Professor Jaime, de ST, abre o seu baú de histórias

Fotos: Farol de Notícias/Max Rodrigues

Publicado às 14h desta quinta-feira (4)

Nessa quarta-feira, o Farol de Notícias visitou o professor e artista plástico Jaime Gonçalves. Ele fez  80 anos em janeiro passado. Um profissional que se dedicou à educação de Serra Talhada, lutou e conseguiu implementar o 2º grau do município pelo estado na década de 70. Se submetendo, inclusive, a responder inquérito administrativo para manter o curso para os alunos que não tinham condições de pagar ou de ir embora para outras cidades.

Jaime é pai de Jamerson, Jackson, Jeferson, Júnior e Juliana, casado com Maria da Penha Carvalho. Ele nasceu na Sítio Gavião, em Luanda, distrito de Serra Talhada em 1941, perdeu sua mãe, Maria Rita de Lima, aos 3 anos de idade e passou a morar na casa do avô paterno junto com o pai Pedro Gonçalves de Lima. Por não querer levar a vida na roça, viu uma saída no sacerdócio e foi fazer seminário em Triunfo, logo em seguida Campina Grande-PB e em Sirinhaém-PE, porém após 9 anos de estudos ele foi dispensado com o argumento que não tinha vocação.

LEMBRANÇAS DE MORTES NA INFÂNCIA

”Meus pais não eram ricos, mas também nunca passei fome, graças a Deus. Éramos 3 irmãos, Mita, Tião e eu, a gente nasceu na fazenda Gavião. Minha mãe morreu com 24 anos, minha irmã tinha 4 anos, eu tinha 3 e meu irmão tinha 2 anos. Ela faleceu grávida e a menina nasceu morta. Ela teve da febre que deu em 1944, a febre do rato que dizimou muita gente. Morreu minha mãe e uns 4 irmãos dela dessa febre”, disse continuando:

”Quando mãe faleceu, eu fui com meu pai morar na casa do meu avô paterno, meu irmão Tião foi para casa do outro avô e Mita foi para a casa de uma irmã do meu pai. Fui trabalhar na roça com meu pai, ainda pequeno lutando com gado. Para eu sair da roça fui para o seminário no Convento dos Franciscanos, em Triunfo. Estudei dois anos e fui para Ipuarana, em Campina Grande, lá eu estudei 7 anos. Durante os 7 anos de estudo, estudei latim, francês, inglês e alemão, porque a maioria dos frades eram alemãs”, relembrou.

Depois de estudar em Campina Grande,  Professor Jaime foi para o Noviciado em Sirinhaém, próximo de Recife, para adquirir experiência com a ordem dos franciscanos, mas segundo ele, foi chamado, mas não foi escolhido. Depois de 3 meses de noviciado, o padre mestre o chamou para uma conversa e disse que ele não tinha vocação para ser frade. Aconselhou que aqui fora o jovem teria chances de chegar mais longe. Então saiu do seminário e voltou para o Sítio Gavião em Serra Talhada.

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TRAJETÓRIA NA EDUCAÇÃO

Como seu pai, Pedro Gonçalves, tinha muito conhecimento com Luiz Lorena, prefeito de Serra Talhada na época. Com a chegada de Jaime, logo pensou que havia chegado o momento de aceitar ajuda que o prefeito lhe ofereceu outrora. O filho foi falar com Luiz Lorena explicando que tinha cursado 9 anos de seminário e não queria mais voltar para a roça. O ex-seminarista recebeu um bilhete e foi instruído a ir ao Cornélio Soares, antigo Industrial, e se apresentou ao diretor, o professor Laércio. Assim o fez e iniciou sua carreira no Industrial trabalhando na secretaria.

”Depois surgiu a oportunidade de substituir professoras que entraram de licença maternidade e o professor Laércio me colocou para ensinar português e principalmente matemática. Comecei como professor nessa situação, mas trabalhando na secretaria também. Com 9 meses eu deixei a secretaria e fiquei só como professor e assim comecei engatinhando como professor de matemática. Agradeço muito ao professor Laércio que me deu a mão”, relembrou o professor Jaime.

Em 1972, o professor Laércio deixou a direção do Colégio Industrial e Jaime Gonçalves assumiu a direção da escola em 26 de abril de 1972.  Ao Farol, o professor revelou que naquela época, não havia o 2º grau pelo estado em Serra Talhada. Só existia no Cônego Torres e na Escola Normal. No final do mesmo ano letivo, havia mais de 200 concluintes do ginásio e esses alunos ou paravam de estudar ou tinham que ir para outra cidade ou tinham que pagar para estudar no  Cônego Torres ou na Escola Normal.

LUTA PELO 2º GRAU NA REDE PÚBLICA

Inconformado com a situação dos 200 alunos, os quais a maioria não podia pagar para cursar o 2º grau e tantos outros dos anos posteriores, o mestre decidiu cair em campo e lutar para trazer a modalidade de ensino para Serra Talhada acreditando que era possível, pois segundo ele, já existia em Salgueiro, Floresta, Afogados da Ingazeira, então era justo que chegasse a cidade também.

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”Eu cai em campo, fiz abaixo assinado para conseguir o 2º grau e entreguei ao Sr. Argemiro Pereira que foi quem me deu a mão e tinha prestígio na Secretaria de Educação de Pernambuco e seguimos lutando. No final de 1973 saiu a autorização que eu podia matricular 3 turmas do 2º grau no Industrial. No ano seguinte, mandaram me chamar para dizer que tinha que dispensar os meninos ou nós íamos responder um inquérito administrativo. Minha resposta foi que preferia responder inquérito administrativo porque não ia dispensar. O secretário que viesse a Serra Talhada e dissesse perante as turmas que eles estavam dispensados. Que eu ia continuar batalhando”, relembrou o professor Jaime.

Mesmo estando sujeito a responder inquérito, Jaime não desistiu e com ajuda de Argemiro Pereira, que sempre mostrava a situação na Secretaria de Educação, conseguiram o credenciamento do curso no final de 1974. Logo surgiu o Colégio Methódio Godoy Lima, chamado Centro de Educação Rural na época, depois foi criada a atual Escola Clóvis Nogueira Alves. E assim começou o 2º grau pelo estado em Serra Talhada.

PROFESSOR UNIVERSITÁRIO

Durante sua trajetória docente atuando em algumas escolas da Capital do Xaxado, surgiu uma nova oportunidade para o Patriarca do Ensino Médio Público de Serra Talhada graças a coragem de sua primeira esposa, Maria Hilda Gonçalves de Sá, que falou com Hildo Pereira, o prefeito da cidade, e conseguiu um cargo de professor na atual AESET e posteriormente o cargo de diretor.

”Quando Hildo Pereira era prefeito, dona Hilda, minha primeira esposa, falou com ele e Hildo mandou um recado para Auremar, que era diretor na faculdade, dizendo: ‘receba Jaime aí como professor’ e eu comecei como professor de disciplinas da área de matemática. Pra isso, eu fiz Licenciatura em Matemática em Arcoverde e fiz Licenciatura em História Natural no Crato (CE) porque a de Arcoverde era licenciatura curta”, relatou continuando:

”Depois surgiu a plenificação em matemática em Arcoverde e eu fiz também. Agradeço a Hildo Pereira e a coragem da minha primeira esposa de chegar e falar com ele para eu trabalhar na faculdade. Fui diretor da faculdade também e assim se foram os anos.  Assim foi minha vida até hoje. Tenho minha aposentadoria pelo INSS e pelo estado como professor. Lutei para sair da roça porque via que era possível acontecer, apesar das dificuldades da época, e consegui”.

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ENCONTRO COM A ARTE

Ainda quando atuava como professor, Jaime Gonçalves começou talhar as primeiras toras de madeira sem nenhuma pretensão, apenas com o desejo de saber se levava jeito. O desejo surgiu porque via algumas pessoas da família trabalhar com madeira, embora fosse na área da marcenaria. ”Algumas pessoas da minha família já trabalhavam com madeira e eu sempre visitava, um dia eu perguntei: como eu faço pra ver se tenho jeito para talhar? Me deram um desenho de um gato e um pedaço de madeira e não é que eu talhei o gato. Por aí comecei”, explicou Jaime.

Depois da primeira experiência, a segunda que produziu foi uma escultura de Nossa Senhora da Cabeça. Fez uma cabeceira de cama, muitas outros santos, entre eles o cobiçado São José, também produziu algumas pinturas em tela, como a que contempla toda a serra que dá nome a cidade. Apesar de não criar para comercializar, apenas para a família e amigos, afirmou que perdeu a conta de suas criações. ”Nunca comercializei porque não valia a pena, o povo não dá valor a arte. Nunca produzi para ganhar um centavo”, ressaltou o escultor.

A beleza e riqueza de detalhes nas obras talhadas em madeira de Jaime Gonçalves eram tamanha que deixa dúvidas em quem contempla. Um exemplo disso aconteceu com o famoso São José que foi cedido pelo artista plástico para uma exposição no Centro de Convenções em Recife. Ficaram impressionados com tamanha perfeição que chegaram a raspar a peça para se certificar que realmente era de madeira, acreditando que fosse de algum outro material.

Atualmente, aos 80 anos, Jaime divide a vida com sua companheira Penha Carvalho com quem se casou em 2011, desfrutando das lembranças do grande legado que construiu e deixou para a educação de Serra Talhada, com a certeza que lutou conquistou e deixou a semente plantada para germinar e produzir bons frutos.

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