O pacto de 'beber o defunto' nas sentinelas do Sertão é histórico

Por Ananias Solon, Zootecnista e pesquisador

Depois de um reencontro fraterno com meus queridos primos: Acácio e Ananias, lamentamos a ausência no velório do seu pai. Ananias, que é meu xará, vive em São Paulo e Acácio aqui na terrinha.

Acima de tudo, foi um dia maravilhoso de recordações e boas conversas. Principalmente, quando o assunto era nossos queridos pais, Expedito e Antonio Ferreira.

A amizade era tão grande entre eles que parecia existir um acordo. A cada encontro, seja na alegria ou na tristeza, a emoção tomava conta. Sobretudo, para selar, tomavam todas.

Tio Antonio nos deixou em 2012, aos 83 anos, por morte natural. Desafiando assim a medicina, pois todos falavam que ele já não tinha mais fígado.

Meu tio foi uma pessoa do bem, produtor rural, desativou seu engenho de rapadura logo cedo. Seguindo sua trajetória de vida como agricultor.

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Acompanhou ao longo de sua vida o hábito de beber suas cachacinhas, fazendo assim um grande leque de amizade. Sendo conhecido na redondeza como homem que toma todas nos dias de feira, e frequentemente, voltava para casa esquecendo a feira!

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Viveu sua vida no Sítio Santa Luzia, município de Santa Cruz da Baixa Verde. Certo dia de feira, em um bar onde costumava tomar seus porres, estava ladeado pela turma de amigos beberrões.

Meu tio já em alto grau de alcoolemia, se desentendeu com seu amigo e cunhado Luiz de Paizim. Chegou as vias de fato, lhe desferindo a carga do seu revólver não acertando nenhuma bala.

Graças à proteção do santo protetor dos bêbados. Assim como, a intervenção dos amigos. Mesmo todos com inconsciência alcoólica, porém conseguiram apaziguar e encaminhá-los para os seus devidos sítios.

Dias depois lá estavam tio Antonio e Luiz de Paizim tomando umas no mesmo bar. Na maior harmonia, juntamente com seus fiéis correligionários de bebidas.

PACTO: BEBER O DEFUNTO

Em síntese, a morte é uma fatalidade da vida. Todos nós temos nossos caminhos traçados pelos desígnios de Deus.

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Meu tio era pessoa extrovertida. Bem como, um formador de opinião, sempre alegre. Naquelas ocasiões que estávamos juntos por algum motivo.

Principalmente, nas comemorações, ele sempre dizia que quando morresse, não queria choro nem vela. E sim, queria que tomasse todas em seu louvor.

Pois bem, assim foi o dia de sua partida em seu Sítio Santa Luzia. E lá estava meu tio Antonio Ferreira sendo velado pelos seus familiares e amigos, com tristeza e emoção.

E ao lado da casa, em baixo de uma árvore, seus amigos celebravam sua despedida. Assim como pedira.

Lembro-me que chegou um velho amigo de sítio vizinho, montado em sua mula bem arriada. Chegou bem em frente à casa, a mula ajoelhou-se, ele desceu e cumprimentou a todos.

Dirigiu-se ao pé do caixão, tirou o chapéu, e soluçando, conversou baixinho com meu tio. Em seguida, dirigiu-se à sombra da árvore ao lado da casa, onde já se encontrava vários amigos correligionários de carteirinha.

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O clima era de tristeza e risos, com as histórias que se desenrolavam. Cada um relembrava um caso, uma anedota relacionada a meu tio.

E lógico, acompanhados de uma boa cachaça. A cada tim tim, alguém dizia uma lôa.

Assim como, também tinham aqueles que derramavam um pouco de cachaça no pé da árvore para liberar os caminhos, outros derramavam para o santo.

E assim varou a noite, de vez enquanto passava uma rodada de tira-gosto. Lembro-me que outro velho amigo depois de tomar todas, foi ao pé do caixão.

De volta chegou dizendo que Ferreira sorriu para ele e pediu um gole de cachaça. Já outro em alto grau de embriaguez, chegou contente dizendo também que Ferreira estava vivo e apertou sua mão.

E assim fizemos a homenagem ao meu tio, conforme seu pedido.

Aqui termino tomando uma cachaça. Dizendo que beber com moderação faz bem à saúde: Tim Tim!