Do UOL

Foto: arquivo pessoal

No Brasil, as mulheres representam 0,5% do total de caminhoneiros, de acordo com a Confederação Nacional de Transporte (CNT). Em um ambiente sem grande participação feminina, surge a Afrodite. Uma mulher, trans, com 72 de idade e que vence as barreiras dos preconceitos diariamente ao lado de seu caminhão.

Antes de virar Afrodite, seu nome era Heraldo de Almeida Araújo. Heraldo, por sua vez, deixou de existir e deu espaço para o nascimento de uma nova mulher.

Afrodite se descobriu transexual aos 13 anos, quando adotou o nome da deusa grega. A primogênita da família se identificou com o sexo feminino no nascimento de sua primeira irmã.

Foi a partir deste momento que as indagações surgiram. Afrodite se questionava e queixava para a sua mãe o motivo pelo qual não era igual a uma menina.

“Quando me mudei para São Paulo na adolescência, sentia inveja das meninas. Queria ser igual a elas, ter seios como elas e ter a aparência feminina”.

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Entre os milhares de nomes existentes, o da deusa foi escolhido. Afrodite sempre teve uma ligação muito forte com as águas. Quando mais nova, quis servir a Marinha, sonho que nunca saiu do papel.

Na mesma época em que se compreendeu como um ser feminino, estudava mitologia grega e se deslumbrava com o universo lúdico da história.

Foi se aprofundando no assunto que aprendeu a origem e o nascimento da deusa. Segundo a lenda, Afrodite é filha de Urano e das águas, o qual o significado de seu nome reflete a “espuma do mar”.

Por tanto, resolveu homenagear a divindade da mitologia. Porém, tudo era irreal para aqueles com quem dividia o dia a dia. “Eu vivia na fantasia. Todas as mudanças ficavam apenas na minha cabeça”.

Quando saía de casa, ia trajada com as vestes masculinas e, por baixo, utilizava as lingeries que produzia na malharia em que trabalhava. Foi assim por alguns anos. Depois, quando comecei viajar sozinha para realizar os fretes, me vestia como mulher até me assumir por completo.

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Influenciada pela família, Afrodite seguiu carreira de caminhoneira. Quando criança aguardava seus primos com seus caminhões, um de frete (Alfa Romeu) e o outro de lixo (Chevrolet), para passear. “Adorava quando passavam em casa para darmos uma volta.”

Ao servir no Exército, aprendeu a dirigir e ser mecânica. Era responsável pela manutenção dos caminhões. Sua primeira experiência no volante foi com um caminhão Mercedes 1111, carregando um Jeep utilizado na Segunda Guerra Mundial. Tempos depois utilizou os conhecimentos para seu próprio empreendimento em empresa de elétrica e frete.

Sua ligação afetiva com quatro rodas vai além da paixão pelos caminhões. Uma relíquia se mantém na família junto com milhares de histórias: um Jeep 101 guarda as memórias que restaram de seu pai, que faleceu há pouco tempo.

O modelo antigo foi utilizado para ensinar seis dos sete irmãos a dirigir, além de outros conhecidos da família que tiveram sua primeira experiência no volante do off-road.

Se a família trouxe o amor pelo caminhão, recentemente também está no centro de uma disputa que Afrodite enfrenta para poder trabalhar.

Por questões de documentação pendente, seu caminhão foi confiscado pela polícia rodoviária. A caminhoneira afirma que, para bancar as despesas do veículo apreendido, aceitou ajuda de um sobrinho para recuperar o caminhão.

Porém, diz que ele a teria convencido a transferir a propriedade do veículo, prometendo devolver o caminhão após o fim do processo – o que não teria acontecido.

O caso está na Justiça e, enquanto isso, a caminhoneira vive com sua aposentadoria de R$ 700 e com auxílio financeiro de sua filha.

Afrodite cita as poucas vezes que foi ofendida durante seu trabalho como caminhoneira. Ela explica que, na estrada, muitos parceiros e colegas de viagem aceitaram sua transformação e até elogiaram sua coragem.

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Porém, é inevitável fugir totalmente do preconceito. Entre viagens e milhares de quilômetros, Afrodite já foi ameaçada e ofendida verbalmente.

Essa situação agrava cada vez mais suas vulnerabilidades perante a idade e o medo de retornar ao trabalho. Ela alega que, por mais que nada tenha acontecido, o receio de ser agredida ainda permanece.

Dentro de casa, Afrodite conta que filha, genro e neta a aceitam como é. Essa relação, porém, não se repete com o restante de sua família.

“Sofro preconceito por parte dos meus familiares. Alguns me aceitam e outros não. Já fui agredida psicologicamente e até tiraram o caminhão de mim”.

Em pesquisa realizada pela ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), o ambiente familiar é o primeiro responsável pela exclusão de pessoas pertencentes a comunidade trans e, estima-se que 13 anos seja a idade média em que mulheres transexuais sejam expulsas de casa pelos próprios pais.

Eu reuni a vontade de ser quem sou juntamente com minha coragem

Afrodite já foi tema de propagadas de uma empresa de combustíveis contando sua história e desfilou para a marca Ken-gá, que realizou uma coleção de roupas guiada pela trajetória da caminhoneira.

Durante boa parte de sua vida, porém, o tema da transexualidade era tratado com muito tabu. “Não ouvíamos falar no assunto, era tudo muito novo e velado. A primeira vez que vi alguém parecida comigo foi quando Roberta Close e Rogéria ganharam espaço na mídia.”

Hoje, a mulher faz uma série de acompanhamentos médicos e psicológicos para enfim conseguir finalizar sua transformação.

Afrodite está na fila do SUS para realização da cirurgia de readequação de sexo e aguarda ansiosamente para realizar seu maior sonho.