Da Folha de PE

Uma publicação em rede social do deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), debochando da tortura sofrida pela jornalista Míriam Leitão, colunista do Globo, durante a ditadura militar, provocou várias reações de repúdio. Deputados vão entrar nesta segunda-feira (4) com representação no Conselho de Ética da Câmara contra o parlamentar, filho do presidente Jair Bolsonaro.

O comentário do filho do presidente foi feito em conta do Twitter, na tarde deste domingo, em resposta a uma postagem em que a jornalista afirmou que Jair Bolsonaro (PL) é um inimigo confesso da democracia. Eduardo Bolsonaro escreveu: “Ainda com pena da cobra”, numa referência a um dos métodos empregados pelos torturadores da jornalista.

As representações, que estão sendo preparadas por deputados e dirigentes de PT, PSOL e PCdoB, devem argumentar que o deboche do parlamentar representa quebra de decoro parlamentar. O PCdoB também avalia que Eduardo Bolsonaro pode ser enquadrado em crime de apologia à tortura.

O deputado Orlando Silva (PCdoB-SP) afirmou que está consultando os advogados da sigla para mover a representação pelo “deboche afrontoso e desumano à tortura sofrida pela jornalista”.

Em seus perfis no Twitter, as deputadas Natália Bonavides (PT-RN) e Sâmia Bonfim (PSOL-SP) também anunciaram que vão acionar o Conselho de Ética. “A solidariedade à Míriam Leitão, torturada aos 19 anos e grávida, precisa ser a punição de Eduardo Bolsonaro”, escreveu Natália.

“Miriam Leitão estava grávida quando usaram uma Cobra numa sala escura para torturá-la. Um homem que faz piada com essa situação é desumano, repugnante”, acrescentou Sâmia.

Desde ontem, o comentário de Eduardo Bolsonaro gerou uma onda de repúdio por parte de políticos de diferentes partidos e ideologias.

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O senador Randolfe Rodrigues (REDE-AP) considerou o comentário covarde e asqueroso e “reflete o que essa família é”. O também senador Alessandro Vieira (PSDB-SE) escreveu que o ataque grosseiro contra a jornalista visa desviar a atenção de problemas como fome, miséria e casos de corrupção. “A estratégia dos Bolsonaros é clara: usar falas polêmicas para desviar a atenção”, afirmou o parlamentar.

O deputado federal Alessandro Molon (PSB-RJ) classificou o deputado como um “monstro”. A ex-deputada Manuela D’Ávila afirmou “que ele debocha do Brasil e de nossas instituições”.

Professora Dayane Pimentel, deputada federal (União Brasil-BA), escreveu que Míriam Leitão pode ter escolhas políticas diferentes das suas, mas isso é democracia.

“Mas Eduardo Bolsonaro ameaçar, xingar e desrespeitar a mim, a ela ou a qualquer outra mulher só mostra o vil que é. Família Bolsonaro é perseguidora de quem não se curva”, escreveu a parlamentar.

Jornalistas dos mais diferentes veículos e economistas também se pronunciaram a respeito da agressão do filho do presidente.

“Durante a ditadura militar, usaram uma cobra para torturar a Míriam Leitão, que estava grávida. Hoje, essa figura nojenta publicou isso”, protestou o economista Sérgio Goldenstein.

Em 2014, Míriam Leitão relatou que, dois dias depois de ser presa e levada para o quartel do Exército em Vila Velha, no Espírito Santo, ela foi retirada da cela e escoltada para o pátio. Míriam estava grávida. Seu suplício, iniciado no dia 4 de dezembro de 1972, até ali já incluía tapas, chutes, golpes que abriram a sua cabeça, o constrangimento de ficar nua na frente de 10 soldados e três agentes da repressão e horas intermináveis trancada na sala escura com uma jiboia. A caminho do pátio escuro, os torturadores avisaram que seria último passeio, como se a presa estivesse seguindo para o fuzilamento.

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“Repugnante e inaceitável

FOI REPUGNANTE, ofensiva e absolutamente inaceitável a manifestação do deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) que fez referência à tortura sofrida pela jornalista Míriam Leitão, colunista do GLOBO, durante a ditadura militar.

EM POST publicado numa rede social contestando uma crítica feita por Míriam ao presidente Jair Bolsonaro — ela o chamara de “inimigo confesso da democracia” —, o filho Zero Três zombou de um dos episódios mais dramáticos e cruéis da vida dela, a tortura a que foi submetida nos porões da ditadura enquanto estava grávida.

A MANIFESTAÇÃO do deputado deve ser repudiada com toda a veemência. É incompatível não apenas com o que se espera de um detentor de mandato popular, mas sobretudo com a decência e o respeito humanos. Merece, além do repúdio firme, providências das instituições obrigadas constitucionalmente a zelar pelo Estado de Direito”