Fotos: Licca Lima/Farol de Notícias
Fotos: Licca Lima/Farol de Notícias

Por Paulo César Gomes, especial para o Farol de Notícias

Duas mães atípicas de Serra Talhada foram ouvidas pela reportagem do Farol de Notícias, na noite desta sexta-feira (10), a respeito das dificuldades enfrentadas na obtenção de fórmulas alimentares especiais fornecidas pelo município. Por receio de represálias, ambas solicitaram que suas identidades fossem preservadas.

Em respeito à Lei nº 15.211, de 17 de setembro de 2025 (Lei Felca), que estabelece normas de proteção de crianças e adolescentes em ambientes digitais, o FAROL também não divulgará imagens nem qualquer informação que permita identificar os menores envolvidos.

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O que chama a atenção nos relatos é o sentimento de abandono relatado pelas entrevistadas. Segundo elas, falta empatia e sororidade. O que nos estranha como repórter, é que apesar de o município ser administrado por uma mulher, a prefeita Márcia Conrado (PT) e de a Secretaria Municipal de Saúde ser comandada por outra mulher, Lisbeth Rosa (PT), essas mães, nunca receberam acolhimento, um simples abraço ou atendimento direto das gestoras ao longo dos anos em que buscam assistência para garantir um direito de seus filhos. “Não fui atrás para prejudicar ninguém. Estou atrás apenas do direito dos meus filhos”, resumiu uma das mães.

Ela contou que seus filhos possuem laudos médicos, acompanhamento com pediatra e nutricionista e apresentam baixo peso, além de um deles ser intolerante à lactose. “Tenho exames, laudos e qualquer médico pode constatar que eles precisam do suplemento. Já fizemos todo tipo de dieta, acompanhamento nutricional e nada resolveu. Quando eles tomam o suplemento, melhoram. Param de vomitar, param de ter diarreia e conseguem ganhar peso.”

Segundo ela, o objetivo nunca foi expor servidores públicos. “Meu intuito não é denegrir a imagem de ninguém nem ofender funcionário. Eu só quero garantir que meus filhos recebam as latinhas que têm direito todos os meses. Se estão cadastrados na Farmácia Municipal, existe documentação comprovando essa necessidade.” “Tenho medo de perseguição”.

Durante conversa com a reportagem na noite desta sexta-feira (10), a primeira entrevistada afirmou que passou a temer represálias após o assunto se torna público.

“Estou disposta a falar e mostrar tudo que tenho, mas estou com medo de me expor. Fiz aquela entrevista e fui julgada e ofendida apenas por ter ido atrás de um direito dos meus filhos.” Ela acrescentou: “Tenho medo de perseguição e de prejudicar meu trabalho. A realidade é que a gente sabe onde vive. Em Serra Talhada quem fala a verdade acaba se prejudicando.”

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Ainda segundo a mãe, conversas e áudios envolvendo profissionais da rede municipal aumentaram sua angústia.

“Fiquei sem entender quando ouvi que meus filhos seriam os que menos precisavam, sendo que foi a própria médica quem encaminhou meus filhos para receberem as fórmulas.”

A entrevistada afirma ainda que integra um grupo de mensagens criado para acompanhar a distribuição das fórmulas.

Segundo ela, dezenas de mães fazem parte do grupo, além de servidores municipais, mas muitas famílias ainda sequer teriam sido incluídas na relação. “Só recebi três vezes este ano”.

A segunda mãe entrevistada afirmou que seu filho necessita continuamente da fórmula especial, faz tratamento em Recife com neuropediatra e gastroenterologista, utiliza medicações de alto custo e faz uso de fraldas.

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Mesmo assim, segundo seu relato, o fornecimento das fórmulas ocorre de maneira irregular.

“Esse ano só recebi três vezes. No mês passado deram apenas quatro latas e disseram que eram doação.”

Ela também afirmou que, em diversas ocasiões, ouviu que a ausência das fórmulas estaria relacionada a problemas em processos licitatórios.

“Toda vez é uma história de licitação.”

Ainda conforme seu relato:

“São coisas que machucam uma mãe que corre atrás dos direitos do filho e encontra portas fechadas. Eu jamais queria que meu filho estivesse nessa situação.”

GRUPO DE MÃES

Uma das entrevistadas informou que um grupo formado por mães de crianças que necessitam de fórmulas especiais reúne dezenas de participantes.

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Segundo ela, muitas famílias relatam estar há meses sem receber os produtos e outras afirmam nunca terem sido contempladas.

Ela também incentiva outras mães a buscarem seus direitos.
“Esses leites são direitos dos nossos filhos. Não são favores. As mães precisam procurar seus direitos e não aceitar apenas migalhas.”

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Licitação milionária

Documentos obtidos pelo Farol de Notícias mostram que a Prefeitura de Serra Talhada abriu, através do Processo Administrativo nº 023/2026, o Pregão Eletrônico nº 015/2026, destinado ao registro de preços para aquisição de leites, suplementos alimentícios, fórmulas infantis e produtos para nutrição enteral e parenteral.

O valor estimado da licitação foi de R$ 1.225.874,73.

Entre os documentos analisados pela reportagem consta proposta apresentada pela empresa Innovakir Importação em Saúde Ltda., sediada no Recife, contemplando diversos produtos nutricionais, entre eles fórmulas infantis, suplementos e compostos alimentares da linha Nestlé, com prazo de entrega previsto de dez dias e pagamento em até trinta dias, conforme as condições da proposta apresentada no certame.

Entre os itens relacionados estão produtos como Nutren Senior, Nan Comfor, Nestogeno, Nestlac Comfor, Nutren Junior e Isosource Soya, destinados ao atendimento de diferentes necessidades nutricionais.

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Prefeitura atribui atraso à licitação

Em uma das mensagens encaminhadas às mães, uma servidora explica que houve problemas na contratação da empresa responsável pelo fornecimento das fórmulas.

Segundo a mensagem: “A empresa que aceitou a licitação achou que o valor era baixo e não aceitou mais fornecer a mercadoria. Agora estamos procurando outra empresa.”

As mães, entretanto, afirmam que convivem com interrupções frequentes no fornecimento muito antes dessa justificativa apresentada pela administração.

DIREITO DE RESPOSTA

O Farol de Notícias informa que encaminhará os questionamentos à Prefeitura de Serra Talhada e à Secretaria Municipal de Saúde, solicitando esclarecimentos sobre:

  • a regularidade do fornecimento das fórmulas alimentares especiais;
  • o andamento do Pregão Eletrônico nº 015/2026;
  • a existência de estoque dos suplementos;
  • os critérios adotados para distribuição das fórmulas;
  • as reclamações apresentadas pelas mães entrevistadas.

O espaço permanece aberto para manifestação oficial da Prefeitura, da Secretaria Municipal de Saúde e dos demais citados nesta reportagem.