20151124_130436

Fotos e vídeo: Farol de Notícias / Giovanni Sá Filho

Um caso de denúncia de tortura envolvendo policiais militares em Serra Talhada chegou a redação do FAROL DE NOTÍCIAS, através da agricultora Rozineide Maria de Magalhães, de 52 anos, que também relatou o caso em uma rádio da cidade. Ela prestou queixa na Delegacia de Polícia civil juntamente com a vítima, seu filho que assume ser usuário de crack. Confira a denúncia. 

FAROL: O que aconteceu com o seu filho no último domingo?

ROZINEIDE MAGALHÃES: Eu tenho dois filhos que são usuários de drogas, só que um está bem recuperado, hoje é missionário no Boa Nova e o mais velho de 36 anos não se adaptou aos tratamentos nas clínicas de recuperação, então está com cinco dias que ele saiu do Asparc e a primeira coisa que ele fez foi procurar a casa da avó. Só que os meus irmãos não aceitaram ele lá, eu pedi para a minha mãe que ao menos um prato de comida não negasse ou um banho. Quando foi antes de ontem (domingo, 22) ele apareceu lá dizendo que queria tomar um banho, minha mãe deixou ele entrar e pediu a avó um remédio para passar no ombro que estava doendo.

Ele entrou no quarto da minha mãe e viu, como usuário está seco para usar drogas, aí viu duas alianças. Uma era aliança mesmo de ouro bom, ouro 18 e o outro era um anel que eu tinha dado para ela. Ele foi e pegou rapidamente e levou, nisso minha mãe pediu para meu irmão, que é policial, é cabo, pediu que desse uma busca para ver se tinha como recuperar a aliança dela. Era de muita estimação dela, mas o que meu irmão fez. Ele estava de serviço com outro policial e tem outro irmão meu, que não é policial, mora em Petrolina e vive ameaçando de matar meu filho há muito tempo. Na hora que ele estava espancando isso ele falou que ele tinha muita vontade de fazer aquilo, que a vontade dele era matar naquela hora.

Veja também:   Cantoras serra-talhadenses lamentam morte de Marília

Como aconteceu esse caso do sumiço da aliança eles usaram isso como pretexto. O que os policiais fizeram? Autuaram ele na rodoviária, em um bar, tinha bastante gente lá presente, viram. Chegaram lá e já foram algemando ele, dando murro, derrubando no chão, pisaram, chutaram, depois arrastaram e jogaram no gaiolão da viatura e levaram para um lugar desconhecido. Meu filho falou que não sabe onde era. Chegando lá, bateram muito nele, muito mesmo.

FAROL: Segundo os relatos do seu filho, quais foram as agressões que ele sofreu dos tios?

ROZINEIDE MAGALHÃES: Chute, deram murro, coronhada de revólver e ameaças, palavrões. Tudo houve. O nome do outro policial eu não sei, mas o comandante deve saber porque ele estava escalado para trabalhar com o meu irmão. Mas os meus irmãos são o Cabo e outro que mora em Petrolina e não é policial. Eles levaram, torturaram, espancaram para ele dar conta da aliança.

Veja também:   New York Times chama Bolsonaro de 'triste escolha'

FAROL: Qual é a situação do seu filho? Onde ele está agora?

ROZINEIDE MAGALHÃES: Ele não ficou com escoriações no corpo, mas na cabeça sim. Corre até o risco de ele ficar com sequela, porque ficou com um olho muito vermelho, muitas escoriações no rosto, muitos nódulos na cabeça e também na clavícula teve uma pancada que subiu o nó.

FAROL: A senhora como mãe, vendo o seu filho nessa situação, qual foi o sentimento?

ROZINEIDE MAGALHÃES: Olha, eu me sinto… sinceramente, hoje eu estou melhor porque estou tomando muita medicação para manter a calma, mas eu estou desesperada. Principalmente porque um dos policiais falou que se ele abrisse o bico ia matar.

FAROL: O seu filho e a senhora prestaram o Boletim de Ocorrência na Delegacia, porém a senhora ainda teme que aconteça algo ao seu filho?

ROZINEIDE MAGALHÃES: Eu temo, eu temo mas só que eu não vou desistir. Eu quero justiça.

FAROL: Onde está o filho da senhora agora?

ROZINEIDE MAGALHÃES: Está internado em uma clínica para ele se recuperar clinicamente, ele foi de livre e espontânea vontade. Ele falou que depois disso, dele ver o meu sofrimento e o que ele passou, depois disso mais nunca ele vai querer saber de drogas. O que ele quer é ajuda das pessoas para que isso nunca mais aconteça com nenhum usuário, porque o que ele passou foi horrível e o que ele passou também. Ele estava no crack há muito tempo, mas ele trabalhava e levava uma vida normal, é eletricista e tem várias profissões, é pintor, é artista plástico.

Veja também:   Inscrições para lista de espera do Sisu terminam na próxima terça

20151124_130406

FAROL: Quais são as providências que a senhora pretende tomar agora, diante de uma denúncia, para tentar ajudar seu filho?

ROZINEIDE MAGALHÃES: Depois quando ele terminar o tratamento clínico eu vou tirar ele fora, para ele fazer um tratamento e inclusive fazer um curso superior. Não sei se você já ouviu falar do Rema, que é um curso superior que tem em uma igreja evangélica. Então, já me ofereceram isso, eu não sei qual é a cidade, mas eu sei que tem uma sobrinha minha que trabalha lá e a contou a situação. Eu sinceramente, era a última coisa que eu queria na minha vida, porque eu amava meu irmão.

O OUTRO LADOtibério césar

O FAROL conversou com o comandante do 14º Batalhão de Polícia Militar, Tibério César, que garantiu averiguar o caso. Segundo ele, caso se confirme as denúncias será aberto procedimento administrativo para apurar a responsabilidade dos PMs envolvidos. “O Batalhão ainda não tem conhecimento oficialmente da denuncia e é preciso que a denunciante venha protocolar essa denuncia aqui no batalhão. Mas de antemão a gente não tolera casos de tortura partindo de policiais e não apoia de forma alguma atitudes desse tipo. Se isso se confirmar os policiais serão responsabilizados”, assegurou o coronel Tibério César.