Ultraprocessados são ligados a risco 42% maior de sintomas depressivos
Depressão – Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Por Folha de Pernambuco

Amplamente ofertados e parte significativa do cardápio da população brasileira e do mundo, os ultraprocessados foram ligados a um risco 42% maior de sintomas depressivos em novo estudo do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da Universidade de São Paulo (Nupens / USP). O trabalho foi publicado na revista científica Clinical Nutrition e financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

A análise utilizou dados do Estudo NutriNet Brasil, uma pesquisa que, desde 2020, investiga os padrões alimentares e a saúde de milhares de brasileiros. O estudo selecionou 15.960 participantes adultos que não tinham diagnóstico ou sintomas de depressão no primeiro ano do acompanhamento. A partir do 14º mês, foram feitos questionários a cada seis meses que avaliaram as refeições e o estado de saúde do voluntário.

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Com isso, os pesquisadores dividiram a população entre os que consumiam mais e menos ultraprocessados. Em média, os alimentos do tipo representavam 21,6% do total de calorias ingeridas no dia, o que variou de 7,3% a 38,9%. Ao cruzar essas informações com questionário sobre saúde, foi constatado que os que mais comiam ultraprocessados tinham 42% mais sintomas depressivos do que o grupo que menos ingere os alimentos.

— Até o momento, todos os trabalhos que fazem essa análise encontram essa associações do tipo. Mas o que vimos é que o perfil nutricional da dieta não influenciou, ou seja, a associação foi observada independentemente das gorduras, do açúcar adicionado, de fibras, do que pode conter nesses alimentos — explica André Werneck, pesquisador de doutorado do Nupens que liderou o estudo.

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Além dos 42% na comparação entre os grupos que consumiam mais e menos ultraprocessados, também foi constatado um aumento de forma gradual, de 10% dos sintomas depressivos a cada 10% de alimentos do tipo acrescentados na dieta.

— São diversos sintomas, principalmente ligados ao humor deprimido, a sentir-se um fracasso e à anedonia, que é a falta de prazer em fazer atividades que costumavam ser habitualmente prazerosas, assim como sintomas somáticos, como mudança do peso corporal, questões de sono — explica Werneck.

O risco também foi maior mesmo quando a ingestão de frutas, verduras e legumes era similar entre os grupos que consomem mais e menos ultraprocessados, ou seja, comer alimentos in natura e minimamente processados não anulou o efeito na saúde.

O trabalho da USP também mostrou que adultos com um nível de escolaridade e de renda mais baixos são os que mais comem ultraprocessados. Além disso, também consomem menos frutas, legumes, verduras e fibras, praticam menos atividade física e convivem com mais doenças.

Batata chips é um dos exemplos de alimento ultraprocessado

Na publicação, além de explorar os dados do NutriNet Brasil, os pesquisadores do Nupens também disseram uma revisão de outros cinco trabalhos similares. Apesar de diferenças na metodologia, os outros estudos também encontraram ligações significativas entre os produtos e sintomas depressivos, com um risco 32% maior.

Sobre os motivos que podem explicar a relação, Werneck explica que ainda não se sabe exatamente o mecanismo que desencadeia o impacto na saúde mental. Destaca que ainda é uma área nova na medicina, e que os transtornos psicológicos de um modo geral ainda não têm as causas tão bem definidas.

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— Nós temos algumas hipóteses, mas a maioria ainda não foi testada de forma apropriada. Uma delas seria de que a pior composição nutricional dos alimentos ultraprocessados poderia ser uma causa, como por meio do aumento da inflamação e do impacto na composição da microbiota intestinal. O uso de aditivos, que dão mais palatabilidade e melhor textura aos alimentos, têm sido apontados em alguns trabalhos com animais como algo que impacta o intestino. Mas por enquanto são apenas hipóteses — diz o pesquisador.

O que são os ultraprocessados?
Os ultraprocessados são alimentos produzidos de forma industrial com a adição de diversos aditivos e conservantes para lhes conferir cor, aroma, sabor e textura e estender seu prazo de validade. Costumam ser mais baratos e práticos, e muitas vezes vêm em embalagens – como biscoitos, refeições prontas, refrigerantes, molhos prontos, cereais, salsicha, entre muitos outros.

No Brasil, de acordo com a última edição da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), do Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE), que avaliou o tema, os ultraprocessados representam 18,4% da alimentação. Os dados mais recentes do NutriNet Brasil, porém, já mostram um crescimento para 21,6%. Entre crianças menores de 5 anos, o Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (ENANI), do Ministério da Saúde, aponta que chega a 25%.

Em fevereiro, uma revisão de 45 trabalhos feitos sobre o tema, a maior já publicada, na revista científica The BMJ, encontrou uma associação entre os ultraprocessados e um risco aumentado para 32 agravos de saúde diferentes.

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Alimentos ultraprocessados causam diversas doenças metabólicas

De forma mais sólida, os cientistas afirmam que há evidências convincentes de que a ingestão de alimentos ultraprocessados está associada a um risco aumentado de 50% de morte relacionada a doenças cardiovasculares; 53% de transtornos mentais comuns e 48% de ansiedade prevalente.

Dados sólidos também mostraram um risco 12% maior de diabetes tipo 2 a cada 10% de aumento dos ultraprocessados na dieta. Evidências mais fracas, porém consideradas altamente sugestivas, indicaram uma chance 20% maior de morte por qualquer causa, 55% de obesidade, 41% de problemas de sono, 40% de chiado no peito e 20% de depressão.

Embora no Brasil, o consumo dos alimentos seja mais baixo, os pesquisadores citam no estudo que, em países de renda alta, eles chegam a representar até 42% e 58% do total de calorias consumidas por dia, caso da Austrália e dos Estados Unidos, respectivamente.

NutriNet Brasil
O acompanhamento da população brasileira que possibilitou o estudo, o NutriNet, conta com mais de 110 mil voluntários cadastrados, mas ainda recruta novos participantes para chegar a 200 mil. Para participar, basta residir no Brasil, ter idade mínima de 18 anos e acesso à internet. O cadastro é feito no site do estudo (www.nutrinetbrasil.fsp.usp.br).

O monitoramento é feito totalmente online. A cada 3 ou 4 meses, os voluntários respondem no portal do NutriNet Brasil um questionário sobre a própria alimentação e a saúde. O objetivo é identificar padrões na refeição dos brasileiros e entender como a alimentação pode proteger contra ou agravar doenças.