Paulo CésarPor Paulo César Gomes, Professor, escritor e colunista do Farol

Anualmente Serra Talhada é submetida à controvérsia histórica das mais complexas. Tudo se deve ao fato de que se comera a emancipação política como se ela de fato representasse o surgimento da cidade. Isso se equivale a um brasileiro comemorar a sua emancipação – que ocorre após os 18 anos -, ao invés de comemorar a data do nascimento.

A grande maioria das cidades brasileiras comemoram o seu aniversário a partir da data em que os primeiros colonizadores pisaram em seus respectivos solos. Assim é em São Paulo, que comemora no dia 25 de Janeiro, data em que foi celebrada a primeira missa no então planalto de Piratininga, terra escolhida pelos padres jesuítas José de Anchieta e Manoel da Nóbrega para iniciar o processo de catequização dos índios.

Recife e Olinda, por exemplo, completam aniversário no mesmo dia, 12 de março. Olinda tem 481 anos, sendo que ela foi elevada a condição de Vila em 1537, logo em seguida tornou-se a primeira capital do estado de Pernambuco, mas o seu registro inicial se dar a partir do momento em que a Capitania de Pernambuco foi entregue ao fidalgo português Duarte Coelho, em 1534. Recife têem 479 anos, isso por que em 1537 a atual capital era apenas um povoado formado por pescadores. A data de aniversário  o rei de Portugal, D.João III, o Foral, carta de doação que descrevia todos os lugares e benfeitorias existentes na Vila de Olinda.

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E SERRA TALHADA?

Sendo assim, compreende-se que a data de aniversário de uma cidade deve ser comemorado a partir do momento em que iniciou-se o processo de colonização. No caso específico de Serra Talhada, as terras que hoje compreende ao município, foram arrendadas a Casa Real da Torre pelo português Agostinho Nunes de Magalhães, em 1757.

Porém, não existe um registro sobre uma data exata do evento, no entanto, o ex-prefeito e historiador Luiz Lorena, afirma em seu livro “Serra Talhada. 250 anos de história. 150 anos de Emancipação política”, que em 10 de fevereiro de 1778, uma segunda-feira, foi realizada a primeira reunião de feirante, na então fazenda Serra Talhada.

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Ora, ignorar a importância do dia 10 de fevereiro de 1778 para a cidade chega a ser uma atrocidade com a história com o município, já que a feira livre sempre foi um dos maiores símbolos do desenvolvimento econômico do município. Um importante marco da cultural e da historia da cidade e que por essas razões merece ser visto com outros olhos.

Por outro lado, é preciso que se comece a revisar o significado do dia 06 de maio de 1851, uma data que representar uma vitória política da então Villa Bella sobre Flores. Segundo o escritor Luiz Wilson, a história de Serra Talhada está intimamente ligada à briga entre os Pereira e os Nogueira Barbosa, chefes políticos de Flores (Wilson, 1974).

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Com a ascensão política dos Pereiras, Serra Talhada começou a prosperar, enquanto Flores, começou a entrar em declínio. Uma prova disso é que em 06 de maio de 1851 Serra Talhada (data da famosa emancipação política) passou a ser a sede da comarca do Pajéu das Flores.

Um dos elementos negativos da exaltação ao 06 de maio, é o fato de que se tenta passar uma borracha nos acontecimentos anteriores a data, entre eles, o extermínio de índios que habitavam a região pelo homem branco, assim como, o processo de escravidão que é totalmente ignorado pela história oficial.

É por essa e por outras razões, que se faz necessário uma revisão urgente da história de Serra Talhada, um trabalho que deve envolver historiadores, pesquisadores, professores, acadêmicos, as secretarias municipais e as fundações ligadas à educação, história e cultura. O que não se pode aceitar é a existência de uma fraude contra a memória de um povo. Parabéns Serra Talhada pelos seus 238 anos de história!