuação americano.

Zabihullah Mujahid parabenizou os afegãos pela saída das tropas americanas após 20 anos de ocupação.

“Parabéns ao Afeganistão. Esta vitória pertence a todos nós”, disse ele durante a entrevista no aeroporto de Cabul, que até poucas horas antes era controlado pelas forças americanas. “A derrota dos Estados Unidos é uma grande lição para outros invasores e para nossas gerações futuras.”

O porta-voz, no entanto, afirmou que a facção fundamentalista islâmica quer ter “boas relações com os Estados Unidos e com o mundo”. “Saudamos boas relações diplomáticas com todos”, acrescentou.

O último avião americano decolou às 23h59 (16h29 em Brasília), após uma operação de evacuação de 122 mil pessoas desde 14 de agosto, véspera da tomada da capital pelo Talibã.

Iniciada há 19 anos, 10 meses e 24 dias, a ação consistiu no mais longo engajamento militar americano.

Acabou com uma caótica retirada marcada por fiascos: das imagens de um afegão caindo dos céus após se agarrar a um cargueiro C-17 em decolagem ao atentado ocorrido na última quinta-feira (26), que com quase 200 mortos foi o mais letal na capital em toda a guerra.

No derradeiro voo, os últimos a embarcar foram o general Chris Donahue, comandante das forças militares do país em solo afegão, e o embaixador Ross Wilson. Ainda assim, o general Kenneth McKenzie, chefe do Comando Central, disse: “Não retiramos todos os que gostaríamos”.

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Cerca de 6.000 americanos foram resgatados do país, e cerca de 200 dos que desejavam ainda sair acabaram ficando para trás. O Talibã, em campanha para parecer moderado, disse que qualquer pessoa que desejar sair quando houver voos comerciais não será impedida.

Ao longo das duas décadas, segundo estudo da Universidade Brown (EUA), morreram cerca de 160 mil pessoas (das quais 2.298 soldados americanos, 3.814 mercenários, 1.145 aliados; o restante, afegãos). O custo ficou em US$ 2,26 trilhões, número que o Pentágono coloca na casa de US$ 1 trilhão.

As ações de combate tiveram seu auge de 2010 a 2012, quando cerca de 100 mil soldados operaram no país. Em 2014, elas foram encerradas e apenas uma força residual permaneceu no Afeganistão, transferindo bases e missões para o Exército local.

Essas forças fracassaram em conter o Talibã, que, após se espalhar pelo país e promover ataques terroristas, aos poucos conquistou espaço pelo interior afegão.

No ano passado, o presidente Donald Trump cumpriu a promessa de desengajar os EUA do que chamava de guerras inúteis e assinou um acordo de paz com os talibãs, acreditando no pressuposto de que o grupo iria negociar seu caminho num governo de coalizão.

Biden foi eleito em novembro e, após assumir em janeiro deste ano, anunciou em abril que cumpriria o acertado —mas sairia até 11 de setembro, não em maio, como combinado. O Talibã usou isso de desculpa para rasgar sua parte do acordo.

Iniciou uma campanha pelo interior afegão e cooptou líderes tribais. O resultado foi uma campanha militar avassaladora contra grandes centros urbanos, que em duas semanas viu o país todo capitular e Cabul ser ocupada sem resistência, com a fuga do presidente Ashraf Ghani para Abu Dhabi.

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