Quando o 1º automóvel chegou a Belmonte

Publicado às 13h15 desta quarta-feira (16)

Por Valdir José Nogueira de Moura, Pesquisador e historiador Belmotense

Fora os dias de festas, nos dias comuns a pequena cidade de Belmonte revestia-se de suas feições de marasmo de vida de interior. Os seus habitantes conservavam a rotineira e pesada cara amarrada, guardando a velha fé e a velha tradição. Porém, essa rotina era quebrada naquela tarde de 15 de agosto de 1919, quando era realizado, na velha Matriz de São José, o enlace matrimonial de Antonieta de Carvalho Barros com Silvino Gouveia Gondim.

A tarde era limpa e azul. Às 17 horas o cortejo deixava a Matriz e se dirigia para a casa da mãe da noiva, onde se realizaria os comes e bebes. Nas janelas das casas se acotovelavam os curiosos ante a passagem do cortejo nupcial.
A alvura do trajo ressaltava a rosada moreneza da pele da noiva. A sua cabeça ostentava um véu com a capela de flores de cera, coroando-a um bonito diadema.

O espartilho quase deixava sufocada, tudo para que a cintura se afinasse bem além do natural. Ao seu lado, o noivo também elegante, entonado no seu terno de linho bem engomado.Organdis, “voiles”, sedas, chamarlott, tafetá, cambraias brancas com salpicos de cores, cetins e cassas adamascadas, rendas de algodão e seda, leques também de seda ou gaze, matizavam o cortejo dando-lhe um vivo colorido em modelos femininos. Tais tecidos eram as últimas novidades nas lojas de Seu Terto Donato, Seu Gonzaga e Seu Pedro Sobreira.

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De súbito, a pompa do cortejo é desfeita quando se ouve para o lado, onde hoje é a Rua José Alves de Carvalho, uma buzina estridente, aparecendo em seguida, em explosão, um automóvel tipo FORD “T” TOURING CAR 1908/1909. Era o primeiro a chegar a Belmonte vindo das bandas de Serra Talhada. O proprietário era o senhor Carolino Campos (Duduzinho), um ricaço de Triunfo, e era guiado, naquela ocasião pelo “chauffer” por nome Leôncio.

O carro barulhento que “voava” a 58 km/h causou espanto em uma cidade em que cavalos eram parâmetros de velocidade. Sua passagem pelas pacatas ruas de Belmonte foi um sucesso digno de registro. Seu barulho e aparência espantavam os animais amarrados às portas das casas além de chamar a atenção dos moradores. Conta-se que grande foi o alvoroço das pessoas do lugar por nunca terem visto “bicho” tão esquisito. Uns pensavam que era a “besta fera”, outros achavam que era o trem que havia saído da linha. No burburinho, muitas moças perderam brincos, colares, sapatos e outros adereços.

Depois de passado o susto, a multidão se aglomerou em volta do automóvel. Naquele momento, o jovem Estael Carvalho, filho do coletor Joaquim Alves de Carvalho Barros, usando da palavra, fez um bonito discurso saudando mais um invento da humanidade, falando que se tratava do mais acabado símbolo dos novos tempos, ambicionado pelos homens afortunados, acrescentando ainda que naquele começo do século XX, a cidade de Belmonte daria as costas para o campo, sendo que aquele veículo fazia parte da engrenagem que moveria a cidade para o futuro.

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A maioria dos belmontenses correu para admirar a grande maravilha tecnológica surgida na Europa no final do século XIX. O automobile, em português brasileiro, automóvel.A reação local a este fato novo variou do mais puro espanto ao pânico. Conta-se que um senhor saiu em disparada, com medo da “besta fera” que tinha acabado de chegar. Na sua carreira foi interpelado por um conterrâneo, que queria saber o motivo de tanta pressa. E ele respondeu que o fim do mundo estava próximo uma vez que a “besta fera” havia chegado. O outro respondeu que não precisava daquilo tudo, que era apenas um automóvel. O medroso, na sua pressa, nem ouviu direito. Respondeu que não eram oito nem nove, era um só, todo preto, com os olhos de vidro, e botando fogo pelo rabo.

No outro dia, outro chegou com um feixe de capim para dar ao bicho, que estava com fome de tanto andar.
Apenas para registro, com o passar dos anos o Sr. Tertuliano Donato de Moura, rico comerciante e pecuarista de Belmonte adquiriu o primeiro automóvel da cidade para uso da sua família e o entregou a seu filho o jovem Acelino Donato de Moura (Seulino).

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Vale ressaltar que possuir um carro naquela época era símbolo de status. Nos dias de sábado depois da feira Seulino arriava a capota do carro e ia passear com familiares e amigos pelas ruas de Belmonte. Um belo sábado, o costumeiro passeio se estendeu até a fazenda Ipueiras logo depois da Cacimba Nova. Na volta à cidade o carro não funcionou. Naquele tempo os automóveis não tinham “motor de arranco”, e era acionado por uma manivela.

Seulino tomou acento e começou a acionar a manivela do seu carro. Foram várias tentativas e como o motor não pegava, com a ajuda de outras pessoas resolveu empurrar. Insistiram e não houve jeito. O motor continuava mudo. Enquanto eles estavam nessa de fazer o carro pegar no tranco, um ancião das cercanias estava quietinho observando, e no auge da sua sabedoria gritou: – Esse bicho ai tem de comer no bucho? Nesse momento foi percebido que o carro não tinha combustível, e naquele momento o dono do automóvel mandou João Félix ir a Serra Talhada em um jumento “encangalhado”, para trazer a gasolina necessária para abastecer o automóvel.

O carro Ford Modelo “T”, mais conhecido no Brasil como Ford de Bigode foi sucesso de vendas da montadora de Henry Ford e vendeu 15 milhões de unidades de 1908 a 1927. Automóvel de mecânica simples, fácil de dirigir e barato, chegou a representar metade da frota mundial de veículos na época.