Fotos: Celso Garcia/Farol de Notícias

Publicado às 04h46 desta quarta-feira (27)

Você sabia que o ato de engraxar e polir sapatos como profissão é uma tradição que existe desde 1806, considerada a data do nascimento do ofício de engraxate? Provavelmente não, inclusive muitos engraxates não sabem que o dia 27 de abril é dedicado a eles como forma de reconhecer a importância dos cidadãos que se dedicam a dar brilho não só no sapato, também no sorriso dos clientes que saem pela cidade com sapatos, sorrisos e corações reluzentes, após o bom serviço prestado e aquele bate papo camarada.

HISTÓRIA DO OFÍCIO DE ENGRAXATE

Há pelo menos duas versões para considerar o surgimento da profissão. Arqueólogos e historiadores dizem que esta profissão nasceu na Idade Média, época que funcionários especiais cuidavam dos calçados dos reis. Mesma época que meninos das vilas e aldeias cuidavam dos sapatos das pessoas em troca de comida.

A segunda versão, a mais conhecida sobre o ofício de engraxate, é a de um fato que ocorreu em 1806. Naquele ano, em Nápoles, um general francês socorreu uma senhora que estava passando mal na rua, como agradecimento, o neto da idosa, que era um adolescente muito carente, poliu em sinal de respeito as botas do general e recebeu uma moeda de ouro como recompensa. Soube esta mesma história, há quem diga que foi o ano que um operário poliu, em sinal de respeito.

JACARÉ, O ENGRAXATE DE SERRA

Ao longo do tempo, a profissão está em extinção, já não se ver mais dezenas de jovens circulando pelas ruas com os caixotes de engraxate como outrora. Até mesmo os que trabalhavam em pontos estratégicos. No entanto, alguns profissionais de Serra Talhada ainda resistem e mantêm a tradição apesar de também consertarem sapatos, não se dedicando apenas ao ofício de engraxate.

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Uma forma de reconhecer a resiliência e importância desses profissionais e tentar resgatar a cultura tanto de procurar o serviço de engraxate como de sapateiro para consertos, o FAROL conversou com João Gomes da Silva, conhecido por Jacaré, 57 anos. Há 31 anos ele abrilhanta os sapatos dos  serra-talhadenses na Travessa Francisco Gomes (Beco dos Barbeiros), no Centro da Capital do Xaxado.

Exatamente dia 20 de setembro de 1991, Jacaré pegou sua caixa de engraxate e ganhou as ruas do Centro de Serra Talhada na esperança de conseguir muitos sapatos para polir e levar o pão à mesa. A ideia vingou e em pouco tempo ele se instalou no (Beco dos Barbeiros), resiste ao tempo e as dificuldades e atualmente mantém o ofício, tanto engraxando quanto fazendo conserto em sapatos.

”O movimento caiu mais, antes era bom, mas não tem mais movimento, tem dias que não aparece um cliente, a gente compra o material, mas com o tempo ele fica ruim e a gente tem que jogar fora e comprar de novo. Permaneço aqui com meu trabalho, é uma paixão, fico aqui até mais ou menos 13h, mas pego bico quando aparece, pego corrida de moto táxi também para ajudar”, explicou.

Antes que ingressar na profissão de engraxate, Jacaré ganhava a vida trabalhando na agricultura. Mesmo morando na cidade, para onde aparecesse serviço ele ia, se instalava durante dias em diversas comunidades rurais onde aparecia as diárias.

Diante da resistência dos engraxates que ainda atuam em Serra Talhada, o Farol reverencia os anjos da rua com o poema ”O anjo engraxate” de Rubem Braga.

Como soubeste, ó anjo da rua,
que tenho os pés de crocodilo?
Como soubeste, ó anjo da rua,
que o meu sapato já foi lacustre?
e que preciso hoje ficar ilustre?
Como soubeste, ó anjo da rua,
que eu quero ter (pra que ninguém,
hoje, me eclipse) os pés de barro
resplandecentes como os dos anjos
do Apocalipse?

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Pequei com alma, pequei com o pensamento,
pequei com o corpo, só não pequei com os pés.
Vivo de pés no chão e cabeça no céu.
(No céu ou na lua?)
Ainda agora senti certo gosto de céu
como se houvesse beijado uma santa, na rua.
Tenho os pés inocentes mas em minha cabeça
moram os meus pecados azuis e dourados.
Nem há mal algum em ter pés inocentes.
Pois Cristo não lavou os pés aos seus apóstolos?
Vivo de pés no chão e cabeça no céu.
Mas não é o meu chapéu que ponho atrás da porta
na noite de maior inocência.
São os meus sapatos.