Da Revista Fórum

Foto: Montagem/Reprodução/Instagram

Vai ser na emoção. É isso que se pode esperar das eleições presidenciais do dia 11 de abril, travadas no Equador e no Peru. Enquanto o país de Lenín Moreno terá um segundo turno entre o economista correísta Andrés Arauz (UNES) e o banqueiro neoliberal Guillermo Lasso (CREO), os peruanos celebrarão um primeiro turno em que tudo pode acontecer, inclusive um retorno do fujimorismo.

A Fórum ouviu dois pesquisadores, Diogo Ives, Observatório Político Sul-Americano (OPSA) do IESP-UERJ, e Raul Nunes, do Núcleo de Estudos de Teoria Social e América Latina (NETSAL) do IESP-UERJ, sobre os cenários que se apresentam nos dois países. No Fórum América Latina desta segunda-feira (5), às 20h, a secretária-executiva do Foro de São Paulo, Mônica Valente, vai fazer um balanço político sobre os processos.

Equador

Após a indefinição sobre quem enfrentaria Arauz no segundo turno, o economista partidário da Revolução Cidadã parecia largar com vantagem segundo diversas pesquisas eleitorais. No entanto, com a proximidade do pleito, a margem foi se reduzido, até chegar o empate técnico, segundo o Atlas Inteligência, um dos institutos que mais acerta na América Latina.

Em levantamento divulgado na quinta-feira (1º), o Atlas dá uma vantagem de apenas 1,4 ponto percentual (40,8% x 39,4%) para o ex-ministro do ex-presidente Rafael Corrêa. Pesquisa da Eureknow divulgada no mesmo dia reduz a diferença para apenas 0,1 ponto (44,3% x 44,2%). Em 13 de março, quando o terceiro colocado, o ambientalista Yaku Pérez, ainda tentava assumir a vaga de Lasso, o instituto colocava Arauz com mais de 7 pontos de vantagem.

A aproximação de Lasso parece ter a ver com a promoção de uma campanha bastante agressiva nas redes sociais, o que inclui a difusão de notícias falsas e o uso de robôs, similar o que ocorreu no Brasil em 2018. Cabe destacar que a candidatura de Arauz enfrentou diversos percalços, com uma forte perseguição política travada contra o movimento da Revolução Cidadã.

Para Diogo Ives, professor de Relações Internacionais no Centro Universitário La Salle e doutorando em Ciência Política no IESP-UERJ, essa mobilização das redes de Lasso “reforça uma tendência recente, na América Latina, de que elites favoráveis ao projeto de Estado mínimo estão precisando recorrer a manipulações de informação para angariar apoio popular a uma agenda que se mostra reiteradamente frágil para gerar bem-estar coletivo, como evidenciado na crise latino-americana dos anos 1990, na crise global a partir de 2008 e no combate à pandemia hoje”.

O pesquisador, no entanto, acredita que a grande indefinição do segundo turno passa pela escolha dos eleitores que apostaram em Pérez no primeiro turno. O candidato e seu partido, Pachakutik, defendem publicamente o voto nulo, apesar da vice da chapa, apoiar Lasso. “A ascensão do Pachakutik como ator de peso na política equatoriana é um elemento completamente novo, que traz grande imprevisibilidade para o 2º turno. A escolha entre uma agenda desenvolvimentista, oferecida por Arauz, e outra neoliberal, proposta por Lasso, será uma novidade a ser observada com atenção, assim como a atuação dos parlamentares do Pachakutik nos próximos 4 anos, que formarão a 2ª maior bancada da Assembleia Legislativa. A bandeira de defesa do meio-ambiente, grande marca de Pérez, pode ter atraído votos de adeptos tanto de um ecossocialismo, que se aproximariam mais de Arauz, quanto de um “capitalismo verde”, que se inclinariam mais a Lasso”, disse Ives à Fórum.

Ives acredita que apoio recente do presidente da Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador (Conaie), Jaime Vargas, a Arauz, publicizado no último sábado pode dar um novo fôlego a Arauz. “Pode ajudar, pois contraria grupos da Conaie que defendem uma isenção no 2o turno e sinaliza, aos eleitores do Pachakutik, que um voto em Arauz tem respaldo em parte da liderança do movimento”, declarou.

Peru

Se no Equador a situação é imprevisível, no Peru é ainda mais. Dos 18 candidatos que concorre à presidência, 6 podem avançar para um segundo turno em uma disputa sem favoritos. Levantamentos publicados no domingo pelo Instituto de Estudos Peruanos (IEP) no La Republica, pela IPSOS no El Comércio e pelo Atlas Inteligência apresentam cenários distintos de segundo turno e um empate técnico múltiplo. Com a grande pulverização, não há favoritos.

Os seis mais cotados são Yohny Lescano, Hernando de Soto, Keiko Fujimori, Verónika Mendoza, George Forsyth e Rafael Lopez Aliaga. À esquerda está a socialista Mendoza. Lescano se coloca como um desenvolvimentista inspirado em Evo Morales. Forsyth, ex-goleiro da seleção peruana, tenta se impor como um outsider evangélico e além de Keiko, filha do ex-ditador Alberto Fujimori, os outros dois possuem alguma herança do fujimorismo.

Para o sociólogo Raul Nunes, doutorando em Sociologia pelo IESP-UERJ, o cenário é reflexo da crise política que o país vive desde 2016, quando Keiko foi derrotada por Pedro Paulo Kucinski por menos de 1% dos votos e a maioria do Congresso ficou com o fujimorismo. “O fujimorismo buscou desde o início desestabilizar a presidência de Pedro Pablo Kuczynski. A Lava Jato peruana foi um catalisador da crise, e envolveu a investigação, prisão e até suicídio das figuras mais importantes da política nacional”, declarou.

“Com a queda de PPK, o recém-empossado Martin Vizcarra investiu contra o Legislativo, forçando a agenda lavajatista anticorrupção. A instabilidade aumentou, e o Congresso ficou visto como sabotar, enquanto o presidente cravava altos níveis de aprovação, até ser derrubado pelos congressistas em novembro passado. O que as gigantescas manifestações que se seguiram demonstraram foi um rechaço enorme aos políticos como um todo, e acredito que é isso que move o alto nível de não-voto e a dificuldade dos candidatos em conseguir apoio”, declarou.

“O segundo turno pode ser entre qualquer um dos seis candidatos: Lescano, Forsyth, Fujimori, Mendoza, De Soto e Lopez Aliaga”, afirmou Nunes, evitando apontar um favoritismo entre os 6.

Questionado sobre a força do fujimorismo no pleito, o pesquisador destaca que são 3 figuras ligadas a essa política. “O fujimorismo tem 3, entre os 6 principais candidatos. Além de Keiko, o economista Hernando de Soto foi colaborador do governo Alberto Fujimori e da campanha de Keiko em 2016 e já disse que chamaria fujimoristas para integrar um possível governo. Em termos econômicos, De Soto é de um ultraliberalismo capaz de fazer a Keiko parecer moderada. Rafael López Aliaga corre pelo lado do ultraconservadorismo mentiroso e é chamado por Keiko de ‘populista de direita’”, afirma. “Com essa concorrências entre iguais, Keiko tem tentado passar uma imagem de moderação dos extremos recorrendo à imagem do pai”, completou.

Apesar dessa “moderação”, em um eventual segundo turno, Nunes aposta que “é extremamente improvável que ela ganhe”. “Depois de ser presa na Lava Jato (hoje ela viaja com autorização judicial) e de contribuir para a desestabilização política, ela é líder em rejeição. Só teria chance num segundo turno contra López Aliaga, mas teria que equilibrar acenos à esquerda com acenos aos ultraliberais”, disse.

A principal esperança da esquerda no pleito é a candidata Verónika Mendoza, do Juntos pelo Peru, que vem desde o fim do ano passado bem colocada em pesquisas. Apesar disso, ela teve dificuldade em formar um coalizão de esquerda.

“A campanha da Verónika Mendoza enfrentou desafios enormes”, afirma o sociólogo, que destaca o racha da candidata com a Frente Ampla, o ressentimento do ex-presidente Ollanta Humala (PNP) com ela, e os ataques de Pedro Castillo, do Peru Libre. Enquanto Humala e o canditado da Frente Ampla, Marco Arana, patinam, Castillo tem crescido em redutos que a socialista poderia se sair bem. Além disso, a candidata é taxada pela imprensa e por conservadores como “chavista” e terrorista, sendo colocada também à sombra do Sendero Luminoso – na qual não possui qualquer relação.

“Além disso, a proposta de uma nova Constituição que ponha fim ao primado neoliberal do fujimorismo sobre o país causa calafrios a todo o establishment peruano, que logo pensa em gastança e descontrole fiscal. Ainda assim, Vero conseguiu manter boa parte do apoio que teve em 2016 (quando terminou em 3º) e continua sendo o principal nome da esquerda. É uma candidata muito preparada e bem articulada, que fez uma campanha linda”, acrescenta Nunes.

Sobre Lescano, Nunes o classifica como um “figura muito intrigante: a esquerda o considera de direita e vice-versa”. “Ele tem posições conservadoras no âmbito moral (é contra legalização do aborto em caso de estupro, por exemplo), mas foge do consenso neoliberal peruano em termos econômicos”, afirma. “Quando penso em Lescano, penso em figuras latinoamericanas como López Obrador e Ciro Gomes”, completou.

Fórum América Latina

O Fórum América Latina desta segunda-feira (5) vai tratar sobre essas incertezas em uma entrevista com a secretária-executiva do Foro de São Paulo, Mônica Valente. O programa é apresentado por Lucas Rocha e Rogério Tomaz Jr e também vai falar sobre as eleições da Constituinte do Chile. O cientista político Manuel Jaimes ainda comenta sobre as pesquisas eleitorais que mostram que a esquerda pode surpreender na Colômbia em 2022.