Foto: Max Rodrigues/Farol de Notícias

Publicado às 05h06 desta quarta-feira (25)

Setembro é um mês marcado por dois grandes feriados, no dia 7 o Brasil inteiro comemora a independência do país, os desfiles tomam às ruas e todos param para ver as bandas marciais. Em Serra Talhada a comemoração é dupla, pois no dia 8 se comemora o dia da padroeira da cidade e a Capital do Xaxado se mobiliza para a procissão de Nossa Senhora da Penha. Com todas essas festividades, é claro que os lugares com maior movimentação são salões de beleza, o Farol de Notícias entrevistou Dinha Ferreira, primeira cabeleireira profissional da cidade.

Em 1967, a dona de casa Maria Ferreira da Silva, que tinha muitas meninas em casa, resolveu abrir um salão de beleza na rua Enock Ignácio de Oliveira, o salão era administrado pelas suas filhas e até hoje uma das mais novas toma de conta com o maior orgulho. Maria de Lourdes, mais conhecida como Dinha Ferreira, ficou famosa em toda a cidade por seu talento com os penteados e lógico que setembro sempre foi o mês mais lotado de todos.

“Na época que nossa mãe colocou o salão para a gente não existia outro salão de beleza, eu era muito jovem e até pequena, tive que ficar em cima de um tamborete para poder alcançar a cabeça do pessoal. Quase sempre eu passava a noite toda fazendo penteados no dia 6 de setembro para no dia 7 as jovens estivessem vibrando, lindas e maravilhosas com seus penteados, foram momentos inesquecíveis de nossas vidas”, relatou Dinha, acrescentando:

“Era tanto movimento no salão que eu distribuía ficha porque não dava conta de atender todo mundo. Em setembro era a época mais movimentada por conta das festas, do desfile, tinha cliente que vinha todos os dias porque queria penteados diferentes a cada noite. Eu ainda ia para as festas, não ia todas as noites, mas pelo menos 2 noites eu ia e dançava a noite toda”.

O MAIOR LEGADO DE SUA MÃE

Dona Maria, mãe de Dinha Ferreira, era uma mulher muito firme e sempre fez questão de ter suas filhas na igreja, ensinou e mostrou todas as tradições, muito devota de Nossa Senhora da Penha, ela ajudava na organização da festa da padroeira, inclusive na arrecadação com os leilões. Dinha tem muito orgulho da trajetória de sua mãe e junto a suas irmãs preserva o legado que sua mãe deixou.

“Eu venho de uma família tradicional religiosa, minha mãe foi uma pessoa muito influente na igreja, ela era muito católica e muito devota de Nossa Senhora da Penha e assim ela conduziu a família toda, desde criança a gente sabia que tudo que tivesse de melhor era para Nossa Senhora da Penha. Nossa mãe era tudo na nossa vida. No tempo de Padre Jesus, mamãe que era muito amiga do padre, junto com outras senhoras da região, como dona Socorro de seu Micena, dona Nuca Romão e outras, se reuniam depois da novena e recolhiam muitas coisas para que pudesse fazer o leilão e toda a renda ia para a igreja, aqui de casa e de muitos familiares saia muita coisa”, explicou Dinha, enfatizando:

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“A gente continuou com essa tradição mesmo sem a nossa mãe, que Deus a levou há mais de 50 anos, mas, nós filhas ficamos com a tradição de estarmos sempre juntas e nesse período da festa podem estar onde estiverem nesse período vêm para cá. Infelizmente estamos vivendo como no ano passado na pandemia e esse vai se repetir, não vai ter aqueles encontros maravilhosos de pessoas que moram fora e vinham visitar. Minhas irmãs vieram, ficamos aqui em casa assistindo todas as noites pela televisão, a gente assistia como se estivesse na igreja”.

A FESTA DE SETEMBRO

Dinha vê a festa com divisões, o momento da Festa de Nossa Senhora da Penha e o momento que chama de Festa de Setembro, o primeiro momento tem toda a dedicação da igreja, são novenas, missas, procissão e tudo é conduzido de maneira encantadora para a cabeleireira. O segundo momento é dedicado as festividades de rua, com grandes bandas e muita folia, ela relembra das barracas e das festas do Clube Intermunicipal de Serra Talhada (CIST).

“É uma festa linda a de Nossa Senhora da Penha e extensiva a festa da rua, o que a gente chama de Festa de Setembro, é uma outra tradição maravilhosa, lembro de quando a gente tinha as barracas na praça e cada barraca tocava uma música e ficávamos sempre animados para assistir e participar. Tinha os parques no final da praça, com roda gigante, tinha também uma onda [brinquedo], aguardávamos o ano todo pela festa, até as vestes eram especiais, todas as noites maior parte das moças da cidade iam com roupas diferentes. Depois tínhamos também o CIST, lá eram bailes depois da festa e era muito bom”, relembrou a cabeleireira, completando:

“Sempre participei da procissão e continuo participando, ano passado foi uma carreata, então chegamos a acompanhar. Fiquei muito impressionada com o desempenho e a organização do encerramento da festa de Nossa Senhora da Penha no ano de 2020. Quero parabenizar o nosso pároco Padre Josenildo e toda a equipe organizadora da festa de 2020, por terem realizado um encerramento lindo e emocionante. Já tive várias graças alcançadas por Nossa Senhora da Penha, tenho muita fé nela. Também não podemos esquecer da Filarmônica que sempre brilhou aqui e na verdade foi tradição que veio de muito longe, linda e maravilhosa como hoje ainda é, na procissão também era e é um grande destaque”.

A PANDEMIA E A TRADIÇÃO

A cabeleireira fica muito triste com toda a situação da pandemia, pois as festas movimentavam o comércio, as casas e os abraços de reencontro. Era época de casa cheia, amigos e familiares se reuniam para comemorar, assim como visitantes que vinham para cidade e acabavam se apaixonando pela festa e pelos serra-talhadenses.

“É muito triste nós estarmos passando por essa situação e hoje não ter nada disso, não sabemos nem quando isso vai passar para que possamos realmente voltar a ter uma festa pelo menos semelhante a que já tivemos, eu tenho muita tristeza com isso, porque é doloroso. Diminuiu tudo em termo de negócios e também as pessoas que vinham já não podem vir mais, a casa sempre ficava cheia, setembro era a época que as pessoas vinham para cá às vezes para conhecer, às vezes para reencontrar as raízes e não tinha quem não se apaixonasse por Serra Talhada, nós serra-talhadenses somos acolhedores”, explicou.

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O CRESCIMENTO DA CIDADE

Durante muitos anos a festa ficou na Praça Sérgio Magalhães, era costume da missa acabar e os fiéis procurarem barracas para lanchar, escutar música e levar as crianças ao parque. Com o crescimento da cidade a praça ficou pequena e a festa teve que mudar o rumo, Dinha conta que tem saudades daqueles tempos, mas reconhece que não dava para manter a festa no mesmo lugar.

“Depois que a festa deixou de ser na praça, infelizmente eu só tive a oportunidade de ir umas 3 vezes durante todos esses anos, por conta da distância, antes eu ia caminhando era na porta de casa, mas a cidade cresceu e não tinha mais condição de continuar, a última festa que foi na praça e veio banda famosa, foi no ano que Calypso veio, foi uma festa linda e lotada, inclusive no dia da festa eu estava conversando com uma amiga e falávamos de que não tinha mais como a praça aguentar a festa, porque se houvesse alguma coisa muita gente seria pisoteada”, ressaltou.

UM MARCO EM SUA CARREIRA

Dinha Ferreira, que mora na Rua Enock Ignácio de Oliveira, até hoje assiste todo o desfile de camarote na varanda de sua casa, tem orgulho de todo o seu trabalho e recorda com alegria das Misses de Serra Talhada. No dia 7 de setembro no palanque da prefeitura, sempre tinha a presença das Misses com seus belos penteados feitos pelas mãos de Dinha.

“Uma das coisas que me marcou muito foram as Misses da cidade, porque todas eu arrumei e a primeira foi em 1977, se não me engano, foram 3 títulos consecutivos e arrumei as 3 aqui e ainda acompanhei uma em Recife. Não é sempre que isso acontece de ter 3 títulos consecutivos, então as outras cidades se empenharam, porque a verdade é que Serra Talhada é lugar de mulher bonita e temos que louvar isso”, lembrou a cabeleireira.

PEDIDO À NOSSA SENHORA DA PENHA

Dinha Ferreira, que já alcançou muitas graças de Nossa Senhora da Penha, faz um pedido de coração à santa. “Que Nossa Senhora da Penha acabe com essa pandemia, para mim é até emocionante falar, graças a Deus não perdi ninguém da minha família, mas vejo tantas famílias perderam entes queridos, eu rezo em família todos os dias e a gente pede pelo fim dessa pandemia, é o pedido que tenho para Nossa Senhora”, finzlizou com os olhos cheios de lágrimas.