Publicado às 12h57 desta segunda-feira (30)

Há 28 anos morria o cantor, compositor e poeta Ricardo Rocha, vítima de um choque elétrico durante uma apresentação da banda D.Gritos. O livro “D.Gritos: Do Sonho à Tragédia”, publicada em 2013, trouxe à tona depoimentos, documentos e fotos que não deixam dúvidas sobre a morte e os fatos ocorridos entre a noite do dia 29 e o início da madrugada do dia 30 de agosto de 1993.

Ricardo Rocha foi vítima de um choque elétrico que provou uma parada cardiorrespiratória/infarto no miocárdio, conforme a certidão óbito assinada pelo competente médico Dr. Barbosa Neto. Para o amigo Jorge Stanley, não há a menor dúvida de Ricardo morreu em função do choque.

Em depoimento, para o livro sobre a D.Gritos, o baterista da banda fez o seguinte desabafo: “Ricardo olhou para Toinho (integrante da D.Gritos) e bateu três vezes com o microfone três vezes no peito e caiu”. Stanley acrescenta, “percebendo que ele podia ter sofrido o choque, Toinho puxou o cabo do microfone, o que causou um barulho semelhante a uma explosão”

Segundo o músico Nilson Brito, que tocava com a banda D.Gritos naquela noite, “não havia fio terra” nas instalações elétricas do palco. Ele também afirmou que no dia seguinte “funcionários da Celpe estiveram vistoriando o palco”, mas apesar disso, o Ministério Público, a Polícia Civil e a Prefeitura Municipal de Serra Talhada (gestão da época) não realizaram nenhuma investigação.

Uma das fotos inéditas publicadas no livro traz em destaque os músicos César Raseck e Jorge Stanley, ambos da D.Gritos, tocando minutos antes da tragédia de Ricardo. A fotografia, sem a presença do cantor, deixa no ar uma sensação de vazio e uma perspectiva sombria. Alguns detalhes chamam atenção na imagem, o tamanho e a pequena estrutura do palco.

Além de problemas na estrutura do palco, não havia ambulância no local. Os procedimentos para tentar salvar a vida do músico foram feitos por amigos ainda no palco. Ricardo Rocha foi retirado nos braços e conduzido por centenas de metros até encontrarem um carro disponível para levá-lo ao hospital.

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No Hospam não havia plantonista e ele acabou sendo encaminhado para o Pronto Socorro São José. Os longos minutos entre o resgate na Praça Sérgio Magalhães, a saída do automóvel pela Travessa José Olavo de Andrade, até o Pronto Socorro foram decisivos. Apesar dos procedimentos e manobras médicas realizadas por Dr. Barbosa, Ricardo Rocha não resistiu e foi a óbito.

O boletim de ocorrência só foi lavrado em 1995, dois anos após a tragédia. Apesar da morte de Ricardo, a programação festiva continuou, ou seja, a gestão da época da PMST não teve nenhum tipo empatia com a dor da família e dos amigos. Na ocasião também faltou união da classe artística, que diante de tudo que aconteceu, não deveria ter mantido as suas apresentações durante aquela festa.

A viúva e os dois filhos de Ricardo Rocha nunca foram indenizados pela sua morte. Em qualquer profissão, um acidente de trabalho pode permitir a família algum tipo de benefício ou até uma pensão. Porém, o silêncio de uns, a omissão e a negligência de outros não só tiraram a vida de Ricardo Rocha, mas também prejudicaram a vida de sua família para sempre. De alguma forma, Ricardo Rocha foi morto duas vezes: perdeu a vida e sua memória foi violada.

Ao falar sobre a morte de Ricardo Rocha, antes de tudo pedir que se faça justiça a sua memória e que se repudie a atitude dos covardes, sejam eles do passado, do presente ou do futuro. É importante que a verdade seja sempre preponderante em relação às mentiras e aos boatos. Infelizmente, uma parte de Serra Talhada, nega-se a reconhecer o talento, a genialidade e o pioneirismo do cantor, bem como valorizar a sua história e apoiar a sua família em momentos difíceis. Talvez seja por isso que a cada Festa de Setembro, as lembranças da vida e da obra de roqueiro se tornem tão vivas e tão presentes.

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UMA REFERÊNCIA MUSICAL PARA VÁRIAS GERAÇÕES

Ricardo Rocha e a banda D.Gritos realizaram um trabalho musical revolucionário com suas letras autorias e a musicalidade inconfundível, por isso se tornaram icônicos. Uma referência artística para dezenas de jovens de diferentes gerações. Em vários trechos da música “Navegantes” (Camilo Melo/Ricardo Rocha) gravada no disco Traumas (1990), é possível uma síntese do trabalho da banda, a triste coincidência é que essa foi à música que Ricardo Rocha cantava na hora em que fez sua passagem da vida terrena para a vida espiritual.

NAVEGANTES (Camilo Melo/Ricardo Rocha)

Nós mudamos a dimensão daquilo que restou
Da lembrança de um lírio que brilhou
Pra dar ao verde o verde que se acabou
E pelo homem que foi e não voltou
E por nós mesmos, quando ninguém chorou.

E o eco gritado de uma voz
A razão torturada por todos nós
Aqui a esperar.

Se navegamos tanto sem parar
Não é motivo pra desistir
Ficar aqui e não lutar

Se nós lutamos tanto sem ganhar
Não é motivo pra desistir
Esse é um jogo que não pode parar.

E nós chegamos a desvendar todo o mistério
De uma batalha que ninguém vai ganhar
E de uma árvore que nunca vão derrubar.

E se o negro das ideias nos caçar
Nos desculpem mas não vamos nos calar.

E o eco gritado de uma voz
A razão torturada por todos nós
Aqui a esperar.

Se navegamos tanto sem parar
Não é motivo pra desistir
Ficar aqui e não lutar

Se nós lutamos tanto sem ganhar
Não é motivo pra desistir
Esse é um jogo que não pode parar.